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Cristiano Ronaldo, o ponta-de-lança do maior sportswashing de sempre

Relatório internacional aponta o craque português como o catalisador daquela que pode ser a maior operação de sportswashing da história do desporto mundial.
futebolistas Ronaldo
17 Setembro 2023, 08h00

Artigo originalmente publicado no caderno NOVO Economia de 9 de setembro, com a edição impressa do Semanário NOVO.

Até à chegada de Cristiano Ronaldo, a Arábia Saudita parecia avançar de forma tímida no investimento no desporto. Tivemos múltiplos acordos de patrocínio como a aquisição dos direitos de supertaças em Itália e Espanha, a contratação de Lionel Messi como embaixador da campanha “Visit Saudi” por 70 milhões de euros e vários acordos de patrocínio no “desporto-rei” por parte do Fundo de Investimento Público Saudita (avaliado em 708 mil milhões de euros) no valor de 2,1 mil milhões. Até o patrocínio da campanha “Visit Saudi” ao Mundial de futebol feminino da FIFA, disputado este ano na Austrália e Nova Zelândia, acabou por ser revertido por pressão de grupos de ativistas.

“Parecia óbvio que a Arábia Saudita estivesse a planear a aquisição de futebolistas de renome mundial para a sua liga – e quem seria mais popular do que Cristiano Ronaldo?”, questiona o relatório “Sportwashing: The Ethical Dilemma of Saudi Arabia’s Ownership” produzido pela Grant Liberty, uma organização londrina sem fins lucrativos. Este estudo vai mais longe e coloca o craque português como “um exemplo notável” de que o ‘sportswashing’ (conjunto de práticas que utiliza o investimento no desporto para desviar a atenção para más condutas noutros domínios) implementado pelas autoridades sauditas está a dar os seus frutos.

Nota a Grant Liberty que depois de Cristiano Ronaldo ter assinado um contrato com o Al-Nassr sem precedentes mesmo no excêntrico e endinheirado mundo do futebol (470 milhões de euros por dois anos de contrato). Seis meses depois, e com a abertura da janela de transferências na Europa, o Fundo de Investimento Público Saudita tomou conta de quatro clubes da Liga Saudita (Al-Nassr, Al-Ittihad, Al-Ahli e o Al-Hilal) e foi feito um investimento sem precedentes na contratação de grandes estrelas do futebol mundial.

Para se perceber a dimensão deste crescimento de 2022 para 2023, recorremos aos números do site “Transfermarkt” e a evolução no investimento é colossal. Na época passada, a Liga Saudita foi a vigésima liga mundial que mais investiu com uns modestos 44 milhões de euros. No final da última janela de transferências, a Saudi Pro League intrometeu-se entre as ‘Big5’ (superou França, Itália, Alemanha e Espanha) e passou a ser segunda Liga mundial com maior poder aquisitivo: 940 milhões de euros (só superada pela Premier League). Estrelas mundiais como Neymar, Karim Benzema, N’Golo Kante, Sadio Mané mas também os portugueses Otávio e Ruben Neves fizeram parte deste esforço sem precedentes para injetar talento e qualidade numa Liga cuja qualidade futebolística deixa muito a desejar mas, devido a chegada massiva de grandes nomes, já é disputada pelos grupos de comunicação para a aquisição dos direitos televisivos. E os sauditas não se ficam por aqui: para falar apenas de futebol (outras modalidades como o boxe e o golfe têm merecido um investimento muito forte) a Arábia Saudita vai receber o Mundial de Clubes no final deste ano, a Taça da Ásia masculina em 2027 e a edição feminina no ano anterior.

Com estes eventos, e no entender da Grant Liberty, a Arábia Saudita está apenas a ganhar balanço para organizar algo mais importante, como um Mundial de futebol (recorde-se que o país retirou a candidatura à prova de 2030 para se concentrar no Mundial de 2034). “É extremamente preocupante conceber que os maiores eventos desportivos do mundo possam potencialmente ser organizados num país que detém e tortura pessoas com relativa impunidade, e com sanções que são amplamente falsificadas para se enquadrarem na narrativa na monarquia”, escreve o relatório da Grant Liberty.

Apesar de Cristiano Ronaldo ter negado qualquer ligação à Arábia Saudita em pleno Mundial de futebol, o craque português acabou mesmo por assinar pelo Al-Nassr no final do ano passado. Nove meses depois e com a Liga Saudita a fazer uma aposta fortíssima, o avançado traçou largos elogios à sua nova casa: “Eu sabia que isto ia acontecer, disse-o há seis meses e toda a gente pensava que eu era o maluquinho. Mas, afinal, o maluquinho não é tão maluquinho assim e acaba por ser normal jogar na liga árabe. Para mim, foi um grande privilégio mudar a cultura de um país a nível futebolístico e ter grandes craques a irem para a Arábia Saudita”.


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