Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Kuwait, Israel, Omã, Jordânia, Arábia Saudita, Iraque e Chipre, a que se somaram a Turquia na quarta-feira e o Azerbaijão na quinta. Perante o alargamento da geografia dos ataques de retaliação do Irão face à agressão militar de Estados Unidos e de Israel e ao facto de a retaliação à retaliação também envolver o Líbano, o alargamento do conflito para fora das fronteiras regionais já não é um temor, mas uma realidade. A resposta a esse alargamento vai no mesmo sentido: além das tropas e do armamento militar norte-americano e israelita, estão já no terreno – mesmo que seja num terreno distante – vários outros países. Europeus.
De facto, diversos governos europeus anunciaram o envio de navios para o Mediterrâneo Oriental depois de um ataque com drones a uma base britânica no Chipre. Num primeiro momento, a viagem para Chipre surgiu na sequência dos compromissos militares da Grécia e da França em reforçar as defesas aéreas da ilha. A Grécia enviou duas fragatas e quatro caças F-16, enquanto a França enviou uma fragata equipada com sistemas antimísseis e antidrones. Veio entretanto a saber-se que há a possibilidade de o míssil disparado para Chipre não ter origem no Irão –, mas o certo é que a força militar já está ao largo da ilha.
Entretanto, a Espanha anunciou que enviará o seu navio de guerra mais avançado, a fragata Cristóbal Colón, para o Mediterrâneo Oriental para se juntar às forças francesas e gregas. É uma reviravolta inesperada, depois de o governo de Madrid ter impedido os Estados Unidos de usar bases instaladas no seu território para atacar o Irão – a que não será alheio o facto de o presidente Donald Trump ter mandado suspender todo o comércio bilateral. São 16,7 mil milhões de euros (4,8% do total das exportações espanholas), a que Pedro Sánchez teve de ‘ajoelhar-se’ para não se haver com uma fúria – não muito épica, mas ainda assim uma fúria – da Casa Branca.
A fragata espanhola, que realizava treinos com o porta-aviões francês Charles de Gaulle, também destacado para o Mediterrâneo Oriental, no Mar Báltico, deverá chegar às águas de Creta na próxima semana.
Do seu lado, o ministro da Defesa da Itália, Guido Crosetto, disse ao parlamento que o seu país seguiria os passos da França e Espanha no envio de recursos navais para ajudar o Chipre, admitindo que “dentro da União Europeia fazia sentido enviar uma mensagem de apoio”.
O presidente cipriota, Nikos Christodoulides, confirmou a participação da Itália, agradecendo à primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a disponibilidade.
Os Países Baixos também decidiram enviar uma fragata, que estava igualmente integrada no grupo do porta-aviões francês, para o Mediterrâneo Oriental.
Do mesmo modo, o Reino Unido anunciou que enviará um navio destroyer e dois helicópteros armados com mísseis para reforçar a defesa contra drones. O secretário de Defesa do Reino Unido, John Healey, está no Chipre para se reunir com o seu homólogo, Vassilis Palmas, para discutir outras formas de o Reino Unido ser útil no reforço das defesas aéreas.
Um arrepio nuclear
Mas as declarações de maior impacto vieram, sem qualquer dúvida, do presidente francês. Já depois dos ataques ao Irão, Emmanuel Macron anunciou que tinha ordenado um aumento do número de ogivas nucleares no arsenal francês, que passa a ser confidencial. “Não divulgaremos mais o tamanho do nosso arsenal nuclear, ao contrário do que acontecia no passado”, disse. “Nunca hesitarei em tomar as decisões que são essenciais para proteger os nossos interesses vitais. Se tivéssemos de utilizar o nosso arsenal, nenhum Estado poderia evitá-lo”, acrescentou.
A guerra na Ucrânia – onde também já foi usada retórica nuclear – é bastante mais próxima de França que a guerra no Irão, mas Macron, que tem acesso a cerca de 290 ogivas nucleares (segundo os últimos dados divulgados pelo Instituto Internacional de Investigação da Paz de Estocolmo, SIPRI), quis deixar claro que a sua nova postura tem diretamente a ver com a tensão no Médio Oriente.
Na sua intervenção, descreveu o que chamou a “implementação progressiva” de uma “estratégia avançada de dissuasão nuclear”. “A dissuasão avançada que propomos é um esforço distinto, perfeitamente complementar ao da NATO, tanto estratégica como tecnicamente”, disse, posicionando-a como uma camada europeia adicional e não como uma alternativa à NATO. Ficou a perceber-se mal este ponto, principalmente se se recordar as razões que, em 1966, levaram um seu antecessor, Charles De Gaulle, a sair do perímetro do comando integrado da Aliança Atlântica.
Para todos os efeitos, Macron disse que a França poderia realizar “implantações circunstanciais” de capacidades estratégicas ligadas à dissuasão nuclear entre os seus “aliados europeus”, a começar pelos exercícios conjuntos. E adiantou que já há oito países interessados neste programa francês. A saber: Reino Unido – que também é uma potência nuclear, tendo cerca de 225 ogivas –, Alemanha, Polónia, Países Baixos, Bélgica, Grécia, Suécia e Dinamarca.
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