José Octávio Serra Van-Dúnem é um académico em Luanda, Lisboa e Brasil. Aproveitámos o intervalo de uma palestra no Millennium para perceber a realidade angolana vista por um cidadão daquele país, sociólogo de formação.
O desanuviar das relações entre Angola e Portugal faz-se dentro de uma política Estado a Estado, mas também através das micro-relações. A opinião é de José Octávio Serra Van-Dúnem, professor universitário em Luanda e professor convidado de sociologia do Direito na Universidade Nova de Lisboa.
Esteve na capital portuguesa há uns dias a convite da administração do Banco Millennium. O objetivo foi ouvir um académico sobre a situação atual e projetar o futuro de Angola. Aproveitámos a presença em Lisboa para uma entrevista com temas diferenciados. José Octávio Van-Dúnem falou com o OJE antes de ser conhecido o pedido de assistência ao FMI por parte do Governo angolano. Desdramatizou a situação interna e defendeu a inclusão dos dois povos.
Sobre a crise social no seu país disse não reconhecer detentores da verdade e defendeu que o desanuviamento de relações pode-se fazer pela integração do conhecimento e do know-how em muitas especialidades. Angola vive o drama do quase mono produto de exportação, mas Van-Dúnem explica que a situação é natural num país que apenas está em paz há 14 anos. Os anos anteriores foram de guerra civil e antes desses, de guerra colonial.
Dá o exemplo de integração com o seu trabalho na Universidade Nova, em Lisboa. Explica que tem alunos que “vêm beber o conhecimento de alguém que vem de Angola e isso é algo que só enriquece o nosso espaço”.
Qual a sua área de especialidade?
Sociologia e filosofia do direito, Ética e Responsabilidade Social.
Na Universidade Nova está com a mesma área?
Sociologia do Direito.
O tema Angola está na ordem do dia em Portugal. Isso é bom ou mau sinal?
Depende da ótica. É sempre bom sinal estar na ordem do dia em Portugal se partimos do princípio que as nossas relações históricas, culturais que são ancestrais, obrigam-se a estar próximos. Os nossos povos têm ligacões fortes, históricas, e estamos condenados – no bom sentido – a ter uma relação positiva. Esta relação permitirá às novas gerações serem herdeiros de toda uma história construída, e que continuará em construção.
Considera que as relações com Angola estão judicializadas?
Eu não diria de forma contundente que estão judicializadas, mas diria que as relações entre Portugal e Angola precisam de “passar por um divã” onde houvesse tempo para se colocar cá para fora algumas coisas mal resolvidas ou que a história se encarregou de resolver mal.
Como homens e mulheres do novo tempo temos a responsabilidade de as resolver. Acredito que algumas questões estão demasiado agastadas em cima de um leito de demasiada politização.
Neste momento há radicalização de posições entre as Autoridades portuguesas e angolanas?
Nao lhe posso afirmar isso, não sou técnico, sou analista, e o que nos chega é que poderá não haver radicalização, mas há uma grande sensibilidade ou seja, de parte a parte há indicadores de sensibilidades muito elevadas. Portugal tem que entender que as pessoas seguem os seus caminhos e os países seguem os seus caminhos. Mais. Os países são como as pessoas. Angola segue o seu caminho e temos que encontrar na diferença a unidade. Temos que retirar dos outros aquilo que é positivo e que nos faz crescer a todos. Friso que com este alto grau de sensibilidade, qualquer coisinha pode tocar as relações.
A perspetiva das relações entre os dois países é diferente quando vista de Luanda ou quando vista a partir de Lisboa?
Temos que ter algum cuidado porque a distância nem sempre é boa companheira. É um facto que se olharmos para as nossas relações a partir de Luanda, ficamos com a ideia de que há uma preocupação excessiva por parte de Portugal com aquilo que é o quotidiano, do que é a nossa vida em Angola. E, mais do que isso, por vezes acaba por se cair no erro que Angola é um espaço onde estão a acontecer algumas coisas que nem sempre são do agrado de alguém que está a viver em Portugal. Costumo dizer que em Angola há muitos problemas e desafios mas também há uma dinâmica muito própria de vida e que é igual à que se verifica em Portugal. No início desta conversa colocou a questão de nós, os portugueses, estarmos muito mais preocupados com o que se passa em Angola do que o contrário, e isso é exatamente o que se passa.
Sente isso?
É evidente que quando chego a Lisboa percebo que não é isso, a maioria dos portugueses está preocupada com os seus problemas, com desafios, dificuldades, alegrias e tristezas. São arrufos mais ou menos localizados que têm essa preocupação mas, vistos de fora, isso passa por uma amplificação excessiva e por um buzz mediático discutível. Por exemplo, um cidadão angolano que está do outro lado do hemisfério, chega a casa depois de um dia de trabalho e quer acompanhar as notícias de Portugal e, a RTP abre com duas ou três notícias de Angola que não são suficientemente explicadas, igualmente como um cidadão português que chegue a casa e veja informação sobre Angola, não suficientemente tratada, fica igualmente baralhado. É preciso, em meu entender, que haja uma atitude responsável por parte de determinados media, de parte a parte.
Considera ingerência em Angola as críticas que alguns setores políticos e sociais fazem em Lisboa ao modelo de desenvolvimento político?
Podem ser livres de fazerem as críticas que quiserem. Têm é que respeitar as decisões de quem as produziu e tenho que reconhecer que Angola é Angola, Portugal é Portugal. As relações estão estabelecidas com base em protocolos, acordos, em relações bilaterais e não podemos maximizar uma opinião que roce a ingerência porque aí vamos deitar fora tudo o que ganhámos até aqui em termos de relações bilaterais.
Que leitura faz a estas alterações de governança em instituições relevantes em Angola como seja a do banco central?
As mudanças no aparelho do Estado ocorrem de forma regular e não é a primeira vez que isso acontece. O chefe do executivo quando decide fazer as remodelações fala de acordo com aquilo que são as decisões da política angolana. Os analistas têm o seu espaço para fazerem as interpretações que quiserem em relação às mudanças. Não posso entrar no detalhe dessa questão porque não domino, deixo aqui a minha opinião como cidadão.
Que leitura faz do anúncio do presidente José Eduardo dos Santos de que se irá retirar da política ativa em 2018?
Como cidadão angolano direi que o Presidente tem o direto de anunciar a sua retirada, descansar, foram muito anos, e fez todo um processo histórico. Enquanto académico direi – e a opinião é minha e só minha – que esse anúncio é para a preparação das pessoas de que um novo momento virá. Essa declaração não foi feita de forma isolada, ele fez essa declaração perante um dos órgãos mais importantes do partido, no comité central, passou para os seus militantes e passou para a direção do partido.
E há continuadores políticos preparados para assegurar a estabilidade?
É evidente que sim. Tivemos essa interrogação em todas épocas e as dinâmicas de alteração são próprias do tempo. Há sempre pessoas preparadas e pessoas que se estão a preparar. Não sou político ativo mas acredito que o país vai ter na história outros líderes.
Como se explica que, ao fim de dezenas de anos de independência, o país não se tenha preparado para não ficar tão dependente – como está – do petróleo?
A pergunta tem que ser enquadrada em determinado contexto. Quando se diz que um país está independente há muitos anos, friso que ele só o é há 40 anos anos e historicamente não é um período longo, mas se pensarmos nas condições e nas possibilidade que o país teve no pós independência, a resposta pode ser diferente. Angola caiu numa guerra que nos levou até 2002. Passaram apenas 14 anos, e durante este período aconteceu muita coisa, sobretudo muita desagregação social, muitos desequilíbrios sociais, e não houve suficientes condições de estabilidade.
O petróleo teve um pico de valor que coincidiu com o fim da guerra civil e vários fatores contribuíram para que o país ficasse agarrado a esta commodity. Foram feitas obras e elas estão à vista e claro que hoje facilmente se conclui que deveria ter ocorrido a diversificação da economia, poder-se-ía ter pensado em outras alternativas que não só o petróleo, mas isso são os custos da aprendizagem que se faz sempre.
Sobre “leite derramado não vale a pena estar a chorar”. O importante é tentar corrigir para evitar que essa dependência continue.
Deixe-me dizer que o problema também não foi só o petróleo, o problema é que se formos a ver dentro de um ciclo de mudança em que houve um período de guerra, houve um período da independência, a guerra desarticulou o país completamente e quem governou Angola fez um esforço muito grande para o país não ficar completamente fraturado.
Hoje, é preciso introduzir novos comportamentos, com mudança de mentalidades, numa atitude pedagógica junto do cidadão para que este reaprenda (palavra forçada mas vou correr o risco de usar) a viver com base em novos cenários, assumindo novas atitudes. O mundo está diferente e nós temos que nos habituar a viver de outra forma, por isso não é só o custo do preço do petróleo, porque se o petróleo voltasse amanhã a estar no preço que estava há cinco anos atrás, iria dizer a mesma coisa: vamos mudar de mentalidade, vamos mudar de comportamento, isso é uma commodity que temos mas não nos devemos agarrar a essa commodity porque tem riscos.
Na conferência que fiz no Millennium recentemente sublinhei o aspeto referente ao ponto da mudança comportamental, mudança de mentalidade e outra atitude. E isso pressupõe exemplo, liderança, um conjunto de aspetos que vão ser o músculo para uma mudança mais séria, pois teremos um “novo normal”.
Que papel pode ter a cooperação universitária e cultural para atenuar as diferenças que existem entre Portugal e Angola?
Um papel importante. Desde já se pensarmos num conjunto de áreas onde Portugal hoje tem muito mais quadros que nós, quadros bem preparados, e sobretudo na transferência de pensamento e na criação de áreas de excelência.
Sou apologista de criação de pontes de via dupla onde nós, universidades angolanas, portuguesas e outras , possamos fazer trocas de experiências. Pensarmos que aproveitar a autoestrada da Cultura é ir de encontro ao legado que a história nos deixou, mesmo porque a Cultura anda mais rápido que a História.
Por Vítor Norinha/OJE
Tagus Park – Edifício Tecnologia 4.1
Avenida Professor Doutor Cavaco Silva, nº 71 a 74
2740-122 – Porto Salvo, Portugal
online@medianove.com