Foi assinado na quarta-feira, em Versalhes, à margem do G7, o memorando interino que suspende a guerra de Ormuz e reabre o estreito. O preço antecipou-se à assinatura. O Brent, que atingira 115 dólares quando os mísseis caíram sobre o Irão em Fevereiro, afundou para os 79, mínimo de três meses, e o gás europeu caiu para cerca de 41 euros por megawatt-hora. Reabre-se a passagem de um quinto do petróleo e do gás do mundo. Os vencedores são evidentes: o consumidor, o importador asiático e os produtores do Golfo, com mais de cem petroleiros retidos e cinco milhões de barris por dia de capacidade ociosa.

Um dos principais derrotados não está à mesa. Fica em Moscovo.

A leitura apressada diria o contrário. Durante meses, a guerra pareceu um presente para o Kremlin. O Urals, que em Dezembro valia 34 dólares, subiu para 94 em Março e 112 em Abril. Houve semanas em que o crude russo, sancionado e marginal, se transaccionou com prémio de sete a oito dólares sobre o Brent. Pela primeira vez em anos, os barris de Moscovo eram disputados.

Mas foi uma ilusão óptica. Enquanto o preço subia, os drones ucranianos faziam o movimento inverso. Mais de vinte ataques este ano a refinarias e terminais provocaram prejuízos acima de sete mil milhões de dólares, retirando, no pico de Março, perto de 40% da capacidade de exportação e empurrando a refinação para o nível mais baixo desde 2009. Como as peças críticas estão sob sanção tecnológica, cada reparação alonga-se entre seis e dezoito meses. O ganho no preço foi absorvido pela perda de volume e pela erosão da margem.

Há uma dimensão menos visível, mas decisiva. Os ataques russos contra cidades ucranianas tornaram-se política de compensação. São operações caras, de eficácia militar limitada, para mascarar a ausência de progresso na frente. Sem força para vencer no terreno, o Kremlin compra visibilidade com mísseis dispendiosos e simula domínio onde já não o tem. É teatro coercivo, num momento em que Moscovo sabe que a margem se estreita.

Trump abriu-lhe a porta de um cofre que Kiev já tinha esvaziado.

Por ironia histórica, a decisão americana de impor a paz no Golfo converte-se numa das mais pesadas sanções que alguma vez se abateram sobre o Kremlin, sem que ninguém precisasse de a decretar. Não veio de um pacote saído do próprio G7, mas do mecanismo mais implacável de todos: a reversão do preço.

E a factura chega no pior momento. O petróleo e o gás valem um quinto da receita do orçamento federal russo, traçado com um Urals a 59 dólares. Cada dez dólares de queda no barril retira a Moscovo cerca de 1,6 mil milhões por mês. Em Janeiro, a receita energética já caíra mais de 50%. A Rússia entra no quinto ano de défice, gasta as reservas do Fundo Nacional de Bem-Estar, subiu o IVA para 22% e viu a economia contrair no primeiro trimestre, com o crescimento anual cortado para meros 0,4%. É sobre este corpo debilitado que a nova descida incide.

Há ainda a armadilha do cliente único. A China compra à Rússia 2,2 milhões de barris por dia, um quinto das suas importações, mas Pequim preparou-se: passou quase um ano a reforçar reservas a preços baixos e atravessou o choque de Ormuz praticamente ilesa. Agora, os barris do Golfo, e os do próprio Irão que o acordo repõe no mercado, inundam o espaço asiático que Moscovo capturara. O comprador que não tinha alternativa passa a ter abundância. E sabe-o. O desconto que exige só pode aprofundar-se.

No gás, a dependência é ainda mais nua. Perdida a Europa, que em 2021 lhe comprava 157 mil milhões de metros cúbicos e este ano comprará 39, a Rússia ficou refém da China, que lhe paga o gás com um desconto de 35%, cerca de 245 dólares por mil metros cúbicos contra os 375 dos restantes clientes. O Power of Siberia 2 está num impasse e Pequim não tem pressa. Petróleo em queda e gás em queda, vendidos ao único freguês que dita o preço.

Nada disto é definitivo. A queda do preço durará o tempo desta trégua, e a trégua anuncia-se frágil. Mas mesmo que o petróleo volte a subir, isso não devolve a Moscovo o que já perdeu. A penalização opera agora, e opera por acumulação. O memorando assinou-se em Versalhes. Parte da factura paga-se em Moscovo.