Há dois meses, quando o pequeno Estado da Costa Rica se viu forçado a declarar emergência nacional na sequência de um ciberataque, o mundo tecnológico e político assistiu com preocupação.

Mas agora que o protagonista de uma espetacular falha de segurança foi a China, a maior potência tecnológica do mundo segundo vários parâmetros, não podem restar dúvidas de que entrámos num novo capítulo da competição digital.

No fim de semana passado, descobriu-se que estavam à venda na internet os dados pessoais de quase mil milhões de pessoas, chineses e estrangeiros residentes no país. Por 10 bitcoins, ou seja, 200 mil dólares, estavam disponíveis 23 terabytes de números de telefone, registos criminais, informação sobre a etnia dos cidadãos, nível de escolaridade e até históricos de atividade online.

Trata-se da maior fuga de informação digital de sempre na China, mas o caso só começa a ficar realmente bizarro quando vemos que a falha teve origem na própria Polícia de Xangai, a instituição responsável por combater o cibercrime na metrópole.

Não sendo novidade que Pequim considera a vigilância dos comportamentos individuais uma ferramenta essencial para a estabilidade do regime e para a execução das suas políticas públicas, importa, ainda assim, perguntar: como pode uma polícia recolher e armazenar tantos dados de cidadãos e tão detalhados?

De facto, este episódio demonstra não só as capacidades técnicas e tecnológicas do aparelho estatal chinês, como a sua voracidade pela coleta de dados.

Apesar de existirem contornos ainda mais bizarros ao longo desta história, como o facto de a informação ter estado exposta durante mais de um ano, sem que ninguém se tivesse apercebido, o caso de Xangai encerra ainda outro aspeto fundamental: podemos estar perante o início de uma revisão, por parte dos Estados, dos benefícios de construírem e controlarem infraestruturas tecnológicas públicas.

Na verdade, o governo chinês já tem os seus próprios servidores de cloud e um regime como o de Pequim pode reorientar, com relativa facilidade, a sua estratégia tecnológica para o desenvolvimento de soluções estatais, acelerando o divórcio com os grandes players privados.

No plano externo, outros Estados poderão seguir este modelo, contibuindo para o decoupling digital com os Estados Unidos e para a emergência de duas esferas tecnológicas opostas: uma liderada pelo Ocidente, que privilegia a privacidade, a outra liderada por Pequim, que prefere a segurança.

Aliás, o responsável político chinês que assumiu a única reação pública a esta falha de segurança foi o próprio Presidente Xi Jinping, que afirmou ser “necessário salvaguardar a segurança dos dados do país, proteger as informações pessoais e os segredos comerciais e promover a circulação e o uso eficientes de dados para fortalecer a economia real”. Portanto, para perseguir a sua estratégia, a China precisa de mais controlo sobre a informação e de melhor proteção sobre os dados.

É para esta competição tecnológica, assente numa bipolaridade geopolítica, que a economia global se encaminha e as empresas mais expostas ao ambiente internacional de negócios devem tê-la presente.