Estaremos a entrar numa era de desglobalização? No World Economic Outlook de Abril, o Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra-se apreensivo pelas consequências sobre o Investimento Direto Estrangeiro (IDE) daquilo que designa pela fragmentação geoeconómica entre países. Os fluxos de IDE, que apresentam uma propensão decrescente desde a crise financeira de 2008, diminuíram ainda mais se o destino é a China e os países asiáticos. A nova tendência é a concentração destes fluxos em blocos de países alinhados entre si.
Numa análise do conflito Rússia-Ucrânia, a McKinsey conclui que o risco geopolítico faz hoje parte da agenda dos diretores executivos das empresas quando avaliam as condições económicas globais. Mas se a eclosão da guerra na Ucrânia exponenciou o fracionamento geopolítico, a sua grande e prolongada expressão são as tensões crescentes entre Estados Unidos e China – os conflitos latentes entre estas duas potências estão no centro das angústias dos anglo-saxónicos (a este respeito, vale a pena seguir as capas da revista “The Economist”) e, por arrasto, do mundo.
Para o think tank Bruegel, as forças centrífugas sobrepõem-se hoje às da codependência entre países. Quando o escalar das tensões políticas amplia a incerteza e a imprevisibilidade, o IDE – um produto da globalização – recua e/ou ganha novas orientações geográficas, como tem vindo a acontecer.
E, ainda que o mundo como um todo fique mais pobre, as economias dos países emergentes e em desenvolvimento serão as mais vulneráveis à deslocalização do IDE já que verão diminuir o seu acesso ao capital e ao progresso tecnológico. O FMI estima que ocorrerá uma perda de produção global a longo prazo próxima dos 2% do produto interno bruto mundial em resultado da retração do IDE – o custo da imposição das preferências geopolíticas sobre a localização geográfica do IDE.
Estas tendências devem ser lidas no contexto mais global do conjunto dos movimentos internacionais de capitais, onde a China parece ser cada vez mais um líder. Uma publicação com autoria, entre outros, de Carmen Reinhart (que, com Kenneth Rogoff escreveu um artigo que viria a legitimar as políticas de austeridade adotadas após a crise da dívida soberana) revela como a China tem assumido o papel de banqueiro internacional de última instância, emprestando a países em dificuldade ou, por outras palavras, resgatando-os.
Estes empréstimos, que se destinam quase exclusivamente aos devedores da Belt and Road Initiative – o plano de infraestruturas global perpetrado pela China para ligar o seu mercado aos da Ásia, África e Europa –, têm permitido a sua afirmação no sistema financeiro mundial. Com isto, tornou-se um importante instrumento de gestão de crises entre economias emergentes e em desenvolvimento.
A China é hoje uma imensa força centípeda, pela dimensão da sua economia e pelo centralismo das suas decisões económicas estratégicas. O mundo ocidental vive desconfortável com esta nova realidade. Mas para o mundo emergente parece representar uma lufada de ar fresco.
Nesta fase, o FMI só pode alertar para a retração do crescimento mundial que resulta dos conflitos. A capacidade que a China terá para se substituir perante as economias em desenvolvimento são ainda cenas dos próximos capítulos.



