Maria João Carioca, administradora da CGD, acumula uma carreira ligada às empresas — McKinsey, Unicre, SIBS, Euronext Lisboa — com uma grande proximidade à academia. Desde logo à Nova SBE onde estudou Economia, mas também à Porto Business School e à Universidade de Aveiro, cujo Conselho de Curadores integra. Aos 25 anos fez o MBA no INSEAD, o mesmo que o “Financial Times” elege este ano como o melhor da Europa. Nos últimos oito frequentou várias formações especializadas, três delas em escolas de topo mundiais — Harvard Business School, MIT Sloan School of Management e Columbia Business School. E promete não ficar por aqui.
Num mundo veloz como este em que vivemos, em que tudo muda tão rapidamente, ainda compensa fazer um MBA, que além de levar muito tempo é bastante oneroso?
Acho que continua a fazer muito sentido. Não apenas para quem o faz, que entende o MBA como ‘aquele momento’ da mudança na carreira, mas também para as empresas que reconhecem que uma ferramenta desta natureza pode produzir profissionais habilitados a desempenhar outros ‘papéis’ dentro da ‘casa’. A maior dificuldade estará em perceber qual é o momento certo da carreira para o fazer, enquanto para as empresas será perceber quem são as pessoas a quem faz sentido dar esse tipo de apoio.
Quem são, no seu entender?
Muita da velocidade em que vivemos é imprimida pela tecnologia, mas se olharmos para as carreiras das pessoas com formação em tecnologia, para os tecnólogos, essas carreiras são complicadas de gerir. Uma pessoa que seja excelente na área da tecnologia vai progredindo na organização ou empresa onde trabalha, que a vai reconhecendo dando-lhe novas responsabilidades, justamente porque ela é excelente. Acaba, assim, muitas vezes, por evoluir para posições de gestão e, de repente, quase sem se dar por isso, já está a gerir uma grande equipa, um orçamento, a comunicar com o conselho de administração, com os acionistas. No fundo, está a desempenhar funções de gestão sem nunca ter tido verdadeiramente formação em gestão. Como gestor, tendo noção de que ‘as minhas pessoas de tecnologia’ são ativos extraordinários, tenho de ser capaz de articular essa realidade dentro da empresa.
Em que medida é que isso é exigente para uma empresa?
A empresa tem de estar atenta e perceber que nem todos os tecnólogos excelentes serão excelentes gestores. Há pessoas que a vida toda vão querer é saber qual é a última linguagem de programação, o último modelo de arquitetura de computação, mas aquelas que quiserem e eu, enquanto gestor considerar que podem dar esse salto, tenho de dizer ‘para estares preparado para ser CIO daqui a quatro ou cinco anos, então deves fazer isto’. Um CIO tem de ser capaz de ver a gestão de forma integrada, i.e., perceber de finanças, pessoas, marketing, estratégia – e tudo isso um MBA dá.
Um MBA é o ‘elixir’ para um gestor?
Diria que um MBA esgota um período que encaixa com uma necessidade num determinado momento, mas ao longo da vida de um gestor terá de ser articulado com outras formas de educação e formação. Não se faz um MBA e, de repente, fica-se douto e sapiente. Não! Temos uma vida inteira para aprender.
Recomendaria a experiência?
Sim. A minha leitura é que o MBA vale a pena, particularmente se for visto na altura certa da carreira, se for com uma empresa que tem uma perspetiva acerca da pessoa e se for visto por pessoas que têm efetivamente disponibilidade para, vindo de onde vierem, perceberem que uma carreira que culmina numa posição de gestão é uma carreira que precisa sempre de um suplemento alargado de capacidades.
Em que altura da vida fez o MBA?
Tinha 25 anos.
Considera que foi o momento certo?
Tinha dois anos de experiência profissional, após a licenciatura na Nova SBE. Comecei a minha carreira na McKinsey, uma consultora de Estratégia, fazia trabalho em muitas áreas funcionais diferentes com empresas muito diferentes. Para o que estava a fazer naquela altura, para aquele tipo de exigências, o programa fazia todo o sentido.
Como aconteceu?
A McKinsey promovia um programa para que as pessoas naquela etapa da carreira fizessem uma formação com as características de um MBA. Fui, portanto, incentivada a fazê-lo. Era muito jovem, é verdade, mas não me arrependi nada. Fiz ali uma base de formação muito abrangente, que tenho estado a complementar com outras mais específicas. Também acho que se tivesse começado a carreira noutro sítio, se tivesse tido outra experiência profissional, mais centrada numa única atividade, se calhar não faria tanto sentido ir fazer o programa para, ao voltar, continuar a trabalhar numa área muito específica.
Escolheu a escola?
Sim, fui eu. Olhei para o INSEAD e olhei para a Universidade de Columbia, mas venceu Fontainebleau. Na altura, o professor António Borges estava no INSEAD, tinha sido meu professor na Nova, era uma figura que me inspirava e me dava uma nota de confiança de que aquela era uma escola muito boa. Olhando para trás, tenho algum afeto na forma como tomei a decisão.
O MBA é tão absorvente como o descrevem?
De facto, é muito absorvente, mesmo para quem vinha de uma formação em Economia como eu. Tenho a noção, e já o disse várias vezes ao longo dos anos, na Nova SBE e em outras instâncias, que houve coisas que eu aprendi na Nova mas só percebi no INSEAD.
O que quer dizer com isso?
Há ferramentas que nos são dadas numa licenciatura que num contexto de gestão mais alargado como um MBA fazem muito mais sentido, coisas tão básicas como análise estatística ou contabilidade. O leque de assuntos é muito alargado, as cargas são fortíssimas, está-se a aprender muita coisa em muito pouco tempo e, efetivamente, a experiência é desafiante. Trabalhamos com pessoas de culturas e backgrounds muito diferentes e em problemas muito distintos daqueles com que lidávamos no dia a dia e isso exige. A adaptação a um novo modus operandi exige da pessoa.
Que pessoas conheceu no INSEAD?
O nosso primeiro grupo é inesquecível. Tinha um engenheiro agrónomo belga, um piloto de caças israelita, um inglês que estivera os últimos cinco anos a fazer trabalho humanitário na Somália, que, na altura, vinha de uma crise de fome horrível, e eu, uma portuguesa que trabalhava numa consultora, e que, porventura, se achava a mais aborrecida de todo o grupo… Esta hiper diversificação consumia-nos horas. Imagine um grupo assim a discutir análise financeira… era um nunca mais acabar!
O que melhor trouxe de lá?
Um exercício de gestão.
Um exercício…?
Um exercício de gestão cuja resposta já sabia, pois tinha feito parte de um treino na MCKinsey. Qualquer coisa como imaginar que se sobrevive a um desastre aéreo e se podem escolher destroços do avião para tentar sobreviver. Naturalmente, o grupo foi atrás do piloto, que escolhia tudo ao contrário daquilo que me tinham ensinado. E eu calada, de alguma forma a fazer batota… Conclusão? Errámos o exercício. No fim, o piloto explicou as suas escolhas e nós percebemos, finalmente, o que se passara. O facto de ele não ter explicado o contexto e de nós, no meio de tão aceso debate, não termos sabido perguntar, deformou completamente a decisão do grupo. Isso não se ensina em nenhuma sala de aula. Passou-se em 1996 e foi provavelmente a melhor aula que eu tive no INSEAD e em todos os cursos que fiz.
Afinal, o que aprendeu com a história?
Aprendi que quando a solução nos parece muito estranha é porque alguém está a pensar com outro pressuposto. Nós pensamos muitas vezes com pressupostos que não comunicamos aos outros. Se a pessoa não conseguir fazer a pergunta que revela o pressuposto bem pode estar três dias à volta do assunto a martelar, de trás para a frente e da esquerda para a direita, que vai sempre chegar à solução errada. Não se trata só de ouvir, temos de perceber qual é a pergunta certa que temos de fazer. Isso é intensidade, é o esforço que um MBA exige, é aquilo em que o MBA consegue ser marcante em relação a tudo o resto.
Nas suas decisões na CGD, o maior banco português, já ‘regressou’ alguma vez àquela sala de aula em Fontainebleau?
Não tenho nenhuma dúvida acerca do valor que a formação que tive naquela altura com aquela extensão, naquela escola, naquele contexto teve para mim, porque passados estes anos todos, volto lá. Sim, volto lá muitas vezes.
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