Há muito visto como um bastião de estabilidade e influência ocidental na região do Sahel, o Níger encontra-se num turbulento pós-golpe de Estado que ameaça agravar a insegurança numa região do globo onde as preocupações de segurança são grandes. França e Itália retiraram já a maioria dos cidadãos europeus do país, incluindo um português, mas o futuro político do Níger permanece incerto. Aliados comerciais europeus, como a Nigéria, podem sofrer com desestabilização regional.
O Níger acordou na quinta-feira passada com uma declaração de apoio aos golpistas por parte do exército do país, solidificando o sucesso do golpe e o fim do mandato de Mohamed Bazoum, presidente do país. Uma semana volvida, a situação permanece tensa e incerta, com uma delegação da organização económica da África Ocidental, a CEDEAO, a caminho do país.
O objetivo será assegurar uma solução diplomática para a crise em que o Níger caiu, com a CEDEAO a manter em aberto uma intervenção militar, ainda que como último recurso. A organização tem encontrado pouco sucesso na tentativa de lidar com os vários golpes de Estado na região, com o Mali, o Burkina Faso e a Guiné a caírem recentemente na gestão de juntas militares.
Em reação à iniciativa da CEDEAO, os líderes militares destes três países afirmaram que qualquer intervenção militar no Níger seria interpretada como uma declaração de guerra aos seus governos, sublinhando a complexidade da situação.
Após a transição democrática em 2021, o Níger tinha vindo a afirmar-se como um dos mais importantes parceiros europeus no ocidente africano, onde as facções insurgentes com ligações ao ISIS e ao Boko Haram têm proliferado. Agora, o golpe de Estado levado a cabo pelos militares do país ilustra bem a luta entre a influência euroamericana e russa na região, consideram vários analistas, sobretudo depois de terem sido vistas bandeiras da Federação Russa nas manifestações de apoio aos golpistas.
Com uma capacidade de influência limitada, como se tem visto em golpes de Estado recentes na região, a CEDEAO enfrenta agora um difícil teste com a situação nigerina. Por outro lado, com a remoção de um dos líderes mais pró-Ocidente do Sahel, Mohamed Bazoum, a Europa terá de gerir a situação com cuidado.
Caso opte por isolar o Níger, a Europa arrisca-se a ver a junta militar virar-se para a Rússia em busca de apoio, incluindo através de grupos privados como a Wagner (que ainda recentemente avisou os seus membros, através do seu líder, Yevgeny Prigozhin, para se prepararem para missões em África), temem os analistas políticos. Com o fim das compras de bens energéticos à Rússia, o Níger foi um dos países, juntamente com a Argélia e Nigéria, vistos pelos líderes europeus como uma fonte alternativa.
Outra matéria-prima na qual a UE é altamente dependente do Níger é o urânio – o país é o segundo maior fornecedor europeu. Já após o golpe, a Agência Europeia de Energia Atómica veio tranquilizar o mercado, garantindo que um corte no fornecimento não constituiria riscos imediatos.
Sendo o segundo país mais pobre do mundo (atrás apenas da República Centro-Africana), o Níger tornou-se num ponto quente de passagem de refugiados africanos em viagem para a Europa, sobretudo após a queda de Muammar Kaddafi, o líder líbio de longa data. Enfrentados com esta realidade, os decisores europeus decidiram influenciar o governo local a desenhar legislação para travar o ímpeto migratório num país historicamente de passagem por caravanas de comerciantes que ligavam o Velho Continente e a África Subsaariana.
As novas leis limitaram fortemente a economia nigerina, levando a UE a tornar o país no maior recipiente de fundos do bloco europeu. Com o golpe de Estado da semana passada, estes fundos foram suspensos indefinidamente, aumentando a gravidade da situação humanitária a afetar o povo nigerino.
Por outro lado, os EUA, Alemanha, Itália e França têm missões militares no país, focadas sobretudo no treino de contrainsurgência e de contraterrorismo, como forma de limitar os avanços das forças radicais islamitas no norte do país. Apesar da tensão vivida no Níger, os países europeus garantem que não está planeada qualquer retirada de tropas e que a segurança dos militares no terreno está assegurada. A França tem atualmente cerca de 1.500 militares no Níger, incluindo elementos do 2º Regimento Pára-quedista da Legião Estrangeira (forças especiais).
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