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Campos e Cunha: Normalização da política monetária “vai demorar anos”

O antigo ministro das Finanças sublinha o papel que terá a incerteza nos próximos tempos, o que dificulta quaisquer projeções no curto-prazo quanto ao rumo da política monetária do BCE.
Cristina Bernardo
14 Março 2022, 17h45

A subida de preços na zona euro já se vinha verificando antes da decisão russa de invadir a Ucrânia, mas o impacto agora será mais longo e pronunciado, arriscando mesmo um condicionamento da atividade económica que coloque o bloco da moeda única num cenário de estagnação económica. Luís Campos e Cunha, ex-ministro das Finanças e professor na NOVA SBE, reconhece esse perigo, mas antecipa que uma normalização da política monetária ocorra de forma demorada e não no curto-prazo.

 

Parece-lhe haver um risco de estagflação no curto-prazo na zona euro?

Penso que sim, que existe. Esse risco foi, talvez, um pouco exagerado no passado, mas, neste momento, com a guerra na Ucrânia e os impactos nos preços da energia, principalmente do petróleo e do gás, acho que esse problema existe. Estagflação é estagnação com inflação, ou seja, vamos ter subidas de preços bastante acima do esperado ao mês e as expectativas económicas e políticas são suficientemente negativas para haver uma contração do investimento e do consumo, o que leva provavelmente a uma estagnação. Portanto, subidas de preços, certamente; uma estagnação ou até mesmo uma ligeira contração da atividade económica pode vir a acontecer.

 

Como perspetiva a evolução das taxas de juro no médio-prazo? O atual ambiente de taxas perto de zero é sustentável durante muito mais tempo?

Nunca seria sustentável, ainda que uma coisa seja há um mês atrás, outra coisa é hoje. Há um mês, era claro que seria uma questão de tempo para as taxas de juro terem de subir, independentemente até da evolução da inflação, porque são as taxas de juro que estão anormalmente baixas em termos históricos e deviam subir. Com a evolução da inflação, isso tornou-se mais óbvio. Penso que algumas taxas de juro podem subir, mas, ao mesmo tempo, neste momento e dadas as circunstâncias que estamos a viver, hoje não dominadas pela pandemia, mas sim pela crise militar que estamos a assistir na Ucrânia, o que vamos ter é o BCE a comprar dívida pública e, provavelmente, fazer um pequeno ajuste nas taxas de juro, que algumas delas até estão negativas. Isto não faz grande sentido e torna provável que haja algum acerto nessa maneira. Mas, neste momento, a grande incerteza é saber como vai evoluir e acabar a guerra na Ucrânia.

 

Como poderá ser feita essa normalização, dados os elevados rácios de dívida de alguns países e a recuperação a ritmos diferentes entre norte e sul?

Sem saber os contornos, ninguém consegue dizer como será feita a normalização, porque pode demorar vários anos e tudo dependerá em grande parte da evolução da guerra na Ucrânia e as consequências que pode ter ou não sobre os preços da energia, sobre a recessão que pode haver… O desenrolar da guerra vai ser crucial. A longo prazo, vamos ter taxas de juro mais altas e o BCE não terá de fazer compras, mas não será agora, vai demorar anos.

 

Fará sentido retomar as regras orçamentais da UE a partir de 2023?

Tudo depende muito da evolução da guerra e das suas consequências. O esforço militar que a Europa vai ter de fazer vai ser muito grande, o número de refugiados não para de aumentar e isso também terá custos para a UE. Evidentemente, não podemos deixar de ser solidários. Também temos de ver outra coisa: as regras orçamentais, basicamente, pretendem limitar a explosão da dívida pública em alguns países e isso significa que o desastre será ainda maior do que termos algum aperto orçamental, porque o aperto vai ser determinado pelos mercados. Já experimentámos isso em Portugal, com os resultados que todos conhecemos. Isso não quer dizer que o défice orçamental, do ponto de vista económico e da evolução da economia, seja irrelevante; não é. A normalização não virá tão depressa, mas, mais tarde ou mais cedo, terá de vir.


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