A eletricidade é algo simples para quem a utiliza; afinal, nas economias desenvolvidas, basta carregar no interruptor para que a “magia” aconteça. No entanto, por detrás deste gesto simbólico, existe um mercado em pleno funcionamento. Basta analisar a fatura para perceber que a eletricidade provém de várias fontes, como painéis solares, energia eólica, hídrica, nuclear, biomassa, gás natural, carvão e cogeração. A panóplia é grande. Contudo, no final do mês, o que pesa no bolso do consumidor é o preço que pagou.
Então, surge a dúvida: qual será a energia mais cara de produzir? Segundo dados recentes da Agência Internacional de Energia, os custos das tecnologias renováveis mais utilizadas caíram de forma significativa na última década: a energia solar fotovoltaica teve uma redução de 90%, enquanto os custos da energia eólica terrestre diminuíram mais de 70% no mesmo período. Estes valores não só demostram a competitividade crescente das renováveis, como também evidenciam a forma como a economia de escala e a inovação tecnológica transformaram o setor energético nos últimos anos.
Uma análise especialmente citada para comparar custos entre diferentes fontes é a da Lazard, uma empresa internacional de consultoria financeira e gestão de ativos. Anualmente, esta fonte publica um relatório sobre o Custo Nivelado de Energia (LCOE) — uma métrica que representa o custo médio por unidade de eletricidade gerada (em euros por megawatt-hora) ao longo da vida útil de uma central, incluindo investimento, operação e manutenção. Este relatório é amplamente utilizado como referência global para comparar diferentes tecnologias de produção de eletricidade.
No gráfico intitulado Evolução do custo da eletricidade por tipo de central (2009–2024) publicado pela Lazard, é possível observar a tendência de queda contínua dos custos associados às fontes renováveis, em contraste com os custos mais estáveis (e nalguns casos, mais elevados) das tecnologias tradicionais. Este ilustra de forma clara como evoluiu o custo nivelado de energia (LCOE, do inglês Levelized Cost of Energy) ao longo dos últimos 15 anos para diferentes tipos de centrais elétricas. Este indicador agrega todos os custos associados à produção de eletricidade ao longo da vida útil das centrais, incluindo investimento inicial, o combustível, operação e manutenção, permitindo uma comparação direta entre tecnologias distintas.

No caso da energia solar fotovoltaica, a redução é particularmente impressionante. Em 2009, o LCOE situava-se nos 496 dólares por MWh (aproximadamente 456 euros por MWh), tendo descido para cerca de 60 dólares por MWh (cerca de 55 euros por MWh) em 2024, o que representa uma redução de cerca de 88%. Esta queda abrupta reflete sobretudo os avanços tecnológicos, o aumento significativo da escala de produção e o impacto de políticas públicas de incentivo, tornando a energia solar uma das opções mais competitivas no mercado atual.
A energia eólica em terra também registou uma descida muito relevante. Em 2009, o custo era de cerca de 380 dólares por MWh (aproximadamente 350 euros/MWh), tendo diminuído para cerca de 49 dólares por MWh em 2024 (cerca de 45 euros/MWh). Embora a descida não seja tão acentuada como a da energia solar, a eólica consolidou-se como uma das fontes de eletricidade mais económicas e sustentáveis atualmente disponíveis.
Nas centrais a gás natural de ciclo combinado, que operam durante longos períodos e fornecem eletricidade de base, a descida foi mais moderada. O LCOE passou de cerca de 115 dólares por MWh em 2009 (aproximadamente 106 euros por MWh) para cerca de 74 dólares por MWh em 2024 (cerca de 68 euros por MWh). Apesar desta melhoria, estas centrais continuam, em média, a ser mais dispendiosas do que as principais fontes de energia renovável.
Já as centrais a gás de pico utilizadas sobretudo em momentos de maior procura, registaram apenas uma ligeira descida nos custos. Em 2009, apresentavam um LCOE de cerca de 186 dólares por MWh (aproximadamente 171 euros por MWh), tendo descido para cerca de 165 dólares por MWh em 2024 (cerca de 152 euros por MWh). Mantêm-se, assim, como uma das opções mais dispendiosas de produção de eletricidade.
Por fim, as centrais a carvão também registaram alguma descida nos custos, mas continuam pouco competitivas. O custo passou de cerca de 153 dólares por MWh em 2009 (aproximadamente 141 euros por MWh) para cerca de 115 dólares por MWh em 2024 (aproximadamente 106 euros por MWh). Apesar da descida, estas centrais enfrentam não só desvantagens económicas face às energias renováveis, como também um impacto ambiental significativamente mais elevado.
Nem tudo são boas notícias!
Embora se esperem reduções contínuas dos custos à medida que as tecnologias se vão aperfeiçoando, ainda existem desafios a curto prazo. Mudanças geopolíticas, incluindo tarifas comerciais, escassez de matérias-primas e dinâmicas de produção em evolução, especialmente na China, representam riscos que podem aumentar temporariamente os custos. Na Europa e na América do Norte, os custos mais elevados podem persistir devido a desafios estruturais, como atrasos na obtenção de licenças, capacidade limitada da rede e custos mais elevados de manutenção do equilíbrio do sistema. Por outro lado, regiões como a Ásia, África e América do Sul, que beneficiam de taxas de aprendizagem mais aceleradas e de um elevado potencial de energia renovável, poderão registar reduções significativas nos custos.
António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas, segundo um comunicado da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA): “Energia limpa é economia inteligente — e o mundo está à procura de dinheiro. As energias renováveis estão a crescer e a era dos combustíveis fósseis está a chegar ao fim, mas os líderes precisam de eliminar barreiras, criar confiança e libertar financiamento e investimento. As energias renováveis estão a iluminar o caminho para um mundo de energia acessível, abundante e segura para todos.”
O diretor-geral da IRENA, Francesco La Camera, acrescentou: “A competitividade de custo das energias renováveis é a realidade atual. Considerando todas as energias renováveis atualmente em funcionamento, os custos evitados com combustíveis fósseis em 2024 ascenderam a até 467 mil milhões de dólares, ou seja, 397 mil milhões de euros. Uma nova energia renovável ultrapassa os combustíveis fósseis em termos de custo, oferecendo um caminho claro para uma energia acessível, segura e sustentável. Esta conquista é o resultado de anos de inovação, orientação política e crescimento dos mercados. No entanto, este progresso não está garantido. Para proteger os ganhos da transição energética, é necessário fortalecer a cooperação internacional, garantir cadeias de abastecimento abertas e resilientes e criar políticas e estruturas de investimento eficazes, sobretudo no Sul Global. A transição para as energias renováveis é irreversível, mas o seu ritmo e a sua justiça dependem das escolhas que fazemos hoje.
Qual a capacidade instalada no mundo?
Também a Organização das Nações Unidas Meio Ambiente (ONU) vaticina que 100% da energia consumida no mundo pode ser proveniente de fontes renováveis até 2050, número que chega a 20% atualmente e “os custos desse sistema energético podem ser mais barato do que os combustíveis fósseis em dez anos”, diz a ONU.
Segundo a IRENA, a capacidade global instalada de energias renováveis atingiu um valor recorde de 582 GW em 2024, elevando o total mundial para 4443 GW. “O investimento na transição energética também bateu recordes, tendo alcançado os 2,21 mil milhões de euros, cerca de 20% acima da média anual registada entre 2022 e 2023. Aproximadamente um terço deste investimento (742 mil milhões de euros) foi direcionado para tecnologias de energia renovável.”
No entanto, a mesma fonte indica que, para se atingirem os objetivos globais para 2030, é necessário aumentar a capacidade instalada de energias renováveis de 10,3 TW em 2024 para 11,2 TW, o que deixa uma lacuna de 0,9 TW — equivalente à capacidade total de energias renováveis da América em 2024. Atualmente, a capacidade renovável está a crescer a uma média de 15% ao ano; para cumprir a meta, seria necessário acelerar essa taxa para 16,6% ao ano. Em suma, para colmatar esta lacuna, é necessário um ligeiro aumento da taxa de crescimento anual, o que pode ser alcançado através de mais investimentos, políticas públicas eficazes e uma aceleração na implementação de novos projetos.
A IRENA destaca também que a viabilidade económica das energias renováveis é atualmente mais forte do que nunca, tendo 91% dos novos projetos implementados sido mais rentáveis do que quaisquer alternativas baseadas em combustíveis fósseis. A agência mantém-se otimista quanto ao futuro, prevendo que os países do G20 representarão mais de 80% da energia renovável global até 2030, enquanto as economias desenvolvidas do G7 deverão aumentar a sua participação para cerca de 20% da capacidade global nesta década. O acesso a financiamento orientado para o impacto e a existência de iniciativas que facilitem a implementação de projetos poderá ampliar e acelerar uma transição energética inclusiva e justa para todos.
E Portugal como está de renováveis?
No dia 3 de dezembro de 2025, a produção de energia renovável em Portugal abasteceu 73% do consumo total de eletricidade. A distribuição das fontes renováveis foi a seguinte: hídrica 36%, eólica 27%, biomassa 5% e solar 5%. O saldo de trocas com o estrangeiro registou um comportamento importador, representando 15% do consumo nesse período.
Segundo os dados mensais de dezembro divulgados pela REN, o consumo total de eletricidade atingiu 4 982 GWh, enquanto o consumo acumulado no ano foi de 53 077 GWh, um aumento de 3,2% face ao mesmo período do ano anterior.
Produção Total e Renovável
A produção total de eletricidade em dezembro foi de 11 749 GWh, com a produção renovável a representar 10 289 GWh (48,2% superior ao mesmo mês do ano anterior). A produção hídrica foi de 7 109 GWh, a eólica de 4 788 GWh, a solar de 2 487 GWh e a biomassa de 381 GWh. Não se registou produção a partir de energia das ondas.
Produção Não Renovável
A produção não renovável situou-se nos 1 938 GWh, tendo o gás natural representado 1 907 GWh e outras centrais térmicas 34 GWh. Comparando com dezembro do ano anterior, a produção não renovável caiu 16,4%, mas o acumulado anual aumentou 54,1%, refletindo a volatilidade da utilização destas fontes de energia.
Armazenamento e Consumo
A produção por armazenamento (bombagem) atingiu 267 GWh, ligeiramente abaixo do mês homólogo do ano anterior (-17,5%). A injeção em baterias foi residual, com apenas 17 GWh. O consumo destinado a armazenamento foi de 2 779 GWh, também menor em comparação com dezembro do ano anterior (-16,1%).
Saldo Importador
O saldo importador foi de 4 581 GWh, indicando que Portugal continuou a depender de eletricidade proveniente do estrangeiro. A importação comercial registou 4 414 GWh, enquanto a exportação comercial atingiu 2 789 GWh.
Estes dados confirmam a forte presença das energias renováveis no abastecimento de eletricidade em Portugal, com destaque para a energia hídrica e eólica. Apesar disso, o país continua a recorrer à importação de eletricidade para garantir o equilíbrio do sistema, sobretudo nos períodos de maior consumo.
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