Depois de vários meses de esforços diplomáticos que os mais céticos consideraram sempre pura perda de tempo – e com o inestimável contributo da necessidade económica – o presidente da Turquia, Recep Erdogan, está de visita à Arábia Saudita.
Para isso terá concorrido o facto de a Turquia ter suspendido este mês o julgamento à revelia de 26 sauditas acusados do assassinato, em 2018, do colunista do Washington Post e dissidente Jamal Khashoggi em Istambul. A passagem para a jurisdição da Arábia Saudita de um crime cometido na Turquia foi duramente criticado pelo ocidente, mas cumpriu a sua função: aproximou as duas potências regionais.
Além de se encontrar com o príncipe herdeiro, Erdogan deverá manter reuniões com o rei Salman bin Abdulaziz. A presidência turca disse em comunicado que “todos os aspetos das relações entre a Turquia e Arábia Saudita serão revistos, e as medidas destinadas a melhorar a cooperação entre os dois países serão discutidas nas conversações”.
Para além das questões internacionais, a Turquia está fortemente interessada na capacidade de financiamento que a Arábia Saudita tem neste momento – numa altura em que o preço do petróleo bate recordes e a OPEP não dá ouvidos aos pedidos de aumento da produção emanados da Casa Branca. Com a economia turca afundada numa crise inflacionista sem precedentes, qualquer investimento estrangeiro é bem-vindo.
“A Turquia e a Arábia Saudita procurarão desenvolver todos os aspetos das relações entre os dois países durante a visita e trocar pontos de vista sobre questões regionais e internacionais”, disse o gabinete de Erdogan.
A viagem é parte de um esforço mais amplo para encontrar novas relações com os países do Golfo após anos de hostilidade alimentada pelo apoio de Erdogan a grupos alinhados à com a Irmandade Muçulmana durante as revoltas da Primavera Árabe de 2011.
O facto de os Estados Unidos se terem retirado do terreno desde que Donald Trump deixou a Casa Branca – altura em que a Arábia Saudita deixou de poder contar com o estatuto de ‘amigo especial’ de Washington – também contribuiu, segundo os analistas, para a aproximação entre Ancara e Riad.
As remessas para a Arábia Saudita, outrora um mercado importante para a Turquia, caíram no final de 2020. No ano passado, as exportações turcas foram de pouco mais de 200 milhões de dólares, muito abaixo dos 3,2 mil milhões de 2019. O governo de Ancara espera que a reaproximação ajude a restaurar o comércio aos níveis anteriores e impulsione os investimentos sauditas na Turquia.
Recorde-se que os Emirados Árabes Unidos assinaram um swap cambial (contrato mediante o qual os árabes acordaram trocar moedas à taxa de câmbio em vigor à data da contratação, suprimindo o efeito da inflação) de 4,9 mil milhões de dólares com a Turquia em janeiro, oferecendo o tão necessário apoio cambial à Turquia. A intenção de Ancara é explorar a possibilidade de assinar um acordo semelhante com a Arábia Saudita.
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