Um elemento do Departamento de Estado norte-americano – equivalente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros – que supervisiona as transferências de armas renunciou esta semana em protesto contra a decisão do governo Biden de continuar a enviar armas e munições para Israel, revela o “The New York Times”.
Na carta de renúncia, Josh Paul, que foi diretor de Assuntos Públicos e do gabinete de Assuntos Político-Militares do Departamento de Estado por mais de 11 anos, disse que o “apoio cego do governo Biden a um dos lados” está a levar a decisões políticas “míopes, destrutivas, injustas e contraditórias aos próprios valores que defendemos publicamente”.
Israel: Joe Biden fornece todo o apoio ao governo de Netanyahu
A decisão é conhecida no dia seguinte à visita de Joe Biden a Israel – que serviu para colocar os Estados Unidos incondicionalmente ao lado do governo liderado por Benjamin Netanyahu, apesar das reservas conhecidas entre a administração da Casa Branca e o primeiro-ministro israelita, que voltou ao poder em dezembro de 2022.
“A resposta que Israel está a levar a cabo, e com ela o apoio americano tanto a essa resposta como ao status quo da ocupação, só levará a um sofrimento cada vez mais profundo tanto para o povo israelita como para o povo palestiniano”, refere a carta, que acrescenta: “Temo que estejamos a repetir os mesmos erros que cometemos nas últimas décadas, e eu recuso-me a fazer parte disso por mais tempo”.
Uma resposta dura, que surge com uma explicação pública: “Informei os meus colegas que me demiti do Departamento de Estado, devido a um desacordo político relativo à nossa contínua assistência letal a Israel”, escreveu no LInkedIn ao mesmo tempo que publicava a carta.
Josh Paul disse em entrevista que o corte de água e de eletricidade e a falta de alimentos e de assistência médica em Gaza deve ser enquadrada numa série de proteções das leis federais norte-americanas destinadas a manter as armas do país fora das mãos de pessoas ou entidades que não respeitam os direitos humanos. Mas essas barreiras legais estão a falhar, disse.
“O problema de todas essas disposições é que cabe ao poder executivo determinar que ocorreram violações de direitos humanos”, disse, citado pelo jornal norte-americano. “A decisão de fazer essa determinação não cabe a uma entidade académica apartidária, e não há incentivo para que o presidente realmente determine nada”.
“Este governo, eu acho, conhece melhor e entende um pouco da complexidade, mas trouxe muito pouco desse conhecimento às decisões políticas que estão a ser tomadas”, disse Josh Paul.
O ex-membro do departamento disse que vê o governo dos Estados Unidos aprovar inúmeras vendas ou remessas de material para outros países do Médio Oriente, mesmo quando acreditava que a lei federal deveria impedi-los de o fazer. “Neste caso, não há nenhuma reação significativa do Congresso, não há nenhum outro mecanismo de supervisão, não há nenhum outro fórum para debate, e isso levou à minha tomada de decisão”, referiu.
Desde que deu a conhecer publicamente a sua carta de renúncia, esta quarta-feira, Paul disse ter recebido uma onda de apoio de colegas do Departamento de Estado e membros da equipa do Congresso. “Muitas pessoas estão a lutar contra a política atual, que consideram que é profundamente problemática”, disse.
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