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Europa apanhada na guerra energética EUA-China

Nesta reorganização geopolítica das potências globais, amplamente determinada pelo acesso à energia e a recursos estratégicos, a Europa perdeu grande parte da sua capacidade de ação.
13 Março 2026, 08h55

A energia é fundamental para o funcionamento das economias modernas, permitindo transformar matérias-primas em bens e serviços e, assim, aumentar o bem-estar das sociedades, objetivo central da ciência económica.

A guerra comercial entre os EUA e a China, iniciada pela administração Trump no seu primeiro mandato, revelou rapidamente que a rivalidade entre as duas maiores potências globais ia muito além das relações comerciais, assumindo também uma dimensão tecnológica. Perante uma China que coloca cada vez mais em causa a hegemonia americana, o segundo mandato de Trump parece ter alargado o conflito ao domínio energético, sobretudo aos combustíveis fósseis, em particular petróleo e gás natural. Além disso, a disputa não se limita aos hidrocarbonetos. Estende-se também ao controlo de outros recursos naturais estratégicos, nomeadamente metais industriais, que são centrais na rivalidade entre as grandes potências económicas, como se viu na estratégia da administração Trump relativamente à Gronelândia.

Entretanto, o petróleo ainda continua a ser o principal motor da economia global e, a par dos chips, frequentemente apelidados de “novo petróleo do século XXI”, é um dos dois ‘pulmões’ da economia mundial. Nesta lógica de limitar a capacidade chinesa de desafiar a hegemonia norte-americana, no início do ano Washington passou a influenciar diretamente o petróleo venezuelano após a queda de Maduro e, há duas semanas, voltou-se para o Irão, outro dos principais fornecedores de petróleo da China.

Na atual guerra no Irão, marcada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, os EUA, autossuficientes em combustíveis fósseis, estão numa posição relativamente mais favorável face aos outros dois grandes blocos económicos mundiais, China e Europa. A China tem agora algumas das suas principais fontes de abastecimento energético mais vulneráveis, ou seja, primeiro a Venezuela e agora o Médio Oriente, com os riscos associados ao Estreito de Ormuz. Todavia, consciente há anos desta vulnerabilidade, a China tem procurado reduzir a sua dependência externa de energia. Por essa razão, tem apostado fortemente na eletrificação da economia e na expansão das energias renováveis, desenvolvendo a sua capacidade de produção de eletricidade e procurando eletrificar todas as infraestruturas do país e os transportes, desde carros a camiões e comboios, na tentativa de reforçar a sua autonomia energética. Ainda assim, continua dependente das importações de hidrocarbonetos, nomeadamente petróleo e gás natural.

No mix energético, o gás natural e o petróleo representam cerca de 9% e 18%, respetivamente, mas na produção de eletricidade apenas 3%, predominando o carvão, a energia nuclear e as renováveis. A China possui algumas das maiores barragens do mundo, incluindo a Three Gorges, a maior de todas, com 22,5 GW de capacidade, 50 vezes mais do que o Alqueva e com uma produção anual de eletricidade que poderia abastecer Portugal duas vezes.

No meio deste contexto geopolítico e energético, a Europa parece ter cada vez menos margem de manobra. A sua dependência energética externa de hidrocarbonetos e a sensibilidade da sua indústria aos preços da energia fragilizam a economia quando os combustíveis fósseis sobem, aumentando os custos de produção, reduzindo as margens das empresas e diminuindo a competitividade, aumentando os receios de um cenário de estagflação, ou seja, estagnação económica acompanhada de inflação elevada. Nesta reorganização geopolítica das potências globais, amplamente determinada pelo acesso à energia e a recursos estratégicos, a Europa perdeu grande parte da sua capacidade de ação. Entre os EUA, a Rússia e a China, mal se afirma como ator independente, politicamente encurralada. É, atualmente, um price taker nos mercados de energia, obrigada a aceitar os preços internacionais sem os conseguir influenciar.


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