As rotas marítimas do Ártico estão a despertar crescente interesse como alternativa aos principais corredores do comércio mundial, num momento marcado por tensões geopolíticas e perturbações logísticas. Ainda assim, o seu impacto deverá permanecer reduzido nos próximos anos, segundo um estudo divulgado esta quarta-feira pela Coface, grupo líder mundial em seguro de crédito comercial e serviços especializados, que protege empresas contra o risco de incumprimento de pagamentos por parte dos seus clientes.
O relatório surge num contexto de instabilidade no Médio Oriente e de constrangimentos no Estreito de Ormuz e no Mar Vermelho, que evidenciam a vulnerabilidade das rotas marítimas tradicionais. Apesar de encurtarem significativamente as distâncias — até menos 40% entre o Leste Asiático e o Norte da Europa —, as rotas árticas continuam longe de representar uma alternativa sólida para o transporte global.
De acordo com a análise, apenas cerca de 3,5% do comércio entre o Leste Asiático, a Europa e a América do Norte deverá recorrer a estas rotas nos próximos cinco anos. O transporte marítimo continua, ainda assim, a dominar mais de 80% do comércio mundial de bens.
O estudo indica que o principal potencial das rotas do Ártico está no transporte de matérias-primas, como petróleo, gás e cereais. Nestes casos, as poupanças de custos podem atingir entre 45% e 50%, sobretudo no transporte de granéis líquidos.
Já o transporte de contentores, essencial para o comércio global de bens manufaturados, permanece pouco competitivo. As limitações operacionais, a necessidade de navios mais pequenos e os custos adicionais associados à navegação em zonas geladas continuam a ser obstáculos significativos.
Benefícios regionais e riscos para hubs tradicionais
Alguns exportadores poderão beneficiar destas novas rotas, nomeadamente empresas do norte da Europa e da costa nordeste dos Estados Unidos, que poderão ganhar competitividade nos mercados asiáticos.
Por outro lado, países e infraestruturas dependentes das rotas tradicionais podem ser afetados. É o caso do Egito, com o Canal de Suez, e do Panamá, cujas economias dependem fortemente do tráfego marítimo. Grandes centros logísticos como Singapura também poderão enfrentar desafios no longo prazo.
Para além das questões económicas, o desenvolvimento das rotas árticas levanta importantes desafios geopolíticos. A região tem-se afirmado como palco de crescente rivalidade internacional, com a Rússia a controlar grande parte da Rota Marítima do Norte, enquanto a China e os Estados Unidos reforçam a sua presença.
As condições naturais continuam, no entanto, a impor limitações relevantes. A navegação é sazonal, o gelo permanece imprevisível e o recurso a quebra-gelos é frequentemente indispensável.
Segundo Eve Barré, economista da Coface, “as rotas marítimas do Ártico estão a atrair atenção porque encurtam distâncias, mas o seu interesse comercial, nos próximos anos, permanece muito limitado e concentrado essencialmente nas matérias-primas”.
Assim, conclui o estudo, o verdadeiro peso destas rotas será, para já, mais político do que económico, não se antecipando uma transformação significativa do mapa do comércio mundial antes da próxima década.
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