A Lukka é uma empresa norte-americana que desenvolve tecnologia para preparar as empresas para lidarem com criptomoedas. Avaliada em 1,3 mil milhões de dólares (quase 1,2 mil milhões de euros), a startup está a expandir-se por vários mercados mundiais. Em entrevista ao Jornal Económico, o presidente executivo Robert Materazzi analisa o atual momento das criptomoedas, as falências do sector e revela quais os planos do unicórnio.
Houve vários casos no passado recente que trouxeram muita polémica ao mundo das criptomoedas. Casos como o da FTX e do Sam Bankman Fried estão a trazer maior escrutínio a este sector?
Sim, penso que outros falhanços anteriores, como o da Terra Luna ou o Celsius, foram grandes e puseram um maior foco nas empresas que estão a fazer as coisas de forma responsável. E quando a FTX aconteceu foi numa escala muito grande. Estavam muito ligados a negócios diferentes e a forma como o negócio estava estruturado para investir em empresas numa grande escala, teve um impacto negativo nesses negócios. Todos gostavam que a escala disto tivesse sido menor, mas penso que é um caso importante porque a falha da FTX não teve nada a ver com as criptomoedas, deu-se o caso de ser uma empresa que atua na indústria das cripto. Penso que no início todos apontaram o dedo à indústria por ter maus atores, mas depois passados dois/três meses a quantidade de apoio da indústria e a tomada de consciência que isto não foi uma falha das criptomoedas, mas é uma fraude à moda antiga. É claro que há maus atores em qualquer indústria, e espero que estas lições beneficiem toda a indústria e vamos ver muitos negócios focados mais na transparência financeira e na gestão de risco do que antes, o que vai ajudar toda a indústria à medida que avançamos.
Isto não foi uma falha das criptomoedas, mas é uma fraude à moda antiga.
A Bitcoin sofreu uma grande queda no ano passado. Mas este ano está a recuperar (+50%). 2022 foi um ano complicado na Europa e EUA com a invasão russa da Ucrânia. Os investidores perderam a confiança nas criptomoedas. Como é que olham para este regresso?
Penso que é correto dizer que as pessoas que estão neste mundo há algum tempo não perderam a fé nas criptomoedas. Podem é ter aproveitado para comprar mais barato, foi o que eu fiz…
“Comprar quando há sangue nas ruas” [frase do barão de Rotschild]…
Certo, comprar em baixa, vender em alta, o básico. Penso que os novos investidores que entraram nas cripto no ano passado são os que perderam a confiança, mas não perderam totalmente. Penso que estão a tentar perceber como negociar melhor, mas ainda estão interessados. Porque ao olharem para os outros mercados, existe ainda mais incerteza do que nas cripto, penso que precisamos de mais momentum nos mercados de cripto, mas estão todos a observar e à espera que aconteça. Penso que quanto mais se separarem dos mercados tradicionais, vão ter mais rendimentos e isso vai restaurar a confiança. Estou otimista que vamos ver um maior impulso para o resto do ano nas criptomoedas. Vão haver altos e baixos, mas tenho a certeza que vão haver mais notícias negativas. Mas espero ver mais notícias positivas no mundo cripto.
Investidores não perderam totalmente a confiança nas criptomoedas
Como é que apresentaria a Lukka a quem não conhece a empresa?
Somos uma empresa que existe para resolver alguns desafios relacionados com dados e as criptomoedas e ativos digitais. Existem características únicas na data subjacente e em como os negócios precisam de novos tipos de dados, de novos tipos de infraestruturas, e tem muitas características diferentes que requerem novas metodologias, como para contabilidade, por exemplo.
É diferente da forma tradicional como se fazem as coisas. Trabalhamos com qualquer empresa que interaja com ativos cripto, algumas das maiores do mundo, como a State Street, BNY Mellon, S&P. Trabalhamos com instituições tradicionais, mas também com nativos cripto dependendo de onde estão com a sua estratégia cripto.
Se adotaram as criptomoedas no seu marketplace, faz sentido serem clientes. A nossa gestão de dados faz o backoffice semelhante a qualquer software de gestão financeira, com a diferença que outras soluções não trabalham com dados cripto. Assim, trabalhamos com os dados cripto e depois alimentamos os sistemas já existentes, não competindo com eles, mas permitindo que tecnologia tradicional continue a aceitar dados cripto. Temos uma grande base de produtos para os dados e tivemos de os criar para fazer o nosso software funcionar e então tornou-se num produto independente. Começámos como uma empresa de software em 2020, quando me tornei CEO, foi quando nos posicionamos como uma empresas de dados e gestão de dados.
Estão sediados na Florida, mas têm clientes globais…
A nossa sede fica na Florida, mas é um pequeno escritório para efeitos fiscais. A nossa maior presença é em Nova Iorque, mas temos pessoas em seis ou sete países. Temos clientes em quase 20 países e temos um escritório na Suíça e em Singapura. Acabamos de receber a nossa licença para fazer negócio no Dubai. Ainda não temos pessoas lá, mas vamos ter em breve. E estamos a vender remotamente em África, principalmente na África do Sul. E também na América do Sul: México, Colômbia e o Brasil onde estamos a arrancar agora.
Já esteve em Portugal?
Estive aí numa viagem exploratória no último outono para ver como estão as coisas e há muita coisa a acontecer: muitos pequenos negócios que estão a lidar com diferentes aprovações regulatórias. Estamos muito otimistas que em breve vamos ter clientes em Portugal. Temos muitas conversas ativas. E estamos de olho no mercado porque parece que tudo vai acontecer muito depressa. O Bison Bank, por exemplo.
Estamos muito otimistas que em breve vamos ter clientes em Portugal
Qual o tipo de cliente que procuram?
Não precisamos de clientes que apenas precisam dos nossos produtos, mas tem de estar num ciclo avançado de adoção de criptomoedas. Por exemplo, um grande banco como o State Street, que tenha um plano para lançar um serviço de cripto, mas que ainda não a receita ainda não esteja em alta, então não vão avançar muito rapidamente, vão avançar lentamente. Vão analisar vários fornecedores e avançam quando estiverem prontos. No espaço tradicional, este tipo de banco apoia 10 mil fundos, mas no espaço cripto ainda estão a arrancar. Fechamos negócios e estamos assim a apoiar potencialmente 10 mil fundos globais no espaço tradicional, certo? É um grande negócio. E nós apoiamos o negócio cripto, talvez comecem com 10/20 fundos e temos de ajudar estes. Consideramos os nossos clientes como parceiros porque temos habitualmente de apoiar os seus processos de venda nas fases iniciais, o que ajuda com a adoção geral de criptomoedas. É uma situação única, penso que não acontece muito, isto é, temos tanta tecnologia a ser aplicada em muitos negócios ao mesmo tempo. É uma dinâmica que acontece uma vez em cada 100 anos.
Vocês vendem mais a empresas financeiras?
Essas empresas foram as iniciais porque foram as que adotaram primeiro as cripto, mas agora estamos a ter outras, como empresas de retalho, de media, empresas de dados, brokerage. No lado financeiro, devido ao efeito FTX as pessoas estão um pouco mais nervosas com o trading direto, portanto, eu diria que as pessoas estão a regressar aos seus gestores de ativos e de fortunas em quem confiam. Porque agora começam a estar familiarizados com as critptomoedas, porque há um ano e meio falávamos com um gestor de ativos sobre cripto e riam-se na nossa cara, porque não tinham ideia de como gerir. Mas agora muitos contrataram pessoas da indústria das criptomoedas como a Franklin Templeton Investments que está a fazer coisas incríveis.
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