Ninguém se lembraria de Berlim ao pensar em Pettigo, excepto os habitantes de Pettigo. Uma pequena vila de velhos castelos e igrejas, casas pequenas e vastos prados verdes, atravessada pelo rio Termon que separa a Irlanda da Irlanda do Norte, Pettigo não tem nada em comum com os prédios altos, a economia pujante, a agitação e a vida nocturna animada da capital alemã. No entanto, não é na Berlim moderna e vibrante de hoje que os habitantes de Pettigo estão a pensar quando fazem a comparação, mas na Berlim suja, decadente e escura dos anos 60, 70 e 80, tornada ainda mais escura pelas sombras do Muro que a partia ao meio.
Lisa O’Carrol, uma jornalista do The Guardian, visitou Pettigo para uma peça para o seu jornal. E na cabeça e nas palavras de todos os que ouviu estava o receio do que acontecerá à sua terra quando o Reino Unido sair da União Europeia. No passado 17 de novembro, o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar, declarou que o seu país bloquearia o avanço das negociações do Brexit se o Reino Unido não desse uma garantia formal escrita de que não haveria um regresso à chamada “fronteira dura” entre as duas Irlandas. Pettigo foi dividida na mesma altura em que o foi toda a Irlanda, nos anos 20 do século passado quando os republicanos conseguiram a independência do território do sul. Com a separação, vieram as fronteiras, com as elas as barreiras e as, com elas soldados, com eles a violência e o contrabando, e com estes o inevitável sofrimento dos habitantes locais, com as estradas fechadas, as bombas lá colocadas, ou as ambulâncias barradas na fronteira e os doentes a serem transferidas para outra. Com os acordos de Belfast em 1998, as fronteiras então erguidas podem ter-se tornado “invisíveis”, como O’Carrol lhes chama, mas não deixaram de existir. E se britânicos e irlandeses não chegarem a um acordo, a construção de uma “fronteira dura”, como todos lhe chamam, será praticamente uma inevitabilidade.
O’Carrol falou com Mervyn Johnston, um antigo campeão de rallys hoje com 78 anos, com idade mais do que suficiente para se lembrar de uma Pettigo dividida por postos fronteiriços e patrulhada por soldados vigiando as linhas que separam a parte da vila que pertence à Irlanda e a que se situa na Irlanda do Norte. “Um dia”, contou-lhe Johnston, “um par de homens do IRA apareceu-me na garagem, e apontaram-me uma arma. Levaram-me estrada fora e puseram-me no posto fronteiriço. Dispararam contra mim”. “Felizmente para Johnston, mas não para o seu aprendiz, “foi um mau tiro e a bala passou-me debaixo do braço”, atingindo o seu subalterno. “Foi bastante assustador”, recordou.
“Passámos as últimas duas décadas a construir laços, social, económica e culturalmente”, disse a O’Carrol uma assistente comunitária chamada Natasha McGrath. “Os dois estados estão ligados e agora vão separá-los”. “Construir pontes demora anos” disse-lhe Martin Eves, o gerente de uma fábrica local, e agora “é o Muro de Berlim que se está a aproximar daqui”.
George Fleming, um habitante de Londonderry entrevistado por Sarah Lyall para o New York Times, disse o mesmo: “reintroduzir a fronteira é como reerguer o Muro de Berlim de novo, depois de o ter deitado abaixo”, disse-lhe em Agosto. Mas não é preciso viajar no tempo até à Berlim do século passado para ver muros separando irlandeses uns dos outros. Em Belfast, capital da Irlanda do Norte, os vários construídos nos tempos dos “Problemas” não só continuam erguidos, como novos têm sido construídos desde então. Barreiras com arame farpado, estendendo-se por vários metros de altura, atravessam a cidade, criando “linhas de paz” entre bairros de famílias protestantes e bairros de famílias católicas, procurando evitar que se gerassem confrontos violentos entre elas.
O medo dos habitantes de Pettigo é de que algo de semelhante surja na sua vila. A primeira-ministra britânica, Theresa May, garante que “ninguém quer o regresso das fronteiras do passado”. Mas em Pettigo, as suas palavras são vistas como vazias. ” O’Carrol conta que David Parkes, um jovem que entrevistou, lamentou que “alguém vai decidir as nossas vidas com uma caneta. Nós não temos voz nisto”. uma das razões, diz O’Carrol, para este sentimento, reside no facto de como a Irlanda do Norte se encontra sem governo e o Sinn Féin, partido dominante nos círculos eleitorais fronteiriços, recusa ocupar os seus lugares no Parlamento britânico, ninguém na parte norte-irlandesa de Pettigo se sente representado politicamente. Assim, resta aos habitantes aguardar pelo dia em que o Brexit chegará, e esperar que uma “fronteira dura” não venha com ele. “História tem de ser história, disse a Lyall um dos seus entrevistados. “Tem de ser deixada no passado”.
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