Constituindo uma das principais localizações geográficas da expansão dos primeiros impérios coloniais europeus, a América Latina tem uma história social particularmente rica, por um lado, mas, por outro, permanentemente violenta e muitas vezes sanguinária. Sendo desde sempre, e por definição, uma terra de fronteira, a América Latina não podia deixar de fugir a uma história marcada por caudilhos, militares em revolta, proliferação de enormes diferenças entre os muito ricos e os muito pobres, e, como contraponto, revoluções sociais a maior parte das vezes com o recurso a armas.
No meio disto tudo, o subcontinente ainda passou um largo período de revolta contra os países europeus que ocupavam as terras que durante muitos anos não tinham sido (na sua ótica) de ninguém – a Espanha e Portugal, e mais tarde a França, a Holanda e os Estados Unidos. É, por isso, uma região de violência, de extremos e de experimentações, que seguem em paralelo, do ponto de vista político, a uma espécie de sina de sucessão entre regimes militares (ou não) de direita totalitária e regimes socialistas e pró-comunistas que dificilmente escapam à mesma tentação: a do totalitarismo – que não são iguais entre si, por muito que alguns comentadores e uns poucos historiadores se esforcem por tentar provar uma comunhão ou continuidade dos extremos que só é evidente para os pouco esclarecidos.
Para não se ser fastidioso no que tem a ver com o tempo histórico, é muito evidente que, no que tem a ver com a América Latina, há um antes e um depois da revolução cubana – que tomou Havana durante as festas de comemoração do ano novo de 1959. Fidel Castro soube ou percebeu que podia com facilidade acrescentar à revolução e ao barulho do crepitar das metralhadoras, a utopia do sonho de uma espécie de república da felicidade entre os pobres. Esta amálgama entre sonho e realidade – quase uma mescla pré-religiosa – teve até um apóstolo iluminado que se tornou devidamente mártir, Ernesto Che Guevara (um argentino), fechando o círculo de um projeto a que o subcontinente não podia ficar indiferente.
De 1959 a esta parte, as tentativas de replicar (em alguns pontos com enormes diferenças) a aventura cubana (entretanto quase divinizada na Europa, nomeadamente pela aventura de Maio de 68) aconteceu um pouco por todo o lado. E o Brasil, ao contrário do que muitas vezes se pensa, não foi uma exceção: Carlos Marighella foi um dos principais ideólogos da luta armada, tanto no papel como na selva – e, facto não despiciendo, foi ‘imortalizado’ numa música de 2012 da autoria de Caetano Veloso, o que demonstra ainda mais a ‘bagunça’ entre o onírico e o factual na esquerda revolucionária da América Latina.
Hugo Cháves, mais um
Neste quadro, o presidente venezuelano Hugo Cháves não podia deixar de fazer parte da galeria dos notáveis na América Latina. Foi, apesar de tudo, um outsider: é um dos poucos que, vindo da instituição militar, instaurou um regime socialista. Cháves, como não podia deixar de ser, procurou – e não foi preciso procurar muito – o apoio de Cuba e de Fidel Castro. Mas morreu depressa e deixou o poder a um herdeiro que ninguém consegue compreender.
Nicolás Maduro começou mal – o lado ‘intelectual’ do chavismo nunca percebeu muito bem de onde surgiu aquele herdeiro, tão falho de consistência ideológica e tão desastrado no discurso – e é bem possível que venha a acabar da mesma maneira.
Por estes dias, o atual presidente da Venezuela conseguiu colocar o país a ferro e fogo e não é preciso ser-se grande visionário para se perceber que o momento que o país vive vai acabar mal. Mas o politólogo António Costa Pinto é peremptório: “a experiência venezuelana não vai contaminar as esquerdas latino-americanas”, afirmou ao Jornal Económico. “Não há muitos vasos comunicantes entre os partidos de esquerda” no subcontinente.
Até porque, se durante o consulado de Cháves, a maioria dos partidos de esquerda do subcontinente era claramente favorável ao regime, o histórico de Nicolás Maduro foi fazendo alterar paulatinamente esse estado de coisas. Cuba e o regime de Raul Castro continua a ser um apoio forte da ditadura (cada vez mais óbvia) do tipo que afirma falar com os passarinhos, mas os suportes internacionais continuam a ser cada vez mais escaços – e principalmente cada vez mais envergonhados.
A prestação desses apoios no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA) torna claro esse esboroamento: a organização foi sempre um dos suportes do socialismo venezuelano, mas é cada vez menor o número de países que insiste em bloquear as sanções contra a Venezuela. Pior: os apoios que ainda sobrevivem, parecem mais ser motivados pelo princípio da oposição aos Estados Unidos, que propriamente por um gosto verdadeiro nas derivas do regime de Maduro.
Mesmo do outro lado do oceano, o espanhol Podemos – que chegou a ser uma espécie de ‘braço armado’ da revolução chavista no coração da União Europeia – tem vindo a mitigar a militância ‘de género’ que praticou ao longo de vários anos. Por cá, há muito que os sites oficiais do Bloco de Esquerda deixaram de apoiar Maduro, passando a trata-lo como mais um cilindro compressor da democracia.
Daqui por muitos anos, os livros de história – sejamos modernos: os sites de história – quando fizerem a lista dos revolucionários latino-americanos que chegaram ao poder, não vão lá inscrever o nome Nicolás Maduro, ao contrário do que sucederá com o nome Hugo Cháves. A história não o absolverá.
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