A posição do Partido Comunista Português (PCP) a respeito da invasão da Ucrânia pela Rússia surpreendeu muita gente, sobretudo quem não se recorda das posições que aquela força política assumiu no passado, em ocasiões como a invasão da Checoslováquia pela URSS, ou aquando da assinatura do pacto germano-soviético entre Hitler e Estaline.

Não há grande ciência nisto: o PCP recorre a artifícios retóricos que visam desculpabilizar a atuação da Rússia porque esta é uma das poucas potências que tentam fazer frente à ordem liberal e às sociedades abertas da Europa e dos Estados Unidos. Pouco importa que Putin seja de direita (no contexto russo) e anti-comunista. Se amanhã utilizar uma arma nuclear numa cidade ucraniana, o PCP irá apressar-se a voltar a “defender a paz”, leia-se, a culpar a vítima pela agressão de que é alvo.

Esta forma de ver o mundo assenta na ideia de que os fins justificam os meios, uma vez que haverá um qualquer bem superior, ou parúsia final, que não só justifica a continuidade da “luta” como todas as atrocidades que entretanto sejam cometidas em seu nome.

É a mesma lógica assassina que procura justificar ou minimizar os crimes cometidos pela URSS e por dezenas de regimes comunistas em todo o mundo.

É, também, a mesma cegueira e fanatismo que faziam com que muitas das vítimas das purgas dos anos 30 aceitassem confessar todos os crimes que lhes fossem imputados pela NKVD, morrendo depois, como bons comunistas, dando vivas a Estaline e ao Partido.

É o mesmo relativismo moral que faz com que pessoas decentes e com uma inteligência acima da média ainda hoje tentem desculpar os crimes cometidos por Lenine e Estaline, rejeitando que estes estejam no mesmo patamar ético e moral dos ditadores do extremo-ideológico oposto, como Hitler, Mussolini, Franco e o nosso Salazar.

Nesse mundo ao contrário em que uma parte do PCP ainda vive, a verdade tem pouca importância, bem como a realidade. A verdade é aquilo que o Partido ditar. “Paz é guerra, liberdade é escravidão, ignorância é força”, escreveu Orwell. Se a Revolução exige que morram milhares de pessoas, assim seja. Como essas mortes foram por uma “boa causa”, aqueles que as provocaram são certamente melhores que os ditadores de direita. É assim que muita gente ainda pensa no PCP e no Bloco de Esquerda. Claro que – e é importante referir isto – o mesmo acontece também em alguma direita, porque a crença de que os fins justificam os meios não é exclusiva da esquerda.

Porém, sejamos nós de esquerda ou direita, quem verdadeiramente ama a liberdade reconhece no seu semelhante o mesmo direito a pensar e a exprimir-se livremente, ainda que seja ofensivo ou profira os maiores disparates.

Quem verdadeiramente ama a liberdade atribui a mesma dignidade a todas as pessoas, independentemente da sua origem, classe social, orientação, credo, posicionamento político, cor da pele ou outras caraterísticas individuais.

Quem verdadeiramente ama a liberdade reconhece que cada indivíduo é único e que nada justifica perseguir, deter, expropriar, oprimir, silenciar ou assassinar as pessoas só porque se encaixam numa qualquer categoria que para elas tenhamos criado, por muito nobre que seja a “causa”. Quem age de outra forma acaba por considerar a morte de milhões uma simples estatística.