Numa altura em que a União Europeia quer interromper as importações de combustível da Rússia, Israel vê uma abertura para o seu gás natural, mas os obstáculos são muitos e, de qualquer modo, a alternativa não é imediata – muito pelo contrário.
Os Estados da União continuam divididos relativamente à questão do fim da importação de energia fóssil proveniente da Rússia, mas a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que o bloco espera eliminar gradualmente a sua dependência do gás, petróleo e carvão russos até 2027.
O governo de Israel pondera a possibilidade de construir um ou mais oleodutos, potencialmente via Grécia ou Turquia, ou aumentar a quantidade de gás canalizado para o Egipto para ser liquefeito e enviado para a Europa. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Yair Lapid, disse, após uma recente visita a Atenas, que “a guerra na Ucrânia deve mudar a estrutura do mercado de energia da Europa e do Oriente Médio”.
O Estado judaico trabalhou ao longo de anos para criar rotas de exportação de gás, com resultados mistos até agora – muito por causa das más relações diplomáticas que o país mantém com diversos países vizinhos. A Turquia, cujos laços com Israel têm melhorado recentemente após mais de uma década de rutura, expressou novo interesse, diz o governo israelita, em que um oleoduto passe pelo seu território e o ministro turco da Energia visita Israel nas próximas semanas.
Por outro lado, Israel assinou um acordo com a Grécia e Chipre (em 2020) com o objetivo de construir o oleoduto EastMed através dos dois países, para chegar à Europa, mas a Turquia opôs-se ao projeto.
Seja como for, a ministra israelita da Energia e Recursos Naturais, Karine Elharrar, elogiou recentemente o potencial de vendas de gás para a Europa, dizendo, citada pela imprensa de Israel, que “temos a capacidade e tentaremos fazer o máximo que pudermos”. Mas a ministra sabe que está a pisar terreno ‘minado’, dado que a questão do gás natural é um dos maiores problemas existentes entre a Turquia e a Grécia.
Será de recordar que, até há poucos meses atrás, as investidas da Turquia em águas do Mediterrâneo Oriental que a Grécia considera suas em busca de gás natural foi um dos temas de sucessivas cimeiras dos 27 (e mesmo dos 28), com uma parte do bloco a pretender lançar sanções sobre Ancara. No meio da confusão estava também Chipre.
Foi na última década que Israel encontrou importantes reservas de gás natural nas suas águas territoriais – cerca de um milhão de milhões de metros cúbicos – que transformaram Israel de importador de gás natural em exportador. Mas os negócios israelitas – num quadro em que as relações entre produtores (russos e do Magreb) e compradores estava estabilizada – nunca chegaram a ser tão importantes para o país como era de esperar: os dois principais campos offshore, Leviathan e Tamar, exportam para o Egipto e para a Jordânia, num negócio que nunca ultrapassou a escala meramente regional.
Uma história curiosa
O gasoduto EastMed continua a ser uma opção, e a empresa que o está a desenvolver, a multinacional Poseidon (greco-italiana), está nos estágios finais de pesquisas geofísicas e geotécnicas sobre a rota do tubo nas águas de Israel, Grécia e Chipre. O projeto está avaliado em 5,5 mil milhões de euros e levaria cerca de quatro anos para ser concluído.
Mas vale a pena recordar que o projeto já tem vários anos. Em abril de 2017, os governos de Chipre, Grécia, Itália e Israel apresentaram os planos de construção do mais longo e mais profundo gasoduto subterrâneo do mundo — 2.200 quilómetros de canalizações ao longo do Mar Mediterrâneo, entre Israel e Itália. O projeto foi elaborado em articulação com a União Europeia e o motivo atual já lá estava: reduzir a dependência energética em relação à Rússia.
“Nas próximas décadas, os fluxos de gás da região leste do Mediterrâneo desempenharão um papel vital para a segurança energética da União Europeia”, afirmava então Miguel Arias Cañete, comissário europeu para a Ação Climática e para a Energia.
Dois anos depois, a Israel Natural Gas Lines (INGL) estava a estudar a construção do gasoduto para a Europa sob um memorando de entendimento assinado com a IGI Poseidon. O EastMed deveria transportar cerca de 10 mil milhões de metros cúbicos de gás por ano do Mediterrâneo Oriental para Chipre, Grécia, Itália e outros mercados europeus.
O campo de Leviathan, que seria a fonte para os abastecimentos à Europa, era operado por um consórcio israelense-norte-americano que inclui a NewMed Energy e a norte-americana Chevron. O Estado de Israel fornece licenças de exploração e suporte regulatório, mas não perfura gás nem constrói gasodutos.
Finalmente, em meados de janeiro passado, Washington informou oficialmente Israel, Chipre e a Grécia que iria deixar de apoiar a instalação do EastMed, informavam na altura os jornais israelitas. Revertia-se assim um apoio que havia sido prometido pelo ex-secretário de Estado Mike Pompeo e pelo ex-secretário de Energia Dan Brouillette (ambos da equipa da administração Trump). A razão apontada pela administração Biden é que o projeto não tem viabilidade económica – ou é isso, ou é porque os Estados Unidos querem passar a ser um importante fornecedor de energia fóssil em substituição da Rússia.
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