Para promover a sua visão de um mundo sem armas nucleares, o primeiro-ministro japonês Fumio Kishida levou os líderes do G7 ao local onde, em Hiroshima – onde se realiza a cimeira –uma bomba atómica foi usada pela primeira vez contra população civil. Mas Kishida pode acabar por passar à história do seu país como o líder afastou o Japão de décadas de uma atitude pacifista: Tóquio está empenhada no reforço do seu rearmamento, como parte do esfoço de militarização regional patrocinado pelos Estados Unidos.
A aparente contradição, dizem as agências internacionais, reflete a evolução do papel internacional que o Japão de Kishida está a tentar traçar no meio de um ambiente de segurança cada vez mais incerto e no seio de uma região onde o apelo às armas se faz sentir de forma particularmente audível.
A presença próxima da Coreia do Norte, de Taiwan (que foi japonesa entre 1895 e 1945), da Austrália (que faz parte do UAKUS) e da poderosa China, aconselham vivamente o primeiro-ministro japonês a olhar para o pacifismo como uma quimera que já não tem sentido – tal como em parte fizeram a Finlândia e a Suécia. Sustentadamente alicerçada desde o fim da II Grande Guerra numa aliança com os Estados Unidos, o Japão é assim uma das primeiras fronteiras dos interesses ocidentais no Pacífico.
Em dezembro passado, recordam as mesmas fontes Kishida, um antigo opositor das armas nucleares e cuja representação enquanto parlamentar era precisamente Hiroshima, anunciou planos de multiplicar os gastos militares nos próximos cinco anos para 2% do PIB – gastos nem de perto atingidos desde a II Guerra.
A estratégia de reforço da segurança inclui planos para aumentar as capacidades de guerra cibernética e a comprar mísseis norte-americanos capazes de destruir alvos distantes. A cimeira do G7 é uma oportunidade para mostrar essa nova postura e de garantir aos seus aliados que está do lado ‘certo’ das trincheiras. Aliás, na região, o Japão foi dos países mais declaradamente anti-invasão da Rússia à Ucrânia – movimento que considera em tudo semelhante ao que pode suceder com Taiwan.
Entretanto, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky deverá chegar a Hiroshima apenas no domingo, mas a sua presença no Japão já foi confirmada, refere a Associated Press. Até lá, a sua participação será virtual. Mas o presidente não perdeu tempo e chega mais tarde apenas porque fez um ‘desvio’ até ao Médio Oriente para se encontrar com os membros da Liga Árabe, que se encontram reunidos em Jeddah, Arábia Saudita.
Na sua intervenção, Zelensky pouco se desviou da retórica que tem usado nas capitais por onde tem passado nas semanas mais recentes, enfatizando que o seu país precisa de armamento para se defender do invasor. E exortou a Liga Árabe a “não fechar os olhos” à guerra. Zelensky sabe que em Jeddah não está num terreno demasiadamente favorável. Prova disso, se necessária fosse, está no facto de, no aeroporto local, ter sido recebido pelo príncipe Badr Bin Sultan, que apesar de ser príncipe, é apenas vice-governador de Meca.
Os interesses entre a Rússia e vários países da Liga Árabe – grupo que chegou a ter excelentes relações com a União Soviética – nomeadamente a Arábia Saudita, têm vários cruzamentos, o que implica alguma contenção em relação ao tema da guerra.
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