A curadora Felipa Almeida desafiou cinco ceramistas a inspirar-se em cinco tapeçarias da autoria de pintores que colaboraram com a Manufactura de Portalegre, para criarem diálogos entre a cerâmica e a tapeçaria. É neste contexto que Aramy Machry, Emília Nadal, Maria Paz Aires e Henriette Arcelin encontram Cruzeiro Seixas, Menez, Maud Téphany, Carlos Botelho e a Oficina Marques.
Nesta exposição coletiva intitulada “Viagem”, que estará patente na Galeria de Tapeçarias de Portalegre, em Lisboa, de 22 de março a 1 de junho, promove-se uma expedição por técnicas e saberes que resulta num encontro entre duas práticas artísticas – cerâmica e tapeçaria – nas quais Portugal há muito se tem afirmado.
Curiosamente, apesar da grande tradição têxtil do país e de muitos dos feitos épicos dos portugueses terem sido representados em tapeçaria, resultaram de encomendas em França e Flandres, visto a tradição da tapeçaria só ter começado a desenvolver-se no século XVIII. Pela mão do Marquês do Pombal, foram criadas duas fábricas de tapeçarias que iriam dar lastro à produção nacional após a destruição de boa parte daquelas peças na sequência do terramoto de 1755. Mas nenhuma lhe sobreviveu e só dois séculos depois voltou a existir tapeçaria em Portugal. Mais concretamente em Portalegre.
Corria o ano de 1946 quando dois amigos, Guy Fino e Manuel Celestino Peixeiro, decidiram reavivar a tradição dos tapetes de ponto de nó, em Portalegre. A concorrência era grande e o negócio não mostrava viabilidade. Foi então que Manuel do Carmo Peixeiro, pai de Manuel Celestino, desafiou os dois jovens a fazer tapeçaria mural com um ponto inventado por ele, anos antes, enquanto estudante têxtil em Roubaix, no norte de França.
Resultado? Inaugurou-se então uma tradição que ainda hoje perdura, i.e., convidar artistas plásticos para imprimirem o seu cunho pessoal na que é hoje conhecida como “Tapeçaria de Portalegre”. A primeira surgiu em 1948, com desenho assinado por João Tavares. Outros pintores como Júlio Pomar, Maria Keil, Guilherme Camarinha, Renato Torres, Lima de Freitas, estão entre os primeiros que colaboraram com a Manufactura de Tapeçarias. Muitas vozes se ergueram, críticas. A tapeçaria tinha de ser francesa ou flamenga.
Outro ano marcará a história da Manufactura e da Tapeçaria de Portalegre, 1952, quando nomes de referência da tapeçaria francesa se deslocaram a Portugal para a grande exposição “A Tapeçarias Francesa da Idade Média ao Presente”, que não só enalteceram a técnica como reconheceram a elegância e perfeição obtidas com o ponto de Portalegre.
Faltava dar mais um passo. A saber, cativar Jean Lurçat, o renovador da tapeçaria francesa, para a tapeçaria de Portalegre. Alcançado esse objetivo inicia-se a internacionalização da Tapeçaria de Portalegre, que convidou pintores de diversos países, desde França, Bélgica e Suíça, a Inglaterra, Suécia, África do Sul, Austrália, Brasil, Espanha, entre muitos outros.
Desde então, passou a estar representada em coleções particulares e instituições de renome mundial, como a Culturgest e a Fundação Calouste Gulbenkian, ou o Supreme Court of New South Wales na Austrália, o Governo de Bad-Wurtemberg na Alemanha, o Tribunal de Justiça Europeu no Luxemburgo ou o Palácio do Governo, em Brasília.
A sua missão de preservar esta técnica passa por manter ligações estreitas ao mundo das artes e, não menos importante, por formar e manter no ativo as tecedeiras de Portalegre que, um dia, Jean Lurçat qualificou como “as melhores tecedeiras do Mundo”.
A Galeria Tapeçarias de Portalegre situa-se na Rua Academia das Ciências, nº 2J – em Lisboa, junto ao Bairro Alto, e encontra-se aberta às terças e quintas, das 14h00 às 19h30. Outros horários por marcação.
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