As vezes que ouvimos e dizemos que os portugueses são estruturalmente avessos ao risco. É aquela ideia de sermos conservadores, de não gostarmos de mudanças. Por isso, guardamos o dinheiro debaixo do colchão ou em depósitos a prazo, com perda de valor garantida, comido pela inflação, mas com dinheiro à vista, à mão. É verdade. No final do ano passado as famílias tinham 201 mil milhões de euros em depósitos nos bancos. Um recorde. Somos aforradores, não investidores.

Mas isto é só uma parte da imagem, redutora. Os portugueses são arriscados, audazes, desafiam a sorte. Por isso, recusam os seguros. Só têm em conta os que são obrigatórios e, mesmo esses, no nível mínimo de proteção e quando não há escapatória possível. Seguro automóvel, porque tem de ser, ou para a habitação, quando o banco obriga, por causa do crédito, e sem cobertura de riscos catastróficos, quando opcional. Sai mais barato e todos sabemos que coisas más só acontecem aos outros e por puro azar.

A APS – Associação Portuguesa de Seguradores avisa que apenas 25% do valor segurável de imóveis e estruturas sensíveis ao clima está protegido, e mesmo quando existe algum tipo de seguro, mais de 90% dos prejuízos associados a catástrofes naturais não são cobertos. No caso dos sismos a situação é ainda pior. E as empresas, especialmente as micro e as pequenas, também aqui estão.

O comboio de tempestades que fustigou a zona centro do país foi um aviso, mas devia ser um despertar. Dos 5,3 mil milhões de euros de estragos, só 2,2 mil milhões seriam potencialmente seguráveis e, destes, só mil milhões estavam cobertos. Ou seja, menos de 20% do total. O aviso foi para a emergência das alterações climáticas. Não adianta clamar pela resposta das seguradoras quando não temos seguro. O despertar tem de ser para a necessidade de prevenção, por exemplo na construção, e na proteção, por causa dos azares.