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Mercado de obrigações entra em “bear market” pela primeira vez desde os anos 70

Segundo a Bloomberg “sob pressão dos banqueiros centrais determinados a travar a inflação mesmo às custas de uma recessão, os títulos globais entraram em bear market [tendência de queda prolongada] pela primeira vez numa geração”. 
Kai Pfaffenbach/Reuters
2 Setembro 2022, 10h45

O Bloomberg Global Aggregate Total Return Index, um dos principais índices globais para medir o desempenho das obrigações soberanas e corporativas mundiais, cai 20% em relação ao pico de janeiro de 2021, o que é considerado pelos analistas um marco histórico no mercado de obrigações global, que atingiu assim o primeiro “bear market” das últimas décadas.

Segundo a Bloomberg “sob pressão dos banqueiros centrais determinados a travar a inflação mesmo às custas de uma recessão, os títulos globais entraram em bear market [tendência de queda prolongada] pela primeira vez numa geração”.

Em muitos aspectos, as realidades económicas e políticas que os investidores enfrentam actualmente remontam à década de 1960, que começou na segunda metade dessa década, quando um período de baixa inflação e desemprego chegou ao fim de forma repentina, diz a Bloomberg que lembra que à medida que a inflação acelerou durante a década de 1970, as yields de referência do Tesouro subiram. Mais tarde atingiriam quase 16% em 1981, depois de o então Presidente da Fed, Paul Volcker, ter aumentado as taxas para 20%, para acalmar as pressões inflacionistas sobre os preços.

A BA&N Unit Research salienta que esta é uma situação inédita desde que este índice foi criado em 1990 e que só terá paralelo nos anos 60, período em que as yields das obrigações dispararam devido à alta da inflação.

“Quedas desta dimensão nas obrigações são muito raras, evidenciando o atual ambiente nos mercados, em que os investidores estão a fugir das ações em simultâneo com os títulos de dívida, devido aos receios com uma política monetária agressiva para contrariar a inflação em máximos”, detalha a análise da BA&N Unit Research.

As rápidas subidas das taxas de juro, implementadas pelos decisores políticos em resposta ao aumento da inflação, puseram fim ao bull market de quatro décadas nas obrigações. Isto está a criar um ambiente difícil para os investidores, com obrigações e acções a afundarem ao mesmo tempo.

“Suspeito que o secular bull market de obrigações que começou em meados dos anos 80 esteja a terminar”, disse à Bloomberg Stephen Miller, que desde então tem acompanhado os títulos de rendimento fixo e que agora trabalha como consultor de investimento na GSFM, uma unidade da canadiense CI Financial Corp. “As yields não vão voltar aos mínimos históricos registados antes e durante a pandemia”, diz.

“Bull market” é uma expressão usada para denominar momentos de extremo otimismo no mercado financeiro e valorização dos títulos.

A BA&N Unit Research, com base no índice da Bloomberg, refere que apesar de estar a ganhar força a perspetiva de que a economia global enfrenta uma recessão, os investidores temem que os bancos centrais vão continuar a subir os juros mesmo num cenário de contração económica.

A queda simultânea das obrigações e das ações estão a minar um dos pilares das estratégias de investimento das gestoras de ativos dos últimos 40 anos ou mais. O indicador de títulos da Bloomberg caiu 16% em 2022, enquanto o índice de ações globais da MSCI Inc. caiu 19%.

Os operadores do mercado de swaps estimam que há quase 70% de probabilidades de a Fed fazer o terceiro aumento consecutivo dos juros de 75 pontos de base quando se reunir no final deste mês.

As quedas têm sido mais agressivas nas obrigações europeias (-25%), embora a tendência negativa seja generalizada, com quedas de dois dígitos também nas obrigações americanas e asiáticas, segundo a BA&N Unit Research, que adianta ainda que a yield dos títulos dos EUA persiste em máximos de 15 anos, enquanto a taxa de juro das obrigações alemãs atingiu o nível mais alto em 10 anos.

O “sell off” nas obrigações pode acentuar-se se for anunciado hoje que o mercado de trabalho nos EUA permanece robusto, refere a análise da BA&N que lembra que os economistas estimam que tenham sido criados perto de 300 mil empregos em agosto, o que dará força para a Fed prosseguir com subidas significativas de juros.

Antes da reunião deste mês ainda será publicada a inflação de agosto, mas os economistas têm poucas dúvidas de que os sinais de resiliência da economia dão espaço para a Fed continuar com uma política monetária agressiva, refere a BA&N Unit Research.

A Bloomberg avança ainda que, apesar de tudo, os investidores em títulos de rendimento fixo (obrigações) estão a mostrar uma grande procura de obrigações soberanas à medida que as yields sobem, ajudados por expectativas persistentes de que os decisores políticos terão de inverter o rumo da política monetária caso a desaceleração económica ajude a arrefecer a inflação.


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