Timur Turlov, fundador do conglomerado financeiro Freedom Holding Corporation, abriu o fórum Freedom Inside ’26 (uma espécie de Web Summit da Ásia Central) com uma intervenção onde anunciou uma novidade. No final da sua intervenção, Turlov anunciou que o grupo está a ponderar uma colocação privada de ações para acelerar a expansão da banca em novos mercados.
“Queremos ouvir os nossos investidores primeiro”, sublinhou, revelando que a recolha de manifestações de interesse não vinculativas começa já esta sexta-feira através da Freedom Finance Global. A oferta, caso avance, será feita estritamente fora dos Estados Unidos, em conformidade com a Regulation S, e direcionada para investidores da região.
“Temos agora oportunidades significativas à nossa frente, incluindo a expansão do nosso negócio bancário para novos mercados. Para avançarmos ainda mais rápido, estamos a considerar uma colocação privada das nossas ações. Esta poderá ser uma excelente oportunidade que beneficiaria tanto a Freedom como os nossos investidores”, disse.
“Mas, antes de tomarmos uma decisão final, queremos ouvir a vossa opinião. A partir de amanhã, começaremos a recolher manifestações de interesse não vinculativas através da Freedom Finance Global. O vosso feedback é o nosso principal indicador; se verificarmos uma procura real por parte dos investidores, seguiremos em frente”, acrescentou o empresário que nasceu em Moscovo, mas naturalizou-se cazaque.
“Como a nossa empresa-mãe está cotada no Nasdaq, seguiremos os regulamentos mais rigorosos. Se esta colocação avançar, será realizada estritamente fora dos Estados Unidos, de acordo com o ‘Regulation S’. A oferta estará disponível no Cazaquistão e noutras jurisdições onde a lei o permita, mas não incluirá os Estados Unidos. A oferta de ações estará disponível exclusivamente fora dos EUA e apenas para pessoas que não sejam cidadãos ou residentes norte-americanos. Cidadãos dos EUA ou pessoas residentes nos Estados Unidos não poderão participar nesta oferta”, disse.
“Não vai ser uma colocação enorme, mas precisamos melhorar a nossa estrutura de capital, equilibrando dívida com capital, para financiar todas as nossas iniciativas, não apenas iniciativas bancárias, mas iniciativas de telecomunicações e de centro de dados”
Posteriormente, num encontro com jornalistas em Astana, o fundador da Freedom explicou que o “private placement” de ações do grupo terá como destinatários essencialmente investidores do Cazaquistão e da Ásia Central.
“É uma oferta para uma quantidade limitada de investidores”, disse Timur Turlov.
“Não vai ser uma colocação enorme, mas precisamos melhorar a nossa estrutura de capital, equilibrando dívida com capital, para financiar todas as nossas iniciativas, não apenas iniciativas bancárias, mas iniciativas de telecomunicações e de centro de dados”, explicou o empresário que justifica este aumento de capital com a necessidade de avançar com o plano de investimentos de mil milhões de euros.
Além disso, o grupo vai unificar todas as suas empresas sob uma única marca — Freedom —, eliminando as marcas separadas de cada divisão. “Não somos uma coleção de negócios. Somos um ecossistema integrado na vida diária das pessoas em vários níveis ao mesmo tempo”, justificou Timur Turlov, fundador da Freedom24 e CEO da Freedom Holding Corp.
“A Freedom Holding está subvalorizada porque o mercado ainda não compreende o que estamos a construir”
O fundador e principal acionista da Freedom Holding Corp. afirmou que a empresa com sede em Almaty, Cazaquistão, e que está cotada no Nasdaq, vale menos do que deveria. Não por falta de resultados ou potencial, mas porque o seu modelo de negócio — descentralizado, diversificado e construído como um verdadeiro ecossistema integrado na vida das pessoas — é “difícil de ler” pelos analistas tradicionais, segundo Timur Turlov.
“Se alguém me tivesse mostrado estes números há dez anos, não teria acreditado”, admitiu Turlov, referindo-se aos principais indicadores do grupo: 12,5 mil milhões de dólares em ativos, mais de 11 milhões de clientes, presença em 21 países, capitalização bolsista de 9,5 mil milhões de dólares e dois mil milhões de dólares de receita nos últimos 12 meses.
Desde a entrada no Nasdaq em outubro de 2019 (a cerca de 14 a 15 dólares por ação), o título valorizou mais de 960%, superando os 150 dólares em abril de 2026. No entanto, Turlov diz que não veio celebrar o passado, mas sim explicar por que razão, na sua opinião, “esta história está longe de estar terminada” e por que o mercado ainda não percebe plenamente o que a Freedom está a construir.
O empresário apontou três razões principais que geram desconfiança nos investidores, por um lado a cultura corporativa descentralizada, por outro a diversificação agressiva e depois a liderança simultânea em múltiplos sectores. São um conglomerado de empresas de vários setores, banca, telecomunicações, corretagem.
Por definição s Freedom é um conglomerado financeiro internacional que opera um ecossistema digital diversificado, com forte presença na Ásia Central, Europa e Estados Unidos. Cotada no Nasdaq, a holding controla diversas subsidiárias especializadas em corretagem, banca, seguros e tecnologia. Está registada no Astana International Financial Centre (AIFC) e permite a clientes de retalho investir diretamente em bolsas americanas (NYSE/Nasdaq) e internacionais.
“Não temos uma hierarquia rígida. Temos muitos gestores fortes e independentes que avançam a alta velocidade nas suas próprias direções”, explicou. Para Timur Turlov, esta não é uma fragilidade, mas uma vantagem num mundo onde a tecnologia permite controlo em tempo real. “Tenho mais informação em tempo real no telemóvel do que um CEO de uma grande empresa tinha há uma geração inteira após semanas de relatórios”, explicou para uma plateia de startups de tecnologia.
Sobre a diversificação — que abrange corretagem, banca, seguros, educação, saúde, media, telecomunicações, estilo de vida (lifestyle) e infraestruturas urbanas —, o fundador rejeitou a crítica clássica de “falta de foco” e defendeu que “as empresas mais valiosas dos últimos 20 anos não são especialistas numa única coisa. São ecossistemas: Amazon, WeChat… O valor não está nos produtos isolados, mas nas ligações entre eles”, afirmou, ao mesmo tempo que citou os chaebols sul-coreanos como exemplo de que a amplitude pode gerar estabilidade, referindo-se aos grandes conglomerados empresariais familiares da Coreia do Sul, cruciais para a rápida industrialização do país a partir da década de 1960.
“A Samsung fabrica telefones, televisores, chips, constrói navios e gere uma seguradora. A Hyundai – automóveis, aço, construção civil, finanças. Quando os analistas ocidentais examinaram este modelo na década de 1970, ficaram perplexos: não se pode estar em todo o lado ao mesmo tempo; não há foco, não há lógica”, citou o presidente da Freedom Holding.
“Eventos como o de hoje fazem parte dos nossos esforços para garantir que o mercado nos compreende melhor. Queremos que os nossos clientes e especialistas vejam não só os nossos resultados financeiros, mas também a lógica por detrás do que estamos a construir”, disse o empresário.
Timur Turlov sublinhou que o Cazaquistão continua a ser “a nossa casa e o nosso trampolim”. Com 20 milhões de habitantes, uma das populações mais jovens do mundo e um Estado que impulsiona a transformação digital, o país é o laboratório onde o grupo construiu, ao longo de mais de dez anos, uma plataforma tecnológica e uma cultura de serviço que agora está a ser replicada noutros mercados.
“O que construímos no Cazaquistão não é apenas um ativo para um mercado. É um modelo que pode ser replicado. Cada novo mercado chega-nos mais depressa que o anterior”, disse, dando o exemplo do Tajiquistão e anunciando Geórgia e Turquia como próximos passos.
No encerramento do seu discurso, Turlov deixou uma mensagem clara aos investidores: “Não vos pedimos que acreditem na nossa palavra. Pedimos-vos que olhem com atenção para o que fazemos. Porque esse é o único argumento que realmente importa”.
Portugal ainda é estratégico para a Freedom mas aponta estratégia de crescimento para 2027
“Eu ainda acredito que Portugal é um mercado importante para nós. Infelizmente, não temos nenhuma transação em curso agora nesse mercado. Mas estamos definitivamente interessados na presença na Europa. Provavelmente discutiremos isso no próximo ano”, disse Timur Turlov num encontro privado com jornalistas internacionais em Astana.
Em Portugal o grupo opera através da corretora europeia low-cost Freedom24 (parte da Freedom Finance Europe).
Questionado sobre se há uma bolha com as empresas de IA (Inteligência Artificial) disse que em geral, “houve uma percepção de que a infraestrutura pode exceder a procura de IA, mas isso não é verdade”.
“Acreditamos que a procura de IA excede a infraestrutura, muito. Tivemos algumas conversas privadas com os maiores provideres de IA, que agora estão construindo muitas centenas de megawatts e gigawatts de centros de dados, e que vendem centros de dados que ainda não foram construídos”, defendeu.
“Estamos agora a terminar a construção da primeira fase do nosso centro de dados aqui em Astana. É um primeiro projeto de piloto de 2 megawatts”, adiantou, lembrando que o Cazaquistão é um dos top países com infraestrutura de supercomputadores para IA.
Em Astana os gestores executivos do grupo Freedom anunciaram a fase de expansão na Europa e o seu CEO expressou o desejo de obter uma licença bancária em França. Atualmente, opera mais como uma plataforma de investimento e corretora, facilitando o acesso a bolsas europeias e americanas.
Vamos no início do Verão participar numa cimeira em França com o presidente Macron. Estamos surpreendidos com o quão aberta França é com as inovações de Fintechs e quão interessantes parecem os diferentes benefícios fiscais para atrair algumas firmas inovadoras. Isso nos torna muito optimistas e talvez possamos criar algo grande para o nosso ecossistema a partir daí. O nosso fosso é criar uma infraestrutura financeira, através de uma licença bancária, de uma corretora e potencialmente também seguros. Também sabemos que França é uma das duas maiores economias europeias. Parece muito prometedor e definitivamente exploraremos as oportunidades, e apreciamos a iniciativa do presidente Macron e o seu apoio. Mas não tenho detalhes ainda”, revelou.
Timur Turlov, que é muitas vezes comparado a Nikolai Storonsky (empreendedor bilionário britânico de origem russa, cofundador e CEO da fintech Revolut), explicou que até agora nenhuma instituição da Ásia Central tem licença bancária na Europa. Por alguma razão, não é fácil”, reconheceu.
(atualizada com conversa privada de Timur Turlov com jornalistas)
* A jornalista viajou a convite da Freedom Holding
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