Os rendimentos dos papéis das dívidas soberanas mais resilientes foram particularmente afetados pelo aumento das taxas de juro – ‘vendidos’ como o medicamento mais eficaz para o combate à inflação global: depois de anos e anos de estabilidade, perderam repentinamente uma parte substancial do seu valor (aquilo a que os analistas chamam ‘subir pelas escadas e descer pelo elevador).
Depois de quase 15 anos de políticas de taxas a 0% – e mesmo negativas durante vários anos – o crescimento das taxas em 525 pontos-base nos Estados Unidos em apenas 17 meses veio baralhar as contas. Talvez essas contas fossem feitas por analistas que ainda não eram vivos há 40 anos atrás, numa altura em que a inflação nos 10% era uma normalidade, mas o certo é que os mercados entraram em ebulição.
Por definição, o jogo financeiro em torno da dívida está assente na sua previsibilidade – de facto, os ganhos só são possíveis quando são os jogadores a terem nas mãos a capacidade de introduzirem no sistema fatores externos em linha com os seus interesses. Num quadro de imprevisibilidade endógena, ninguém sabe ao certo no que resultará a introdução desses fatores. O jogo fica estragado.
Neste contexto ‘baralhado’, a dívida mundial gerou perdas de mais de 13% para os investidores, até recuperar para um rendimento médio de 4%, níveis não vistos desde a falência do Lehman Brothers, no último trimestre de 2008.
Para os analistas, este marco confirma que a situação no mercado da dívida voltou a alguma normalidade, após anos de estímulos dos bancos centrais que acabaram com os altos rendimentos. No entanto, esse retorno aos 4% significa que as perspetivas dos analistas, que vêm destacando a renda fixa como o principal ativo a ter na carteira desde o fim do ano passado e mantiveram essa opinião nos últimos meses, não estão a ser cumpridas em 2023, segundo análise do jornal espanhol “El Economista”.
Prova disso é o índice da dívida global da Bloomberg, o Bloomberg Global Aggregate Index, que já perdeu quase completamente os ganhos que gerou para os investidores desde o primeiro dia do ano. Esta quarta-feira, o índice deixou um saldo de ganhos de 0,09% em 2023, após perder 1,9% em agosto.
Se forem levadas em conta as principais categorias de dívida que podem ser encontradas no mercado, a renda fixa soberana é a que está a causar mais problemas no curto e médio prazo, refere a análise do jornal. Em 2023, o índice deste tipo de obrigações recolhido pela Bloomberg já perde 0,9%, depois de acumular a queda de 2,1% que sofre desde o início de agosto. Os papeis norte-americanos de maturidade a 10 anos exemplifica isso: perderam 2,5% em 2023.
O principal motivo pelo qual a dívida fixa não está a passar pelo grande ano que se esperava tem a ver com a incerteza em torno da alta de juros dos bancos centrais. A inflação alta ainda não permitiu que essas instituições confirmassem que o processo de aumento das taxas de juros acabou, e embora haja possíveis aumentos no preço do dinheiro lá mais para a frente, a atratividade da dívida é diluída pela possibilidade de maiores aumentos nos rendimentos até ao seu vencimento, com as quedas de preços que isso gera.
A resiliência demonstrada pela economia mundial, que até agora conseguiu evitar cair em recessão como resultado do aperto da política monetária, permitiu que os bancos centrais mantivessem a promessa de juros altos, sem ainda abrirem a porta a cortes no médio prazo. Vale a pena lembrar que, para os investidores em títulos, más notícias na frente macro podem acabar por traduzir-se em ganhos, caso convençam os senhores do dinheiro da necessidade de baixar os juros em breve.
Para os analistas, esse não é, no entanto, o único fator que tem levado investidores a venderem títulos nas últimas semanas. A deterioração do rating da dívida dos Estados Unidos pela Fitch em 1 de agosto passado também contribuiu para a pressão em baixa sobre aquele título de dívida sem risco de referência no mundo.
A agência norte-americana não ficou por aqui e este fim-de-semana o seu chefe global do segmento das dívidas soberanas, James McCormack, reconheceu que o rating da dívida chinesa é “vulnerável”. Para McCormack, “a relação dívida/PIB do país [77% em 2022] está um pouco acima do que consideraríamos um título A”, um degrau abaixo do atual A+.
Por outro lado, o anúncio do Banco do Japão no final de julho de que aliviará a sua estratégia de controlo de curvas, permitindo que o título japonês atinja até 1% de rendimento de mercado, também afetou o sistema. Os investidores japoneses são compradores líquidos de dívida externa, e muitos analistas alertam para o perigo de grandes fundos japoneses venderem ações dos Estados Unidos e da Alemanha em carteira para comprar títulos japoneses que já oferecem rendimentos mais atraentes.
Para todos os efeitos, a dívida soberana dos Estados Unidos está sob pressão de venda de alguns grandes detentores, como os governos da Arábia Saudita e da China. Esta quarta-feira, soube-se que, durante o mês de junho, a monarquia árabe se desfez de mais de três mil milhões de dólares em dívida pública norte-americana, reduzindo o montante de títulos com aquela origem para mínimos de 2016: 108.100 milhões.
E não é o único grande comprador que está decidindo a livrar-se desses títulos: os Emirados Árabes Unidos teriam vendido no mesmo mês quase quatro mil milhões de dólares desse tipo de títulos, enquanto a China ter-se-ia desfeito de 11.300 milhões de dólares no sexto mês do ano, reduzindo a sua carteira de dívida norte-americana a mínimos de 2009. Será a debandada geral? As consequências de todos estes movimentos são uma das dúvidas atuais dos mercados – que, no meio da nebulosa, tentam descobrir pistas para os entender cabalmente.
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