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Dentro do exército russo centenas recusam-se a regressar à Ucrânia

A falta de preparação de colegas, de materiais e de estratégia traumatizou alguns dos soldados que procuraram aconselhamento jurídico para evitar voltar a combater no país vizinho.
3 Junho 2022, 16h15

Há soldados russos, pelo menos algumas centenas, que se recusam a voltar a combater na Ucrânia por causa das suas experiências na linha de frente no início da invasão, segundo advogados e ativistas russos de direitos humanos. Sergey (nome fictício) é um dos combatentes que procurou aconselhamento jurídico para evitar o regresso, depois de cinco semanas em que se deparou com falta de preparação de colegas, de materiais e de estratégia, segundo a “BBC”.

“Não quero voltar [para a Ucrânia] para matar e ser morto”, diz Sergey, que agora está em casa na Rússia, traumatizado com sua experiência na Ucrânia.

“Pensei que éramos o exército russo, o mais duro do mundo”, afirma amargamente. Em vez disso, operaram sem equipamentos básicos, como dispositivos de visão noturna, diz. “Nós éramos como gatinhos cegos. Não custaria muito nos equipar. Por que não foi feito?”, questiona.

Sergey entrou no exército como recruta uma vez que a maioria dos homens russos entre 18 e 27 anos deve completar um ano de serviço militar obrigatório. Mas, depois de alguns meses, assinou um contrato profissional de dois anos que lhe permitiria auferir salário.

Em janeiro, foi enviado para perto da fronteira para o que lhe disseram que seriam exercícios militares. A 24 de fevereiro, o dia em que a Rússia lançou sua invasão, a sua unidade foi instruída a cruzar a fronteira e foi quase imediatamente atacada.

Quando pararam para passar a noite numa fazenda abandonada, o seu comandante disse: “Bem, como você já deve ter percebido, isto não é uma piada”.

Eram continuamente bombardeados, diz , tanto em movimento quanto quando estacionados para pernoitar. Das 50 pessoas que faziam parte da sua unidade, dez foram mortas e outras 10 feridas. Quase todos os seus camaradas tinham menos de 25 anos.

Para além da falta de materiais, preocupava-o a falta de preparação das tropas, ao ouvir relatos de militares russos tão inexperientes que “não sabiam atirar e não sabiam distinguir uma extremidade de um morteiro da outra”.

Sergey viu os seus camaradas a ficar para trás em mais do que uma ocasião. De uma das vezes, o seu comboio, que viajava pelo norte da Ucrânia, desfez-se depois de apenas quatro dias, quando uma ponte que estava prestes a atravessar explodiu, matando soldados à sua frente. Noutra, teve que ultrapassar companheiros presos dentro de um veículo em chamas à sua frente, que ele viu. “Contornamos e continuamos, atirando enquanto avançávamos. Não olhei para trás”, indica.

A sua unidade mudou-se para o interior da Ucrânia, mas houve uma clara falta de estratégia, diz. Os reforços não chegaram, os soldados estavam mal equipados para a tarefa de tomar uma grande cidade, quanto mais num curto espaço de tempo. Os comandantes russos acreditavam que os ucranianos simplesmente se renderiam. Há custa disso, muitos soldados morreram, acredita.

“Fomos sem helicópteros – apenas  numa coluna, como se estivéssemos indo para um desfile. Avançamos com pernoites curtas, sem trincheiras, sem reconhecimento, sem ninguém na retaguarda. Se alguém decidisse vir por trás e atingir-nos, não havia proteção”, afirma. “Se tivéssemos avançando gradualmente, e procurando minas nas estradas, muitas perdas poderiam ter sido evitadas”.

No início de abril, Sergey foi enviado de volta à fronteira para um acampamento no lado russo. As tropas foram retiradas do norte da Ucrânia e pareciam estar a reagrupar-se para um ataque no leste. Mais tarde naquele mês, recebeu uma ordem para regressar à Ucrânia, mas disse ao comandante que não estava preparado.

“Ele disse que a escolha era minha. Nem nos tentaram dissuadir, porque não fomos os primeiros”, diz. Mas ele estava preocupado com a reação da sua unidade e decidiu procurar aconselhamento jurídico.

Um advogado disse a Sergey e dois colegas que pensam da mesma forma para devolverem as armas e voltarem para a sede da sua unidade, onde deveriam apresentar uma carta a explicar que estavam “exaustos moral e psicologicamente” e que não podiam continuar a combater na Ucrânia. Se não voltasse, a simples saída poderia ser interpretada como deserção, o que pode resultar numa sentença de dois anos num batalhão disciplinar.

Embora Sergey não queira regressar à linha de frente no país vizinho, deseja completar o  serviço militar na Rússia para evitar consequências imprevistas. Mas isso significa que não há garantias de que não será enviado de volta à Ucrânia durante o seu período de serviço, embora a sua carta de recusa tenha sido aceite.

“Posso ver que a guerra continua, não vai acabar”, lamenta. “Nestes meses [de serviço militar obrigatório] que me resta, tudo — inclusive o pior — pode acontecer”.


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