“A independência de Taiwan é uma realidade, é um facto”, disse Chang Tsu-che durante uma entrevista no Centro Económico e Cultural de Taipé, o nome oficial do escritório de representação da ilha. E acrescentou que a questão só é debatida por interesse do regime de Pequim. Chang atribuiu a “questão de Taiwan” – que disse não ser uma questão – a fatores históricos relacionados com a China e a Guerra Fria. Considerou, no entanto, que o status quo deve ser mantido, tal como disse ser a vontade de 86% dos 24 milhões de habitantes de Taiwan manifestada numa sondagem realizada em outubro deste ano.
“Manter o status quo significa manter a paz entre os dois lados do estreito, os taiwaneses não querem a guerra”, disse. “Espero que não aconteça uma guerra, mas estamos preparados há 70 anos, porque a China Popular já nos ameaçou várias vezes”, afirmou.
A República Popular da China considera Taiwan uma questão interna, em que nenhum país deve interferir, mas o representante de Taipé em Lisboa defende o contrário e traça um paralelismo com a Ucrânia. “É como a guerra na Ucrânia: a Rússia quer expandir o seu território, mas para os ucranianos trata-se de defender a sua liberdade, manter a sua soberania e a sua democracia. Nós temos a mesma determinação que o povo da Ucrânia”, disse Chang Tsu-che.
Chang referiu em particular a crise de 1996, quando os taiwaneses elegeram o primeiro Presidente da República, considerando que quanto mais Taiwan desenvolve a sua democracia “mais a China Popular fica desconfortável”.
Mais recentemente, em agosto, a tensão voltou ao Estreito de Taiwan com a visita a Taipé da então presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, que enfureceu Pequim.
A China, que considera Taiwan como uma província rebelde, efetuou então manobras militares sem precedentes à volta da ilha, provocando a condenação do Ocidente. “Muitos jornalistas estrangeiros foram a Taiwan em agosto e viram que o nosso povo continuava a trabalhar normalmente. Não é que não tivéssemos dado importância à crise, mas estamos preparados, são muitos anos de preparação”, disse Chang.
Taiwan é atualmente um dos maiores produtores de microprocessadores do mundo e a RPC um dos maiores fabricantes mundiais de outros bens, pelo que as consequências de uma guerra seriam globais.
Taiwan situa-se a meros 180 km a leste da China continental, com o Japão a norte e as Filipinas a sul. Foi cedida pela dinastia Qing (1644-1911, originária da Manchúria) ao Japão em 1895, após a derrota chinesa na guerra pelo controlo da Coreia. O domínio dos Qing terminou com a fundação da República da China, em 1 de janeiro de 1912, por Sun Yat-sen (1866-1925).
Taiwan voltou à soberania chinesa em 1945, com a rendição japonesa no fim da Segunda Guerra Mundial. “O Japão entregou Taiwan ao representante da República da China”, disse Chang Tsu-che, reforçando a ideia de que o regime atual de Pequim ainda não existia. A República da China é um dos países fundadores da ONU, em 1945, quando o Kuomintang (Partido Nacionalista), de Chiang Kai-shek, estava no poder. Quatro anos mais tarde, os nacionalistas foram derrotados pelo Partido Comunista Chinês (PCC), refugiando-se em Taiwan.
O líder do PCC, Mao Tsé-tung (1893-1976), proclamou a República Popular da China (RPC) em 1 de outubro de 1949, enquanto o Kuomintang, em Taiwan, reclamava ser o governo legítimo da China.
Em 1971, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 2578, reconhecendo os dirigentes da China como “os únicos representantes legítimos da China nas Nações Unidas”, incluindo no Conselho de Segurança.
“Decide restaurar todos os seus direitos à República Popular da China (…) e expulsar imediatamente os representantes de Chiang Kai-shek do lugar que ocupam ilegalmente nas Nações Unidas e em todas as organizações relacionadas com elas”, lê-se na resolução.
Chang Tsu-che desafiou o Governo português a abrir um escritório de representação em Taipé para fomentar o turismo e os negócios. “É hora de criar um escritório em Taipé para podermos avançar mais no intercâmbio entre os nossos povos”, disse Chang Tsu-che
“Pensar-se que a República da China não existe desde 1971, é um erro, porque não está em conformidade com os factos históricos”, defendeu Chang, atribuindo essa ideia à política “uma só China” da república popular. A tese tem mais adversários que adeptos.
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