O complexo Orbán: Steve Bannon, George Soros e… Mário David

É um dos grandes medos atuais da Comissão Europeia: um pré-partido pan-europeu chamado The Movement, que quer ser o agregador de todos os eurocéticos e antieuropeístas. A Hungria faz parte do seu crescimento, a seis meses das próximas eleições para o Parlamento Europeu.

REUTERS/Francois Lenoir

Para além de todas as razões já expostas que estão por trás da possível restrição dos direitos da Hungria na União Europeia e no Conselho Europeu por via da utilização do Artigo 7º do Tratado de Lisboa, há uma outra que serve como uma espécie de pano de fundo e que constitui um dos atuais maiores receios da Comissão Europeia: um movimento pan-europeu, precisamente chamado The Movement.

De contornos ainda mal definidos, pelo menos publicamente, o movimento parece ter sede em Bruxelas (ou talvez Geneva, na Suíça) – é pelo menos daquela cidade que emanam as intervenções públicas que já produziu – e assume-se como um partido que quer agregar as vontades eurocéticas e antieuropeístas que grassam cada vez com maior força no interior da União Europeia.

Por trás deste movimento, ou pelo menos apoiando-o, está Steve Bannon, antigo conselheiro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que nas muitas horas vagas que ganhou depois de ter sido mais ou menos expulso da Casa Branca tem viajado repetidamente para a Europa, onde participou em vários fóruns organizados por partidos e organizações de extrema-direita.

A ideia é a da formação de um partido que possa juntar eurocéticos e antieuropeístas para a criação de um grande grupo com lugar no Parlamento Europeu – precisamente o lugar que posteriormente pretenderá destruir. O The Movement tem afirmado que está a preparar-se para concorrer às próximas eleições para o Parlamento Europeu e que quer atingir a fasquia dos 30%, mas como o calendário é apertado – as eleições decorrerão em maio de 2019 – é possível que ainda não seja desta.

De qualquer modo, a semente está lançada e a Comissão Europeia está em alerta vermelho: depois dos avatares internos da política polaca, do crescimento da extrema-direita na Áustria, na Holanda, em França, na Alemanha, na Itália e finalmente na Suécia, dos ‘desvarios’ da Hungria e da incapacidade de gerar um Brexit aceitável para todos, o pior que podia suceder ao projeto europeu seria ver acantonado no seu próprio âmago o gérmen de um movimento que em última análise pode determinar a sua própria morte.

Com um outro fator só para complicar: a evidência de que a votação contra a política do primeiro-ministro Viktor Orbán no Parlamento Europeu deixou razoavelmente incomodados muitos membros do Partido Popular Europeu (para além dos do PCP) remete para a conclusão de que o euroceticismo já ‘contaminou’ o maior partido do Parlamento Europeu.

Lesto na análise das envolventes, Steve Bannon disse recentemente numa entrevista televisiva que quer preparar uma emissão de criptomoeda (uma Initial Coin Offering, ICO) que possa financiar o The Movement.

Para alguns analistas, o The Movement pretende de algum modo ser concorrente e o oposto da Open Society Foundation, criada em 1984 pelo multimilionário George Soros. Por acaso, o ex-terror dos mercados financeiros é também húngaro: Viktor Orbán chegou a ser bolseiro da fundação, mas quando Soros enveredou pela defesa da Europa como um bloco e assumiu que iria ajudar os refugiados e imigrantes que chegam ao espaço comum sem quaisquer recursos, o primeiro-ministro conseguiu ‘enxotá-lo’ para fora das fronteiras do país.

Neste quadro, Viktor Orbán assume cada vez mais a liderança do movimento eurocético e antieuropeísta, tendo por certo ido ‘beber’ ensinamentos a alguém que, recordou recentemente o ex-embaixador Francisco Seixas da Costa, foi seu assessor político: o português Mário David.

Mário David está ligado aos países do leste europeu há anos, como assessor de Durão Barroso na Comissão Europeia e como eurodeputado do PSD – integrado no Partido Popular Europeu, tendo chegado a ser dirigente da Internacional Democrata do Centro (IDC). Mas a sua grande intervenção pública deu-se há cerca de dois anos, quando incentivou uma candidatura da búlgara Kristalina Georgieva contra António Guterres na corrida ao cargo de secretário-geral da ONU.

O antigo eurodeputado do PSD chegou a ser foi condecorado pelo primeiro-ministro húngaro em abril de 2016 por “serviços prestados” e por ser “um verdadeiro amigo” da Hungria que esteve ao lado do governo “mesmo quando outros lhe viraram as costas”, segundo palavras que acompanharam a condecoração.

Do The Movement faz ainda parte, segundo a imprensa britânica, Raheem Kassam, inicialmente membro do Partido Conservador e mais tarde consultor e amigo de Nigel Farage, antigo líder da extrema-direita britânica do UKIP – praticamente o único partido de extrema-direita varrido do mapa político em eleições na Europa nos últimos quatro anos.

Kassam chegou a ponderar uma candidatura à liderança do UKIP depois da derrota de Farage nas eleições britânicas de maio de 2015, mas acabou por sair abruptamente do partido – aparentemente de forma pouco cordata, dado que se tem envolvido em alguns desacatos com membros da formação.

Os próximos capítulos desta história paralela ao famoso Artigo 7º do Tratado de Lisboa por certo seguirão dentro de momentos.

Viktor Orbán, o “brilhante” e “diabólico” líder da Hungria

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