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Nem os santos escapam ao lápis acutilante de Bordalo Pinheiro

A exposição “O milagre do riso: Santo António por Bordalo” inaugura a 7 de junho no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, e reúne peças devocionais e da mais pura caricatura em torno do santo mais popular do mundo.
4 Junho 2022, 16h00

O olhar acutilante de Rafael Bordalo Pinheiro tudo observava, tudo caricaturava. Ninguém estava imune à sua pluma, e nem os Santos escapavam, sendo Santo António um dos seus eleitos quando se tratava de convocar para as páginas das suas publicações uma figura tradicional e pícara da sociedade portuguesa.

Falamos de quem? Do famoso caricaturista português que criou o talvez ainda mais famoso “Zé Povinho” – implacável para com os pontos fracos dos portugueses. Na verdade, o olhar cáustico de Bordalo continua pleno de atualidade transposto para os dias de hoje, ou não fosse a caricatura e o desenho humorístico uma arma social. Aliás, Bordalo não perdia a oportunidade de escrutinar a vida social e política nas suas publicações, num registo essencialmente satírico, intercalado, por vezes, com um registo próximo da reportagem.

De realçar ainda que a obra gráfica de Rafael Bordalo Pinheiro constitui um importante documento histórico dos acontecimentos, costumes e mentalidades do final do século XIX em Portugal. Razão pela qual essa figura tão cara à cidade de Lisboa, o Santo António, não poderia faltar na galeria bordaliana. As “tradições populares associadas ao culto e às festas eram usadas por Bordalo e os seus colaboradores, como o filho Manuel Gustavo, enquanto metáfora dos comportamentos da classe política e da situação do país”, realça o texto no site do Museu Bordalo Pinheiro, alusivo à exposição temporária que inaugura no dia 7 de junho.

A galeria bordaliana estava repleta de “santo Antónios” da política. Ou seja, Bordalo divertia-se a criar situações em que substituía o santo milagreiro ou as jovens em busca de marido pelas feições de membros do governo e da oposição. E se ao longo do ano não se coibia de o fazer, no mês de junho, mês em que Lisboa vibrava com as festas dos Santos Populares, o humor também saía à rua.

 

A Paródia, 25 de junho de 1902 | Museu Bordalo Pinheiro

 

Uma curiosidade histórica

Refira-se, a título de curiosidade, que Rafael Bordalo Pinheiro fazia parte da Grande Comissão Central de Lisboa para as comemorações do 7º Centenário do nascimento de Santo António, em 1895, que reunia um conjunto de figuras ilustres, sob a presidência da rainha D. Amélia.

Tal facto não o impediu, nem a si nem ao seu filho Manuel Gustavo, de publicar no seu jornal “O António Maria” desenhos com comentários mordazes aos festejos. Desde o arranjo gráfico do cartaz, às iluminações pobres, às decorações sem gosto e ao arraial encobrindo a estátua de D. José, passando pela falta de rigor dos carros alegóricos e dos figurantes do cortejo histórico, nada escapou ao olhar incisivo de Rafael.

A exposição é comissariada por Mariana Roquette Teixeira e Pedro Bebiano Braga, e pode ser visitada no Museu Bordalo Pinheiro, no Campo Grande, em Lisboa, até 9 de outubro.


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