A inflação tem estado em foco nas principais economias mais avançadas a nível global, com os preços a subirem rapidamente na zona euro, EUA ou Reino Unido depois de largos anos sem variações assinaláveis e políticas monetárias expansionistas que começam agora a ser revistas. Saiba como a inflação afeta o crescimento económico e o poder de compra das famílias.
Como terminou 2021 em termos de inflação e o que levou a esta subida?
O último ano fechou com níveis recorde de inflação na zona euro e valores não vistos em décadas neste indicador nas economias norte-americana e britânica. O bloco da moeda única terminou 2021 com uma variação de preços de 5%, enquanto os EUA chegaram aos 7%, um número não registado desde 1982. No Reino Unido, o ano terminou com 5,4%, algo que não se verificava desde 1992. Esta subida nos preços foi causada sobretudo por três fatores: a rápida recuperação da economia com a reabertura da generalidade das atividades com as empresas a ter dificuldades em acompanhar o rápido aumento da procura, pois ainda estão a reconstruir as cadeias de abastecimento que foram gravemente afetadas pela pandemia, dificultando e encarecendo o transporte de mercadorias.
Um segundo fator é a subida dos preços nos produtos energéticos. Este é um fator muito importante para a inflação global dado que grande parte dos custos das empresas e das pessoas estão relacionados com produtos energéticos, o preço do petróleo, do gás e da eletricidade. O BCE estima mesmo que metade do recente aumento da inflação deveu‑se aos preços mais altos dos produtos energéticos.
Por fim, um terceiro fator é o chamado “efeito base”, ou seja, a comparação com um cenário base anormalmente baixo. Ou seja, comparando os atuais preços mais elevados com esses níveis muito baixos da pré-pandemia, as diferenças são significativas.
Como é que a inflação afeta o poder de compra?
A subida generalizada dos preços significa que, para um nível de rendimento fixo, a possibilidade de consumo de um agente (famílias ou empresas) diminui, isto porque com a mesma quantidade de dinheiro, as empresas ou famílias compram menos bens ou serviços. É por isto que, muitas vezes, a inflação é referida como um imposto escondido, ao reduzir o valor real do rendimento, levando a uma redução do consumo. Este efeito é particularmente gravoso para as famílias de baixo rendimento. O menor consumo das famílias afeta, por sua vez as empresas, que vendem menos, afetando, assim, a economia.
A inflação na sua vida quotidiana não acontece apenas quando vai ao supermercado, trazendo para casa menos compras pelo mesmo dinheiro. Ou quando constata que o aumento salarial, afinal, não permite poupar tanto quanto pensava. Além, da forma como consome, a inflação influencia também as suas poupanças e investimentos.
Qual o impacto da inflação na economia?
Ao equivaler a uma redução do rendimento real das famílias, a inflação condiciona negativamente o consumo, uma componente fulcral do PIB e cujo contributo para o crescimento é, historicamente, bastante significativo na maior parte das economias mais desenvolvidas. Por outro lado, é uma fonte de incerteza que pode afetar decisões de investimento, embora, numa situação de liquidez e com expectativas de inflação crescentes, a tendência será para os antecipar.
Uma dimensão muito relevante com a qual a inflação interage prende-se com as taxas de juro, o principal instrumento utilizado pelos bancos centrais para abordar este fenómeno. Ao subir as taxas de juro, os bancos dão mais incentivo à poupança das famílias, ao mesmo tempo que tornam mais dispendioso para as empresas contraírem crédito. Este é um mecanismo comum para arrefecer a economia, especialmente em ciclos económicos positivos e de crescimento que ameaçam o sobreaquecimento. Simultaneamente, uma subida da inflação equivale a uma descida das taxas de juro reais, visto que a remuneração paga por um depósito (ou seja, os juros) perdem valor futuro devido à subida generalizada de preços.
Já em 2022, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu em baixa o crescimento global, bem como o da zona euro, o norte-americano, o britânico e o das economias mais avançadas como um todo, em parte devido à subida dos preços e à maior persistência destas pressões do que inicialmente esperado.
O que acontecerá à inflação em 2022?
A perspetiva dos bancos centrais europeu, americano e britânico é que, apesar da maior duração da pressão nos preços do que era antecipado no ano passado, a inflação deverá acalmar na segunda metade do ano. Na zona euro, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), destacou a semana passada, após o anúncio de que a instituição manteria a política monetária inalterada, que o fenómeno da inflação não mostra efeitos de segundo grau na economia europeia, ou seja, que a pressão sentida nos bens energéticos não parecia ainda estar a alastrar-se a outros sectores da economia. Assim, a expectativa é de que o ano feche com o indicador ligeiramente abaixo do alvo de 2%, embora estas sejam atualizadas em março. Já o FMI estima que o indicador chegue aos 1,7%, enquanto a OCDE projeta 2,7% no final do ano.
Para Portugal, o Governo inscreveu na sua proposta de Orçamento do Estado para 2022 (OE2022) a previsão de 0,9% no final de 2022. No entanto, considerando que este valor era também a previsão para o final de 2021, ano que terminou com 1,3%, a expectativa oficial pode ser revista no documento apresentado pelo novo Executivo.
Esta possibilidade é reforçada pelos alertas de Bruxelas, que ainda esta segunda-feira manifestou “uma séria preocupação” pela “incerteza muito elevada” criada pela pressão nos preços. Valdis Dombrovskis, vice-presidente executivo da Comissão Europeia, e Paolo Gentiloni, comissário com a pasta da Economia, reiteraram ainda assim a confiança na ação do BCE, apesar de reconhecerem os efeitos adversos causados pela inflação e a possibilidade de esta se manter elevada durante mais tempo do que o previsto.
Outro fator a influenciar nesta questão é a escalada de tensões no leste europeu, com a Europa a arriscar ver diminuído o abastecimento de gás natural pela Rússia em retaliação pela questão ucraniana. Parte da crise nos preços da energia no mercado europeu vem já da recusa de Moscovo em aumentar o fornecimento, após invernos rigorosos mas pouco ventosos que obrigaram a um maior consumo de energia no Velho Continente, ao mesmo tempo que as fontes renováveis foram insuficientes para acompanhar este aumento.
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