Com vários setores da sociedade grega (e também europeia) a considerarem “uma sentença histórica” o facto de um tribunal grego ter declarado como uma organização criminosa o Aurora Dourada, um partido que em 2015 se tornou a terceira força política do país, há também quem tenha sérias dúvidas sobre aquilo que evidente para todos: as organizações de extrema-direita europeias irão por certo avançar com uma campanha em que se queixarão de perseguição anti-democrática.
A Justiça grega pretendeu esta quarta-feira enterrar definitivamente a história do Aurora Dourada (AD), uma formação assumidamente neonazi e ultranacionalista que em 2012 conseguiu capitalizar os estragos da profunda crise económica do país – de que a Troyka haveria de ser responsabilizada – ao conseguir entrar no parlamento grego com 21 deputados (para um total de 300).
As movimentações da extrema-direita grega não eram nem uma novidade nem um caso único na União Europeia – e as propostas extremistas acabaram por avançar em quase todos os palcos políticos nacionais, com a exceção de Portugal. Essa exceção, que alguns analistas explicavam das formas mais extravagantes e inesperadas, acabou nas últimas eleições para o parlamento.
O julgamento da Aurora Dourada – que voltou a surge em 2007 depois de ter desaparecido em 2005 e é acusada da prática de crimes que servirão para financiar as suas atividades – depois do assassinato do rapper antifascista Pavlos Fyssas, em setembro de 2013. O Tribunal de Apelações de Atenas considerou provado que o líder da formação, Nikos Mijaloliakos, dirige uma organização criminosa. Por outro lado, Yorgos Rupakiás, o autor material do assassinato, enfrenta uma possível sentença de prisão perpétua. Outras 18 pessoas, na sua maioria ex-deputados, foram consideradas culpadas de pertencerem à organização.
Como era de esperar, logo que a sentença foi conhecida, a polícia viu-se obrigada a prevenir possíveis confrontos entre manifestantes pró e contra o Aurora Dourada. Segundo as agências noticiosas, a sentença foi recebida com gritos e aplausos pelas mais de 15 mil pessoas que se foram juntando nas imediações do tribunal desde o início da manhã, mas havia também o registo da presença de membros do Aurora Dourada nas imediações.
De qualquer modo, o que preocupa as autoridades europeias – e a Comissão nunca escondeu que está preocupada com o crescimento da importância da extrema-direita – é que as formações de algum modo semelhantes à Aurora Dourada podem agora montar uma campanha de vitimização que, no limite, pode com alguma facilidade contribuir para o crescimento do número de apoiantes europeus.
Em Portugal, e no mesmo dia em que a sentença era conhecida, um editorialista do Chega, Luiz Cabral de Moncada, escrevia que “Está em curso uma ofensiva contra o Chega, como era de esperar e vai agravar-se. Mas a ofensiva falha o alvo. O objetivo é demonstrar que o Chega se filia na extrema direita europeia, desde França e Itália até à Hungria e à Dinamarca ou seja, que partilha de um certo número de objetivos de um movimento à escala europeia (…). (…) Seja como for e pelo que ao Chega diz respeito, nada de mais falso. (…) O Chega é um partido completamente integrado na vida democrática portuguesa, comungando dos valores que a alimentam e fiel à democracia representativa e às instituições vigentes”.
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