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Lula da Silva. “A faúlha que pode incendiar a pradaria”

O Brasil está a passar por um momento de enorme tensão desde a libertação do ex-presidente. As hostes de Jair Bolsonaro olham para Lula da Silva e para a capacidade que tem de agregar vontades com uma enorme preocupação e a pergunta “onde estão os militares?” volta a fazer sentido. Entretanto, Bolsonaro está prestes a ter um novo partido, mas nada disso tem sido suficiente para estancar a derrocada da sua popularidade entre os brasileiros.
20 Novembro 2019, 09h30

Há um exercício fácil de fazer para se compreender o quão incompreensível é o momento político no Brasil: encontrar um grupo de brasileiros que inclua pelo menos um apoiante do agora libertado ex-presidente Inácio Lula da Silva e um votante no atual presidente, Jair Bolsonaro, e pedir-lhes para explicarem de que lado está a razão e porquê. Em menos de 30 segundos, quando muito, a discussão já atingiu limites de insonoridade e horizontes de absoluta falta de esclarecimento.

É esta uma das raízes do problema, como explica ao JE o embaixador Francisco Seixas da Costa, profundo conhecedor in loco da realidade política brasileira. Para o comentador político, a divisão entre apoiantes de Lula da Silva e de Jair Bolsonaro é uma fratura que há muito deixou de ter fundamentos reconhecíveis na razão e na razoabilidade.

Por estes dias, este debate político – que divide a sociedade brasileira e para todos os efeitos tem de ser feito – está num lugar incompreensível para que remetem declarações segundo as quais o atentado de que Bolsonaro foi alvo durante a campanha não passou de uma ‘construção’ para esconder um cancro; o telefonema entre Lula e a sua ‘herdeira’ Dilma Rousseff, que se revelaria fundamental para a condenação do ex-presidente, foi orquestrado na Casa Branca; ou que as contas bancárias de Lula espalhadas pelos mais importantes e secretos paraísos fiscais somam milhares de milhões de dólares (presume-se) em depósitos.

Como é bom de ver, este ambiente tem todos os condimentos para ser não apenas completamente inconclusivo, como, e aí radica toda a dimensão do problema, absolutamente explosivo. “O cidadão brasileiro, mesmo que não apoie o Bolsonaro, não tem necessariamente que defender o Lula da Silva”, porque “há uma diabolização do Partido dos Trabalhadores” que afasta os menos radicais do centro do debate.

Radicalização
Salientando que “Lula da Silva não tem outra máquina partidária para se afirmar que não seja a máquina do PT”, Seixas da Costa confirma que “o discurso do antigo presidente é neste momento mais radicalizado do que no momento em que entrou para a cadeia” – consequência também, evidentemente, “do discurso do próprio Bolsonaro”. “As tropas de Lula estão acirradas e Lula da Silva corre o risco de estar a agravar essa tensão, o que pode vir a resultar em confrontos complicados”, nomeadamente nas ruas.

Pode ser para aí, para a rua – ou mais propriamente para os confrontos de rua – que as duas fações absolutamente irreconciliáveis estão a caminhar. “O facto de o ex-presidente ter dito há dias que é preciso vir para a rua como no Chile é uma imprudência. Até porque Lula da Silva é um homem suficientemente experimentado para perceber que não pode ser um fator de instabilidade. Manifestamente, ele quer criar um movimento de rua que impeça o seu regresso à cadeia – regresso esse que não é impossível”.

A tentação da rua tem estado bem presentes nos últimos anos políticos do Brasil. Disso são exemplo os diversos desacatos que se verificaram na altura em que Dilma Rousseff acabou mesmo por deixar a presidência, ou a massa humana que acompanhou Lula da Silva nas suas últimas horas de liberdade no interior do complexo do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

É certo que os seus apoiantes nunca chegaram ao ponto de acamparem em regime de permanência às portas da prisão onde Lula da Silva foi encerrado – como alguém do PT chegou a sugerir – mas o certo é que, numa sociedade que já esteve mais longe da pobreza mais radical que o que está atualmente, um apelo para a rua corre sérios riscos de ser seguido. E, para Francisco Seixas da Costa, essa é a tentarão que não pode acontecer.

Para isso pode contribuir a postura da própria Justiça brasileira. “Pode haver uma aceleração dos recursos. Parece-me uma evidência que houve antes uma aceleração do processo judicial para impedir que Lula da Silva fosse candidato às últimas presidenciais, por isso também agora pode haver uma rápida aceleração dos recursos”, de que resultaria o regresso de Lula à prisão em pouco tempo e o consequente exacerbar de toda a envolvente política e social.

Sendo assim, “a situação atual no Brasil é muito complexa, de forte tensão, e o modo como as hostes de Bolsonaro estão a reagir mostra que o Lula da Silva é um grande problema. Se olharmos para aquilo que é a atitude anti-Bolsonaro atualmente, não havia uma personalidade que a corporizasse” – ora, essa falta deixou de existir, mesmo que apenas circunstancialmente: “é uma faúlha que pode incendiar a pradaria”.

“Onde estão os militares?”
No quadro muito particular da América do Sul, Francisco Seixas da Costa levanta a pergunta ‘sacramental’: “Onde estão os militares?” Os militares, naquela geografia, parecem estar onde sempre estiveram: alerta! E, para esclarecimento dos mais esquecidos ou dos que acham que os tempos são outros, aqui está, em jeito de ‘processo revolucionário em curso’, o exemplo da Bolívia.

“Em que medida é que o exemplo de reposição constitucional da Bolívia, que não é um grande exemplo, pode ou não dar ideias aos militares brasileiros, que todos sabemos que são profundamente ‘anti-Lula’ e profundamente contra a sua libertação?”, pergunta o analista político. “Habituámo-nos a que a América Latina estivesse em ritmo de aproximação à democracia, mas há evidências de que voltou atrás. Há muitas américas latinas, vamos ver no que é que isto vai dar, mas vamos ter aqui uma situação muito complexa”.

Até porque, recorda ainda Seixas da Costa, “nota-se uma situação de grande nervosismo e uma grande preocupação no setor que aderiu ao Bolsonaro, que tem a perceção que o processo entrou num caminho muito menos controlável

No meio disto tudo, Francisco Seixas da Costa afirma esperar “que Lula da Silva tenha o bom-senso de manter” as suas hostes numa ‘redoma’ que não redunde em violência. Mas nada disso é certo, até porque, como disse, o mais provável é que o ex-presidente faça uma espécie de ‘volta ao Brasil’ para colocar as suas hostes num ponto de alerta máximo a partir do qual tudo venha outra vez a ser possível.

Bom-senso aparenta ser coisa que não vale a pena pedir a Jair Bolsonaro. “Amantes da liberdade e do bem, somos a maioria. Não podemos cometer erros. […] Não dê munição ao canalha, que momentaneamente está livre, mas carregado de culpa”, escreveu o presidente na sua conta do Twitter.

Bolsonaro em roda livre
Estando o debate político mais do lado da paixão que da razão, não é fácil – principalmente do lado de um europeu – perceber-se qual é o quadro político em que o atual presidente se move. Desapiedadamente trucidado por uma parte substancial da opinião (e dos meios de comunicação) exteriores ao país, Bolsonaro parece estar a viver numa espécie de ‘bolha protetora’ onde a raiva externa não chega. De algum modo, na apreciação dos analistas, é o mesmo fenómeno com que contou (mas já não agora) o seu homólogo norte-americano, Donald Trump, que durante muitos meses não teve na política interna o mesmo grau de reserva que a sua postura incitava no exterior.

A crise dos incêndios na floresta da Amazónia durante o verão passado é disso prova mais que suficiente. A comunidade internacional movimentou-se no sentido de assinalar o problema de forma inequívoca e indexou as culpas, sem rodeios, à alteração das políticas do governo sobre a matéria. Para a comunidade internacional, não há dúvidas que o problema aumentou com as decisões da equipa de Bolsonaro. O presidente limitou-se a afirmar qualquer coisa semelhante a “isso não é problema deles”.

Internamente, as movimentações em torno da defesa da indefensável (segundo a análise internacional) posição de Bolsonaro face aos incêndios florestais avançaram sem freios e uma série de entidades vieram a terreno tentar provar que nada do que era dito quer pelas organizações não governamentais no terreno, quer pelos governo de diversos países, quer ainda pelas Nações Unidas era verdade: não passava de falsidades de quem não sabia do que estava a falar. Os próprios jornais – JE incluído – foram aconselhados a tomar contacto com profundos conhecedores na matéria. Uma curiosidade: no caso do JE, o ‘aconselhador’, alguém que aparentemente tem mais de 20 processos em sede da Justiça brasileira (e que colocava no subject do mail a frase “o que você precisa saber pra não ser um idiota na questão ambiental brasileira”), remeteu para um vídeo onde Evaristo de Miranda, formado em França em Agronomia, tentava sem conseguir a quadratura do círculo entre a política brasileira para a Amazónia e as boas práticas ecológicas.

Uma brecha
Mas uma primeira brecha sucedeu neste muro que Bolsonaro construiu à sua volta – numa mistura de impunidade, boçalidade e arrogância (segundo os críticos): o caso do seu filho, Eduardo – que surgiu recentemente numa foto junto do pai enfermo numa cama de hospital com uma arma aconchegada ao cinto das calças.

Membros do Partido Social Liberal (PSL), que ‘levou’ Bolsonaro à presidência, pediram a expulsão do deputado federal Eduardo Bolsonaro, depois do seu envolvimento no escândalo da eventual ida para embaixador em Nova Iorque. O pedido de expulsão foi assinado pelo líder do partido na câmara alta, Major Olímpio, e pelos deputados federais Abou Anni, Coronel Tadeu, Joice Hasselmann e Júnior Bozzella. Resultado: Bolsonaro ameaçou formar um partido novo – em alternativa a transferir-se para o partido Patriota, ligado às inenarráveis igrejas evangélicas brasileiras.

A Aliança Pelo Brasil, partido que o presidente pretende fundar, apresenta-se como um instrumento para “livrar o país dos larápios, dos espertos, dos demagogos e dos traidores”, segundo o manifesto já divulgado. O novo partido é lançada como “uma nova e verdadeira atitude de aliados [de Bolsonaro]” e como o sonho e a inspiração de pessoas leais ao presidente.

Segundo os números mais recentes, os brasileiros conferem neste momento a Jair Bolsonaro os piores índices de popularidade desde o início da presidência. O item mau/péssimo subiu dez pontos percentuais no intervalo de um mês (segundo sondagem do IBPAD – Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados, realizada entre 29 de outubro e 2 de novembro).

O instituto informa que o presidente detém 30,9% de respostas bom/ótimo, contra 35,2% da sondagem anterior, realizada na última semana de setembro. No início da série, em julho passado, a aprovação era de 40,1%. Os entrevistados, diz ainda o IBPAD, que classificam a administração de Bolsonaro má ou péssima somam 42,1%, variação expressiva em relação ao mês passado. Em julho, a reprovação era de 35,5%. O grupo que considera a gestão Bolsonaro regular passou de 29,1% para 22% no último mês. Em julho, era de 22,4%.

É nesta amálgama, com todos os ingredientes para avolumar as tensões e as divisões entre a população, que o Brasil vive por estes dias.


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