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França: Emmanuel Macron pronto a gerir cenário de guerra “sem tabus”

O governo francês coloca a hipótese de decretar o estado de emergência, num quadro em que mais 875 pessoas foram detidas só na noite passada. Amanhã, sábado, será um dia especialmente tenso, com o funeral de Nahel M.
30 Junho 2023, 14h02

Ao cabo de três noites de fortes distúrbios nas ruas de Paris, o chefe de Estado, Emmanuel Macron, interrompeu a sua participação numa cimeira da União Europeia para presidir a uma reunião de crise. Na sequência dessa reunião, adianta a comunicação social francesa, o governo está preparado para gerir a situação “sem tabus” – o que parece pretender dizer que o Estado vai impor o fim dos distúrbios com o recurso à força.

Elisabeth Borne, a primeira-ministra, disse que “todas as hipóteses estão a ser estudadas” – apontando para que a ‘paciência’ para com os manifestantes esgotou-se e a palavra de ordem é o regresso à normalidade. As declarações da chefe do governo indicam que uma das hipóteses em cima da mesa é a declaração de estado de emergência – o que poderia levar à convocação do exército para ocupar as ruas.

Mas essa normalidade está muito longe: só na noite passada, mais de 870 pessoas foram detidas, num contexto marcado por confrontos, saques e danos em Ile-de-France e em muitas outras regiões, especialmente nos arredores de Lyon e de Bordéus. Daquele total, 408 pessoas foram detidas em Paris e nos seus subúrbios. No total, 492 edifícios sofreram danificados, dois mil veículos foram queimados e 3.880 incêndios em vias públicas foram registados ontem à noite, segundo dados da Presidência da República.

Um dos sistemas que vão ser adotados são mecanismos de impedimento de ajuntamentos. Uma das decisões já tomadas será a supressão dos transportes públicos nas áreas mais afetadas. A partir do final do dia de hoje, localidades como a Ile-de-France, Lyon e Marselha deixarão de assegurar serviços públicos de transporte.

Por outro lado, várias celebrações de fim de ano escolar que estavam previstas nas escolas de Ile-de-France para a noite desta sexta-feira estão a ser canceladas: as reitorias das academias de Versalhes, Paris e Créteil pediram aos diretores das escolas que adiassem ou cancelassem as festividades planeadas, “por causa dos eventos atuais” e “dado o risco de excessos e/ou tumultos”, de acordo com mensagens recebidas por pais de alunos citadas pelos jornais franceses.

Em Toulouse, como noutras regiões, a autoridade autárquica decidiu proibir esta noite de sexta-feira uma manifestação planeada para a Praça do Capitólio por volta das 20h, que seria “provavelmente seguido por uma errância anárquica. Durante manifestações semelhantes anteriores, elementos radicais não declarados queriam chegar ao centro da cidade, mas foram impedidos pela polícia”, diz a autarquia, citada pelos jornais.

A palavra de ordem é, por isso, retirar as pessoas das ruas e impedir ajuntamentos que possam engrossar uma manifestação maios, que volte a colocar a ordem pública em Causa.

Entretanto, o problema é de tal ordem que começa a haver reações da parte de outros países. A Alemanha foi um dos que já reagiu. Berlim está a observar “com alguma preocupação o que está a acontecer em França”, disse o porta-voz do governo alemão, Steffen Hebestreit, esta sexta-feira. Hebestreit disse não ter para já indicação de cancelamento da visita de Estado de Emmanuel Macron à Alemanha, marcada para começar na noite de domingo e acabar na terça-feira.

A Noruega pediu esta sexta-feira aos seus cidadãos atualmente em França que evitem aglomerações. “Houve distúrbios nos últimos dias em vários lugares da França, incluindo Paris”, escreveu o Ministério das Relações Exteriores norueguês numa mensagem de texto enviada aos viajantes noruegueses que se registaram como tendo viajado para o país. “Os viajantes noruegueses são aconselhados a tomar todas as precauções necessárias, bem como a ficar longe de grandes multidões e manifestações”, dizia o texto.

A ONU pediu a França, também esta sexta-feira, que aborde com seriadade os “profundos problemas de racismo e discriminação racial entre as agências francesas de aplicação da lei”, disse Ravina Shamdasani, porta-voz do Gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Amanhã, sábado, será um dia especialmente difícil: Patrick Jarry, presidente da Câmara de Nanterre, fez uma breve declaração à imprensa no final do conselho interministerial das cidades, presidido esta manhã em Matignon pela primeira-ministra Elisabeth Borne explicando a “urgência de encontrar as palavras para sair da violência, do ciclo de violência”. E confirmou a realização do funeral de Nahel M. este sábado: “Vim ao comité para levar ao mais alto nível do Estado a palavra e os sentimentos dos moradores da minha cidade. Dizer que a emoção e a raiva sentidas pela morte de Nahel ainda é muito forte e que é partilhada por toda uma população em toda a sua diversidade. Dizer também que devemos continuar a apoiar a família, essa mãe, que amanhã vai enterrar o seu filho e, ao mesmo tempo, expressar a tristeza, a desolação sentida pelos moradores diante da violência e da degradação e, obviamente, a urgência que há de encontrar as palavras para sair da violência”, disse.


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