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João Proença, Reitor da Universidade Europeia: Europeia quer ser primeira privada a ensinar Medicina em Portugal

Em meia dúzia de anos, a Laureate integrou três escolas de grande notoriedade: o ISLA, o IADE e o IPAM. O grupo aponta agora baterias à Saúde e ao curso de Medicina. “O projeto começou faz dois anos e entra agora na fase de avaliação”, revela o Reitor João Proença, numa entrevista em que analisa […]
1 Outubro 2015, 00h02

Em meia dúzia de anos, a Laureate integrou três escolas de grande notoriedade: o ISLA, o IADE e o IPAM. O grupo aponta agora baterias à Saúde e ao curso de Medicina. “O projeto começou faz dois anos e entra agora na fase de avaliação”, revela o Reitor João Proença, numa entrevista em que analisa a estratégia dos norte-americanos e o modelo com que se estão a posicionar na Europa: uma conjugação de competências técnicas com soft skills ao gosto do mercado de trabalho.

É, desde há dias, Reitor da Universidade Europeia, pertença do grupo norte-americano Laureate Education. A sua ligação à academia tem, no entanto, mais de 25 anos, com destaque para os últimos cinco em que foi Diretor e Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Está, portanto, particularmente habilitado para nos descrever o ensino superior numa palavra.
Qualidade. O ensino superior português é um ensino de qualidade.

Pode fundamentar?
O país, desde, pelo menos, o 25 de Abril, tem tido, de facto, uma aposta séria de quase todos os governos, desde o primeiro até ao último, no ensino superior. Nos últimos 20, 30, 40 anos, diria, que houve um investimento muito forte no ensino superior e na ciência, que fez com que, por exemplo, muitas pessoas pudessem beneficiar de bolsas para ir para o estrangeiro fazer o seu doutoramento. Isso foi muito consequente em todo o ensino superior. Portanto, há gente de grande qualidade, formada nas melhores universidades pelo mundo fora, desde a Europa aos Estados Unidos, que conseguiu não só beber o que se fazia de melhor no mundo de então, mas também estabelecer relações com vários investigadores, com várias escolas, com vários professores espalhados por esse mundo fora, cruzando a fronteira do conhecimento. Há um trabalho feito de raiz que foi muito consequente. A consequência foi que o nosso ensino superior nacional, se quiser, em termos relativos, é um dos setores que tem estado bem. A investigação, eu diria que esteve sempre internacionalizada, a sua matriz é sem fronteiras, mas a da educação não. E daí a aposta da Laureate Education ser muito interessante! O projeto da Europeia é muito interessante.

Está a dizer que a educação tem de seguir o caminho da investigação?
Nos últimos dois, três anos, houve um crescimento massivo dessa internacionalização, fruto, primeiro, do programa Erasmus (mobilidade na Europa), que é um dos grandes programas da União Europeia, na minha opinião. Se há programa de grande qualidade e muito consequente na UE, nos últimos 20 anos, eu diria que é a mobilidade de estudantes ao nível do ensino superior. Portanto, há essa dimensão de introduzir uma cultura de início de internacionalização da educação superior. Na área da Economia e da Gestão isso tem sido talvez mais forte, fruto de ser um setor mais internacionalizado por via das business schools.  Mas a minha leitura é que este processo vai alargar-se para todas as áreas científicas. As escolas que não conseguirem internacionalizar-se vão ter dificuldades. Como nos outros setores, o ensino superior também será, em muito pouco tempo, internacional e global.

A Laureate está a apanhar o contexto?
Em Gestão diz-se uma coisa que é engraçada, que é: “born global” [“Nasce global”]. A Laureate é um bocadinho isso – fez o seu caminho, é muito competente, tem 15 anos, é uma matriz completamente internacionalizada, abrange os continentes todos. É uma escola muito bem preparada para estes desafios do início do século XXI, da internacionalização da educação, porque ela, por natureza, é já global e internacional. Portanto, é muito fácil conseguirmos internacionalizar programas, é muito fácil conseguirmos ter aqui professores estrangeiros, estudantes estrangeiros, estudantes nossos das outras universidades da rede… É muito fácil ter cursos, por exemplo, que sejam dados aqui, mas com os alunos a fazerem trabalhos em interação com estudantes de outros países, de outras escolas. Não só para a aprendizagem mas também para preparar as pessoas para um mundo que é global.

Em Portugal, fora a Universidade Católica e poucas outras exceções, o ensino superior privado é considerado uma espécie de segunda divisão comparativamente ao ensino público. A Laureate entrou no país por via das aquisições. Primeiro o ISLA, que passou a Univ. Europeia, depois o IADE e o IPAM. Qual é o vosso nível de ambição? A primeira liga?
O mais importante é perceber que se trata de um projeto de qualidade, sério e rigoroso. Eu aderi a este projeto, porque acredito nele e só estou nele porque é: sério, rigoroso, de qualidade e ambicioso. A nossa missão é termos um projeto de qualidade. Vamos por essa via. Como sabe, trabalhei numa universidade pública durante muitos anos, não conheço neste momento, o que se passa nas outras escolas. Agora, dentro das escolas privadas e públicas, não tenho dúvidas: há escolas melhores e piores. Dentro das universidades públicas, há universidades melhores e piores e nas privadas é natural que aconteça o mesmo. Eu conheço algumas pessoas de grande qualidade em universidades não públicas.

Qual a estratégia da Laureate para Portugal?
Há um projeto do grupo para a Europa em que Portugal tem uma posição importante. Nós em Portugal temos, de facto, muitas possibilidades a esse nível, porque temos bons professores, temos um ensino superior bom. A Laureate Education tem aqui também uma boa arena, digamos assim, para fazer o seu projeto e para beber daqui para outros locais. Trazer e levar. Portugal é um país de grande qualidade, portanto, não vejo razões para não estar também em Portugal. Todos os projetos de qualidade vão acabar por se impor… o nosso contexto é talvez mais exigente até do que o de outros países, agora há muita gente que necessita de formação superior. Em Portugal apenas 29% da população entre os 30 e os 34 anos tem educação superior. Olhando para as necessidades dos diferentes países, Portugal está muito longe da meta de ter 40% da população neste nível de educação em 2020. Portanto, todos nós seremos poucos para ajudar a dar uma educação superior aos nossos jovens e para prepará-los melhor. A Laureate tem a missão de contribuir para a educação como um todo e Portugal é um dos países da Europa com mais necessidades, portanto, seria, desde logo, um alvo preferencial dentro dessas necessidades.

A pequenez do país é aparente face às necessidades existentes. É isso?
Em termos relativos sim, claro. Portugal tem mais necessidades do que a Alemanha. Vamos precisar mais de projetos desta natureza do que outros países onde as pessoas mais qualificadas são em maior número. O que se pode fazer pelas pessoas que não têm educação superior é muito. Nós sabemos que quem tem um curso superior tem muito menos dificuldades em encontrar trabalho, que quem tem um curso superior acaba por ter um rendimento muito superior a quem não tem um curso superior…  Este projeto é muito válido para ajudar a contribuir para o objetivo 2020.

Pode acentuar dois ou três fatores competitivos do projeto?
Desde logo, o modelo académico. O modelo é diferenciador, porque enfatiza áreas que não têm sido enfatizadas tradicionalmente no ensino superior, áreas mais ligadas àquilo que são as chamadas soft skills, isto é, as competências ligadas ao ‘saber fazer’, ao ‘saber ser’, para lá daquilo que é a formação sólida de base, preparando estudantes para o mundo muito internacional. O objetivo é que todos os estudantes possam ter uma experiência internacional durante a sua formação. Também queremos crescer em duas linhas, quer no âmbito geográfico quer no âmbito científico. Vamos crescer. Também queremos crescer para lá de Lisboa.

Ainda sobre o “modelo académico diferenciador”.  Que oportunidades proporciona aos alunos?
Quando falamos no modelo académico diferenciador é um modelo académico baseado no desenvolvimento de competências que são indispensáveis para o mercado profissional. Para lá dos conhecimentos técnicos que vão ser desenvolvidos, vamos proporcionar um conjunto de competências. Na entrada, analisamos as competências dos estudantes, nomeadamente sobre as suas capacidades de comunicação, de resolução de problemas, sentido crítico, etc. Ao longo do curso, vamos acompanhando a evolução dessas competências, que são trabalhadas de forma diferenciada consoante  as dificuldades dos diferentes estudantes. No final, quando o estudante sair da Universidade, para além do diploma do curso, vai levar consigo também o certificado dessas competências com uma determinada classificação – isso, hoje em dia, é muito valorizado pelo mercado de trabalho.

Este ano apenas 50% dos alunos foi colocado na sua primeira opção. Que leitura faz do número?
Haverá sempre desajustes entre aquilo que as pessoas querem estudar, aquilo que o país e os mercados precisam e aquilo que é oferecido pelas universidades e escolas politécnicas. O que eu acho é que os sinais deste ano foram demasiado fortes.

Disse que querem crescer. Crescer para onde?
Queremos ser uma universidade de referência internacional, logo temos que ter uma  implantação nacional forte. Temos que estar no Porto e Lisboa.

Não estão? Em Lisboa têm a Universidade Europeia, o IADE e o IPAM e no Porto têm o IPAM…
Não. O que está em causa é que o projeto – tirando talvez a áreas da Saúde – será replicado. Queremos ter as nossas faculdades em Lisboa e no Porto, nas mesmas áreas de intervenção.

Como vai ser feita a reorganização? A marca IADE, que é tão forte, mantém-se?
A preocupação da Laureate é garantir que o património construído desde 1969 se torna mais internacional e que juntamos o Digital, a Comunicação, a Tecnologia ao Marketing e ao Design. Sei que o líder do IADE académico (Carlos Duarte) está a trabalhar nessa direção e que juntos seremos uma opção mais relevante para os estudantes, para a comunidade científica e para os empregadores.

O que acontece ao IPAM?
O objetivo da Laureate é fazer do IPAM uma escola de excelência internacional na área do Marketing com presença em Portugal e em outros países onde já marcamos presença. Os líderes do IPAM Porto (Daniel Sá) e do IPAM Lisboa (Luísa Agante) estão a trabalhar no projeto de internacionalização da Instituição que tem mais de 30 anos.

O ciclo fica fechado com a Europeia…
Uma instituição que procura construir uma Universidade de referência, em Portugal, nunca dá por fechado o seu ciclo. Todos os dias, procuramos possibilidades para melhorar a nossa escola de Ciências Sociais e Empresarias, liderada pelo José Manuel da Fonseca e reforçada na área do Direito com o Eduardo Vera-Cruz; a escola de Turismo, Desporto e Hospitalidade, liderada pela Antónia Correia; a escola de Tecnologias, Artes e Comunicação, liderada pelo Carlos Rosa, e a nossa escola de Estudos Doutorais, liderada pelo João Vieira da Cunha.

O grupo Laureate fica, portanto, a operar no segmento do ensino superior universitário e do ensino superior politécnico.
O objetivo é garantir qualidade nas Instituições que fazem parte da rede Laureate, em Portugal, e construir uma Universidade de referência internacional. Por este motivo, a aposta será em garantir que as nossas instituições sejam de cariz universitário e não politécnico.

No mundo, na área do Marketing o que tem o grupo?  
A rede Laureate Education é forte nessa área, mas temos também em Portugal valências muito fortes nessa área, pelo que poderemos contribuir. Temos áreas onde podemos ajudar a Laureate, principalmente, na Europa.

O Marketing é uma dessas áreas?
Eu diria a área da Gestão, em geral, e o Marketing, em particular. A Universidade Europeia dispõe de uma Faculdade de Ciências Sociais e Empresariais, área que reforçámos nos últimos anos com a contratação de docentes e investigadores de grande qualidade. Existe um know-how na área do Marketing nas nossas instituições, seja no IPAM, seja no IADE, seja aqui – todas elas com recursos muito valiosos nessa área.

Há pouco falou em Medicina. É uma grande novidade…
Depois de termos trabalhado, nos últimos dois anos, na construção de um Mestrado Integrado em Medicina, com um corpo docente de referência, num caderno de encargos de instalações de grande qualidade, assim como em ter hospitais e centros de investigação de referência como parceiros, entramos, agora, no momento de avaliação.
Foi autorizada, durante o mês de agosto, a criação de uma unidade orgânica de Saúde dentro da Universidade Europeia, Faculdade que queremos que assuma um papel relevante na instituição nos próximos anos. O facto da rede Laureate Education ter mais de 14 Faculdades de Medicina, a nível internacional, ajudará, em muito, a fazer da nossa área de saúde, em Portugal, algo diferenciador e relevante no ensino superior.

Uma Faculdade de Medicina?
Sim. Criámos a Faculdade de Saúde. Porque entendemos que a experiência da rede Laureate Education será fundamental para construir uma área de Saúde relevante. O curso a ser proposto será o de Medicina. Um projeto desta natureza exige um trabalho muito profundo. Não só no que respeita a angariação do corpo docente, equipamentos e instalações, relação com a investigação, etc.

No passado já houve quem tivesse a mesma ambição e falhasse…
Estamos conscientes da responsabilidade que representa educar e formar médicos de qualidade internacional e, por este motivo, trabalhámos dois anos para encontrar o mestrado que possa dar uma resposta assertiva ao ensino superior, um corpo docente experiente e com investigação relevante e hospitais e centros de investigação em que os nossos estudantes e docentes se possam desenvolver.

Para montar o projeto recorreram à expertise do grupo?
Naturalmente. A rede Laureate é forte na área da Saúde, tem 14 escolas com Medicina. Em Espanha, para não irmos mais longe, a primeira universidade não pública de Medicina foi a da Universidad Europea. Existe um know-how internacional na área que pode ser trazido para Portugal e ajudar um país que, tradicionalmente, tem sido muito forte na área da Medicina. Nós estamos conscientes disso. O facto de num contexto destes acreditarmos é porque acreditamos muito no nosso projeto.

Na área da Medicina,  dou “a casa” como feita. Em vez de irem para a República Checa ou para Espanha, os jovens que não conseguem lugar em Portugal não precisarão deixar o país…
Muitos deles são excelentes alunos, mas não conseguem entrar nas faculdades de Medicina dado o teto existente… quantos potenciais bons médicos não se perdem!…

Já têm lugar para as aulas práticas?
Sim, claro. Mas não seria de bom tom avançar já a informação.

Quanto custará a propina anual?
Não temos ainda fechado o valor da propina anual.

Quando contam iniciar o curso?
Este é o momento dos avaliadores fazerem o seu trabalho. Nós estaremos preparados para criar as condições necessárias para iniciar o curso logo que o mestrado integrado esteja aprovado.

Isso é um desejo ou uma possibilidade real? Em que pé está o processo?
Internamente, há essa ambição e essa capacidade. Tal como acontece com todos os ciclos de estudo do ensino superior será um processo de avaliação gerido pela A3ES. Do nosso lado, há investimentos e meios para responder a todas as exigências que nos venham a ser colocadas. Estamos preparados para dar seguimento a tudo em tempo oportuno.

O ano 2015/26 está no início.  Lançaram alguma nova licenciatura?
Os cursos de Direito e de Ciências do Desporto são as duas novas áreas que a Universidade Europeia passou a disponibilizar.

O que marca o vosso início do ano?
A consolidação do modelo académico, a confirmação de que, na área da Gestão, somos uma Universidade em que a sua Licenciatura 100% lecionada em inglês atingiu a sua maturidade, em que os doutoramentos nas áreas da Gestão e do Turismo são hoje uma garantia de qualidade. Nos últimos anos, conseguimos ser primeira opção nas áreas do Turismo e Hospitality. Por outro lado, destacaria o nosso Mestrado Global, que tem dimensão internacional e está a ter um crescimento muito forte. Por último, a procura pela Engenharia Informática, pelo Direito e pelo Desporto surpreendeu-nos pela positiva.

Pode avançar uma ordem de grandeza do montante já investido em Portugal pelo grupo?
Não podemos tornar público o investimento já efetuado, mas, todos os dias, temos procurado reforçar o corpo docente, a investigação e a qualidade das nossas instalações.

É objetivo da Europeia vir a ter o reconhecimento da Católica, que é a nossa universidade privada mais conceituada?
Aqui em Portugal?… Não. Nós queremos ser nós, iguais a nós próprios. Não queremos seguir os passos de ninguém. Queremos ser a melhor universidade não pública em Portugal e uma das melhores na Europa quando dermos escala ao projeto. Pensamos que a concorrência das instituições públicas e não públicas, por ser primeira opção para estudantes e empregadores, nos obrigará a manter a organização em permanente estado de alerta, mas, o nosso objetivo é que todas as Faculdades e/ou Escolas sejam relevantes e de qualidade. O ensino superior, para manter a sua qualidade, terá que conquistar o espaço que algumas escolas de negócios já conquistaram nos últimos anos, mas ter boas escolas de negócios não será suficiente para ter Universidades de referência internacional.

Almerinda Romeira/OJE


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