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Pedro Sánchez lidera um governo sitiado num campo de minas

A governabilidade está longe de estar assegurada, depois da moção de censura construtiva. Mas, com as dificuldades no quadro europeu, a Comissão e o Eurogrupo não querem mais dores de cabeça.
23 Junho 2018, 17h00

A crise na Catalunha, a gestão de um Orçamento de Estado que não é o seu; o apoio de um partido (o Ciudadanos) que quer ir para eleições antecipadas; e de outro (o Podemos) que considera ser uma espécie de traição no seu próprio terreno político; o antigo partido do poder (o PP) que assegura ir ter uma oposição agressiva; e finalmente, nas ruas, a multiplicação de manifestações que apelam à marcação de eleições.

É este o cenário político imediato que espera o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), mentor, autor e gestor da moção de censura construtiva (com uma alternativa imediata se o governo for derrubado, figura institucional que não existe em quase lado nenhum) que derrubou o governo anterior, liderado por Mariano Rajoy – que entretanto decidiu deixar a vida política ativa.

Pedro Sánchez, secretário-geral do PSOE e novo chefe do governo espanhol, terá por isso que encontrar equilíbrios constantes para manter o seu executivo num nível mínimo de governabilidade. Mas, antes de enveredar por esse caminho, que se adivinha sinuoso e cheio de armadilhas (esperadas e inesperadas), Pedro Sánchez teve que se preocupar com a sua própria casa.

A frente caseira

Nesse particular, as coisas parece terem-lhe corrido bem: conseguiu formar um governo que é uma mescla entre os históricos do socialismo – onde avulta a figura de Josep Borrell, ex-ministro, ex-presidente do Parlamento Europeu, o que pode ser uma ajuda preciosa na frente externa e ‘last but not least’, catalão – e as mais jovens promessas Nadia Calviño (que aceitou deixar a Comissão Europeia, onde era diretora) e Isabel Celaá (há muito ligada à área da Educação e que por acaso é basca), entre outras.

Para mais é um executivo totalmente desequilibrado em termos de género, mas ao contrário: quatro homens (incluindo o próprio Sánchez) para 10 mulheres, o que dá sempre um ar moderno e convida à suspensão do abespinhamento, por muito que isso possa irritar os defensores da igualdade.

Agora, segue-se o mais difícil: o campo minado que Pedro Sánchez tem à sua frente, a começar pela questão catalã. Nessa frente, nada de novo ou de substancialmente pode esperar-se, como afirma ao Jornal Económico o politólogo António Costa Pinto: “a Constituição de Sánchez e a mesma que era a de Rajoy”, pelo que o PSOE (cujas posições em relação à independência da Catalunha não foram sempre as mesmas) pouco pode fazer.

E não fará: vai manter as contas públicas catalãs sob a alçada do seu executivo – o que quer dizer que o artigo 155 se manterá no ativo, mas mais ‘desapertado’ – e, apesar do apoio dos independentistas à moção de censura, não negociou qualquer tipo de acordo, assegurou Pedro Sánchez.

Quanto ao País Basco – região que tem no PSOE (‘autor’ dos GAL, Grupos Antiterroristas de Libertação, criado para matar elementos ativos da ETA Militar) um inimigo de estimação – “é uma questão de orçamento”, sublinha Costa Pinto, para afirmar que essa é a parte mais fácil.

Quanto ao apoio da direita e da esquerda, uma quadratura difícil, Sánchez só tem, na ótica de Costa Pinto, uma saída: se as coisas correrem mal e o país avançar para eleições antecipadas, o chefe do executivo terá de provar ao eleitorado que a culpa está num dos lado (ou dos dois, se for caso disso) – no que constitui o único travão a que a situação política evolua rapidamente para esse desfecho.

Para já, Pedro Sánchez escuda-se no que é, apesar de tudo, o mais fácil: na frente económica. Como recorda António Costa Pinto, as semelhanças das opções económicas do PSOE são bem mais numerosas que as diferenças quando comparadas com a agenda do PP, o que pode servir para uma transição sem sobressaltos de maior, se, diz ainda, o discurso envolvente tiver mais atenção, como possivelmente terá, às questões sociais e de igualdade de oportunidades.

A frente externa

Até porque, nessa frente, as coisas estão a correr razoavelmente bem: a economia cresceu 2,9% no primeiro trimestre; a criação líquida de emprego está a bom nível (apesar de a taxa de desemprego ser ainda o dobro da portuguesa); a dívida voltou a descer da barreira psicológica dos 100% do PIB; e só o défice dá mostras de ser de alguma teimosia. Por outro lado, a banca (que contou com uma ajuda da ‘troika’ exclusiva para o sistema) já recuperou dos piores dias da crise e as exportações (apesar de crescerem abaixo do seu concorrente ibérico) estão a reaquecer.

Ora, este cenário é tudo o que a Comissão Europeia e Mário Centeno, presidente do Eurogrupo, não querem ver estragado. Numa altura em que o Brexit está ‘por dias’, a fronteira leste da União Europeia está a encher-se de eurocéticos e ninguém sabe como acabará, se bem se mal, a aventura italiana, a União Europeia não precisa de outra dor de cabeça – como com certeza teria se o país marcasse eleições antecipadas, o que previsivelmente faria com que facilmente se repetisse a enorme dificuldade de formação de um governo estável (como aconteceu durante a maior parte do ano de má memória de 2016).

Ou, dito de outra forma, Comissão Europeia, Eurogrupo e BCE tudo farão para transferir governabilidade ao governo de Pedro Sánchez. Resta saber-se se as forças internas estão alinhadas com isso, ou se as idiossincrasias que as colocam em posições de antagonismo acabarão por ser preponderantes.


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