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Greta Thunberg: A polémica menina do clima que o mar trouxe a Lisboa

O maior rosto do ativismo pela ação climática urgente tem feito cara feia aos líderes mundiais. Agora atravessou o Atlântico de barco para chegar a Madrid, onde participa hoje na COP25 e na marcha estudantil pelo clima.
9 Dezembro 2019, 07h15

O nome de Greta Thunberg tem feito capas de jornais e revistas por todo o mundo, depois de em 2018 ter ocupado as escadas do parlamento sueco com um cartaz em prol do planeta, uma vez que “não existe planeta B”.

O nome provém do germânico ‘pérola’, mas Greta nasceu na Suécia, a 3 de janeiro de 2003, sendo que atualmente conta com 16 anos e com uma guerra contra as alterações climáticas e políticos às suas costas.

Quando iniciou a ofensiva para alertar consciências relativamente aos problemas ambientais, com apenas 15 anos, a jovem ativista estava longe de imaginar que o cartaz ‘Skolstejk För Klimatet’ [Greve escolar pelo clima] viria a tornar-se a razão para as greves climáticas estudantis que ocorrem às sextas-feiras um pouco por todo o mundo.

Chegou a Lisboa mais tarde do que estava previsto, pelas 12h50 desta terça-feira, e fez-se silêncio enquanto o navio ‘La Vagabonde’ estava a atracar na Doca de Santo Amaro, em Alcântara, para depois a multidão presente se soltar em aplausos quando a ativista saiu da embarcação movida a painéis solares e geradores a água. A viagem que iniciou a 13 de novembro, nos Estados Unidos, ainda não terminou, mas a passagem por Lisboa, a 3 de dezembro, marcou a agenda da jovem Thunberg, depois de ter passado 21 dias em mar aberto.

“Muito obrigada a quem nos tem ajudado e apoiado para que isto se tenha tornado possível”, declarou Greta Thunberg, acompanhada de Nikki Henderson, Riley Whitelum, Elayna Carausu e do pequeno Lenny, que completa nesta sexta-feira um ano de idade, com quem fez a travessia atlântica.

No discurso emotivo, e algo cansado, à chegada a terra firme lisboeta, a ativista de 16 anos que está a pressionar líderes mundiais assumiu estar “grata por ter realizado esta viagem e pela experiência”, além de se sentir “honrada por estar na bonita Lisboa e Portugal”. No total, foram 21 dias de viagem por ‘terreno’ marítimo bravo, tanto que a equipa demorou mais que o previsto a chegar a território português, por ter de abrandar o ritmo ao encontrar tempestades.

Apesar dos rumores terem indicado que a ativista ia ainda na terça-feira para Madrid, o mesmo não se verificou. Na conferência de imprensa, Greta Thunberg garantiu ficar mais alguns dias em Lisboa para descansar da viagem e preparar-se para a COP25, onde vai marcar presença para, mais uma vez, enfrentar os líderes mundiais e confrontá-los com propostas de resposta às alterações climáticas que se têm verificado na Terra, além de ainda participar na marcha estudantil a favor do clima, que decorre nesta sexta-feira.

“Vamos à COP25, em Madrid, e vamos continuar a lutar para ter a certeza que as vozes das pessoas e das gerações futuras estão a ser ouvidas”, afirmou no seu discurso, onde se juntaram crianças, adolescentes e adultos para ouvir a nova cara do ativismo global do clima. “Claro que eu, bem como outros ativistas, vamos continuar a fazer os possíveis para continuar a viajar e a pressionar as pessoas no poder, para ter a certeza que colocam nas suas prioridades [formas de combater as alterações climáticas]”, referiu, perante a multidão que a recebeu em Alcântara.

Na semana passada o Parlamento Europeu declarou, com 429 votos a favor, a emergência climática a nível global, algo que a jovem ativista ainda teve tempo de mencionar no seu discurso em prol do ambiente. “Estamos a enfrentar uma emergância climática global e precisamos de ver as coisas de um ponto de vista holístico”, sustentou, acrescentando que é necessário trabalharmos juntos “para ter a certeza que conseguimos assegurar condições de vida futuras para a espécie humana e continuar a lutar, não só por nós mas para os nossos filhos e netos, e por todos os seres vivos na Terra”.

A jovem sueca ainda apelou a que fossem feito todos os esforços, por parte de todos os presentes no local, “para ter a certeza que se encontram no lado correto da História, porque em ordem de mudar tudo, precisamos de todos”, sublinhou.

Questionada sobre alternativas às viagens de avião, algo que se recusa a fazer desde pequena, e com a crítica de que a maior parte da população não se pode dar ao luxo de viajar de barco, Greta garantiu que não está a “fazer esta viagem para que todos façam o mesmo”, mas sim porque “atualmente é impossível viver de forma sustentável e isso tem de mudar, tornar-se mais fácil”. Ainda assim, afirma não ser ela quem vai dizer às pessoas como devem viajar, mas clarifica que existem alternativas mais sustentáveis à utilização do transporte aéreo.

Admite que “ninguém no mundo está a fazer o suficiente” para combater as alterações climáticas, embora o Acordo de Paris tenha sido assinado em 2015 e das cimeiras das Nações Unidas saírem novos incentivos todos os anos.

Apelidada de “criança zangada” devido ao discurso emotivo na Cimeira do Clima que realizada em Nova Iorque, Greta Thunberg afirma que “as pessoas estão a substimar a força das crianças zangadas”, destacando que existem “boas razões” para “estarmos zangados e frustrados”. Relativamente às críticas do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, Greta garantiu ainda que “as pessoas no poder criticam e isso prova que estamos a ter um impacto de que estamos a trazer mudanças”, afirmando que a luta pela melhoria do clima vai continuar.

As polémicas à volta de Thunberg, a cara do ativismo climático
Foi indicada para o prémio Nobel da Paz de 2019 pelo seu ativismo e foi nomeada para um prémio ambientalista de quase 50 mil euros, que mais tarde recusou por “o movimento climático não precisar de mais prémios” mas sim de ativistas e defensores.

Ainda assim, esta não é a ‘polémica’ que mais se tem destacado. Antes da chegada a Portugal, as redes sociais incendiaram-se em ataques a Greta e à sua mãe por terem sido fotografadas quando estavam sentadas numa cadeira vendida por quase dez mil euros, e com a fotografia a enquadrar outra cadeira de quase nove mil euros, produzida à base de couro. Ora, a polémica não se prende com os quase 20 mil euros que as peças de mobiliário custam, e sim com o facto de estas conterem couro, algo que os vegan (como Greta) recusam.

Também quando Greta começou a manifestar-se pacificamente nas escadas do parlamento sueco, o livro “A Nossa Casa está em Chamas” foi rapidamente publicado, evidenciando a luta da família Ernman-Thunberg pelo clima. Esta publicação gerou polémica, com alguns críticos mais ferozes a afirmarem que os pais queriam ganhar dinheiro com a filha e que a luta a favor do planeta não passa de uma mentira construída pela família sueca.

Ao longo da sua vida enquanto jovem na política e presença assídua nas cimeiras das Nações Unidas, a jovem de 16 anos começou a ser cada vez mais criticada. Apoiada por alguns, onde se destacam Barack Obama, Al Gore e António Guterres, é odiada por tantos outros, onde se evidencia a figura do presidente norte-americano, Donald Trump. Este sustentou que, apesar de quase ter chorado, Greta “parece uma rapariga muito feliz e à espera de um futuro brilhante e maravilhoso”.
Menos contido, o popular apresentador do programa televisivo ‘The Grand Tour’, Jeremy Clarkson, afirmou que a jovem é “idiota” e que, por sua causa, “os jovens com menos de 25 anos não têm o mais pequeno interesse em carros”, acrescentando ainda que a ativista está a “matar o espetáculo dos carros” com os seus discursos ambientalistas.

Mas em Portugal a jovem também conta com apoiantes e críticos, como se tornou evidente aquando da sua chegada. Nuno Melo, eurodeputado do CDS-PP, criticou a jovem com recurso ao seu discurso das Nações Unidas. “Já de seguida, muitos deputados de pé, deslumbrados, aplaudindo a adolescente chorosa Greta, que os acusa de roubarem os sonhos (…) enquanto navega mundo fora com estilo”, escreveu o eurodeputado nas redes sociais. Miguel Sousa Tavares disse na TVI que a ativista “é um bocado a Joacine Katar da Escandinávia”, admitindo estar “um bocadinho farto da Greta Thunberg” e que a parte importante era “convencer Trump e Bolsonaro a preocuparem-se com estas questões”, referindo-se às alterações climáticas cuja existência os dois líderes repudiam. Por sua vez, os seus apoiantes em Portugal também são muitos, de forma a equilibrar as contas. Hugo Carvalho, deputado do PSD, assumiu que a jovem “é um símbolo de ativismo político” que conseguiu convocar “uma geração tida como desinteressada”.

O ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Matos Fernandes, escreveu uma carta à jovem a agradecer o ativismo que esta tem apresentado “para o maior desafio dos nossos tempos”. O ativista da Climáximo, João Camargo, um dos presentes aquando da sua chegada a Lisboa, referiu que Thunberg é “um símbolo para iluminar a escuridão” que as alterações climáticas e aquecimento global representam para o mundo.

António Guterres, atual secretário-geral da Organização das Nações Unidas, tem afirmado que a jovem é um símbolo mas que está a oferecer soluções e a exigir ações urgentes a uma “geração que tem fracassado em preservar o planeta”.


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