Estudos demonstram que os humanos costumavam dormir dois sonos por noite, presumivelmente até à Revolução Industrial, e, apesar de o sistema atual não ser “natural”, “não há maneira de voltar [atrás]”, disse o historiador Roger Ekirch, na semana passada, à “BBC”.
Ekirch fez questão de enfatizar que o abandono do sistema de sono duplo não significa que a qualidade do nosso sono hoje seja pior, até porque não temos por hábito dormir com múltiplas pessoas, ou animais, na mesma cama ou divisão, como antigamente, por exemplo.
No início do século passado, quando o professor na Virginia Tech começou a fazer pesquisa para o seu livro sobre a história da noite, não esperava encontrar quaisquer mudanças nos hábitos de sono dos humanos, até que descobriu que, durante milénios, era um hábito comum dormir dois ciclos com uma pausa de atividade no meio.
De acordo com a “BBC”, no Arquivo Nacional do Reino Unido Ekirch encontrou muitas referências ao fenómeno até aí desconhecido, o “sono bifásico”, como mais tarde lhe chamou.
No momento em que o historiador expandiu a sua pesquisa para incluir bancos de dados online de outros registos escritos, ficou claro que o fenómeno era mais difundido e normalizado do que ele tinha imaginado.
Para começar, o primeiro sono é mencionado numa das obras mais famosas da literatura medieval, The Canterbury Tales, de Geoffrey Chaucer (escrito entre 1387 e 1400), apontou a “BBC”. Mas foram encontradas centenas de referências casuais ao sistema em cartas, diários, livros médicos, escritos filosóficos, artigos de jornal, peças de teatro e baladas.
E o “sono bifásico” não é exclusivo do Reino Unido. Também na Europa, em França e Itália, era comum este hábito na era pré-industrial. E Eckirch encontrou evidências da sua existência em África, Sul e Sudeste Asiático, Austrália, América do Sul e Médio Oriente.
Na sua investigação, o primeiro registo que o historiador encontrou era do século VIII aC, n’A Odisseia, enquanto os últimos indícios da sua existência datam do início do século XX, antes de cair no esquecimento.
Uma noite no século XVII, explicou, costumava começar com um curto ciclo das 21h até às 23h. O despertar acontecia de forma natural – sem alarmes (que só foram inventados em 1787) ou outros barulhos ou perturbações – tal como de manhã.
O momento de atividade noturna começava por volta das 23h e estendia-se até perto da 1h. “[Os registos] descrevem que as pessoas faziam praticamente tudo e qualquer coisa depois de acordarem do seu primeiro sono”, afirmou o professor universitário.
Como explica no seu livro, At Day’s Close: A History of Nighttime, a pausa entre os ciclos era usada para múltiplos fins, desde verificar os animais de quinta ou realizar tarefas domésticas, a urinar e cometer crimes. Também era usada para fins religiosos: para os cristãos, havia até orações específicas para essa parcela exata de tempo. Mas acima de tudo, era útil para socializar e para fazer sexo.
Depois de voltarem voluntariamente para a cama, seguia-se o sono da “manhã” e poderia durar até o amanhecer, ou mais tarde, à semelhança do que acontece hoje.
Ora, no decorrer das últimas três décadas, investigações experimentais sobre o sono comprovaram que há uma tendência para, ao final de algum tempo, os humanos cederem naturalmente ao padrão dos dois ciclos por noite quando privados de luz artificial.
E mesmo que esse não seja o único fator na origem da mudança, no final do século XX, a divisão entre os dois sonos já tinha desaparecido por completo.
“A Revolução Industrial não apenas mudou nossa tecnologia, mas também nossa biologia”, destacou a BBC.
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