O objetivo da Altice em juntar negócios de telecomunicações, media e publicidade é construir redes capazes de concorrer com o Google e o Facebook. Esta é a estratégia que suportar a proposta de compra da Media Capital, dona da TVI.
A Altice controla operadora de telecomunicações PT Portugal (Meo), que anunciou, a 14 de julho, um acordo com a espanhola Prisa para a compra da Media Capital, numa operação avaliada em 440 milhões de euros, que motivou críticas dos concorrentes do sector das telecomunicações, Nos e Vodafone, mas também do sector da comunicação social, a Impresa.
A operadora considera que “investiu muito nas redes de telecomunicações, mas a maior fatia do negócio que essas redes proporcionam está a ser conquistada por outros”, pelo que considera essencial juntar a este negócio media e publicidade, disseram ao Jornal Económico fontes ligadas à operação.
A estratégia da Altice passa por “levar publicidade especificamente a cada cliente”, através da plataforma mais adequada.
Para isso, “é necessário conhecer e ter relação com os clientes, ter conteúdos que funcionem para os clientes e ser capaz de levar publicidade a cada um desses clientes”, explicam as mesmas fontes.
É tendo em conta esta estratégia que a empresa recusa as críticas das empresas que operam no mercado português de media. “As empresas de mais rápido crescimento no mercado publicitário em Portugal são o Google e o Facebook. Para os media tradicionais, o mercado tem encolhido e vai continuar a encolher”, referem as mesmas fontes, sublinhando a estratégia que preside à aquisição da Media Capital e que motivou, também, a compra da Teads, por cerca de 285 milhões de euros, em março. A Teads é uma empresa francesa, pioneira em soluções para distribuição de anúncios online.
Se concretizar a aquisição da Media Capital, a Altice promete investir na TVI, apostando na migração do canal de notícias TVI24 para a plataforma TDT e criando canais regionais, em Lisboa e no Porto.
Pretende, também, apostar na internacionalização dos conteúdos produzidos em Portugal.
Críticas da Nos e da Sonae
O anúncio do negócio de aquisição da Media Capital pela Altice gerou críticas, com os concorrentes da Meo a acusarem a empresa de origem francesa de pôr em causa a concorrência no mercado e, mesmo, a democracia.
Em resposta, a Altice acusou hoje os seus concorrentes de tentarem transformar o negócio de compra da Media Capital, dona da TVI, num “assunto político”.
Em comunicado, os responsáveis pela empresa afirmaram que esta “não tolerará tentativas, por parte dos seus concorrentes, de desviar o rumo do processo tal qual previsto nos termos da lei, incluindo tentativas de transformar uma transação entre empresas privadas num assunto político”.
A posição surgiu depois de a operadora de telecomunicações Nos ter criticado a posição da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, que não chegou a consenso sobre a operação de compra da Media Capital pela Meo, não seguindo o parecer desfavorável feito pelos seus serviços técnicos.
Em comunicado, a Nos congratulou-se com o sentido do parecer dos serviços técnicos da ERC, mas criticou que não fosse aprovado pelo conselho regulador. “A Nos não aceita, nem se conformará com qualquer resultado que em seu entender prejudique os interesses dos cidadãos ou do país”, anunciou a empresa, acrescentando que “recorrerá às instâncias competentes, com vista a garantir a proteção dos mesmos”.
No mesmo dia, a 20 de outubro, o presidente executivo da Sonae, principal acionista da Nos, criticou o presidente da ERC, Carlos Magno e o negócio em si.
“Acredito que esta não decisão carece de sustentação legal, mas sinto o dever de dizer bem alto que estamos a assistir a uma tentativa de deixar passar uma operação que provocará um grave e perigoso enfraquecimento da resiliência e qualidade da nossa sociedade”, disse Paulo Azevedo, em declarações à agência Lusa.
A concretização do negócio “criará as condições para que daqui a 10 anos possamos estar todos indignados com a descoberta de uma ‘operação Marquês’ [processo em que são arguidos José Sócrates e Ricardo Salgado] 10 vezes maior”, acrescentou.
A Altice prometeu apresentar uma queixa contra Paulo de Azevedo e considerou aqueles comentários como uma tentativa de politizar o negócio da aquisição da TVI por concorrentes da Meo.
“Deverá ficar de sobremaneira claro que os comentários feitos em nome da democracia, ou outras afirmações igualmente alarmistas feitas por concorrentes, se resumem a tentativas flagrantes de poderosos grupos económicos no sentido de perpetuar o status quo”, defende a Altice.
“Estes poderosos grupos não hesitaram em atacar e intimidar os reguladores e outros envolvidos no processo, continuando a levar a cabo uma campanha claramente orquestrada contra a perspetivada transacção”, sustenta.
“É particularmente surpreendente ver um grupo como o grupo Sonae, que sempre protestou contra a interferência política em processos anteriores em que esteve envolvido e em que falhou os seus objectivos, tentar trazer agora, quando lhe é conveniente, a política para o processo”, aponta, no comunicado.
O processo de aquisição da Media Capital pela Meo está a ser analisado pela Autoridade da Concorrência (AdC).
Tagus Park – Edifício Tecnologia 4.1
Avenida Professor Doutor Cavaco Silva, nº 71 a 74
2740-122 – Porto Salvo, Portugal
online@medianove.com