Poucos dias depois de a Polónia e a Ucrânia se terem envolvido num acidente diplomático de consequências ainda incertas, é desta vez a administração democrata norte-americana, a mais empenhada do mundo na defesa dos interesses de Kiev, a demonstrar algum cansaço com práticas reiteradas que quer ver desaparecer.
Nesse quadro, a administração Biden quer que Kiev avance com uma série de medidas anticorrupção muito concretas – e faz depender a continuação da sua ajuda ao país invadido pela Rússia precisamente dessa espécie de ‘caderno de encargos’. Segundo o jornal “Pravda” da Ucrânia, que deu a conhecer a carta escrita, o vice-assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Mike Pyle, enviou à Plataforma de Coordenação de Doadores uma missiva da Casa Branca que exige ações específicas nos tribunais, no Ministério da Defesa e nos órgãos reguladores de empresas estatais, entre outros. Essas medidas devem ser tomadas em vários prazos, de três meses (o mais urgente) a um ano e meio.
A carta demonstra que a Ucrânia continua a ser um sorvedouro de uma parte dos fundos que os países doadores enviam para o país do leste da Europa – num movimento que fez levar já este mês à demissão do anterior ministro da Defesa. Mas a Casa Branca não parece ter ficado satisfeita, apesar de na altura ter aplaudido a medida.
A corrupção é há muito um dos problemas centrais da Ucrânia – em abril de 2014 o então vice-presidente Jor Biden foi a Kiev oferecer suporte financeiro ao regime em troca de medidas anticorrupção – mas desde o início de setembro, por razões não explicitadas, os Estados Unidos preocuparam-se em sinalizar publicamente o problema. Vários membros da administração fizeram declarações sobre o assunto – umas condenando a corrupção outras aplaudindo as medidas anticorrupção – o que o tornou central nas relações entre a Ucrânia e os países doadores.
Mas, até agora, nunca tinha ficado claro que os Estados Unidos optassem por indexar a continuação do suporte financeiro do regime à criação de medidas anticorrupção – o que eleva o problema para um novo patamar.
E também faz crer, por outro lado, que internamente, Joe Biden começa a ter dificuldades em explicar porque razão está constantemente a dirigir-se ao Congresso para pedir novos (e gigantescos) fundos para pagar a guerra na Ucrânia. Tendo ficado claro que, se os republicanos ganharem as presidenciais de novembro do próximo ano,, a ‘torneira’ dos fundos passará a estar bem menos disponível, Biden parece estar empenhado em demonstrar que o dinheiro norte-americano não está a ser atirado para um saco azul paralelo às trincheiras do Donbass.
Tagus Park – Edifício Tecnologia 4.1
Avenida Professor Doutor Cavaco Silva, nº 71 a 74
2740-122 – Porto Salvo, Portugal
online@medianove.com