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Kylian Mbappé é figura de proa da próxima geração de líderes

É um prodigioso com a bola nos pés. A sua ascensão meteórica nos relvados é inegável e o que conquistou em campo reflete-se fora dele. Mbappé foi o escolhido para a capa da icónica “Time”, que ilustra a nova geração de líderes.
epa07100189 France’s soccer player Kylian Mbappe (R) poses with children of the ‘Bondy Football Club’ byduring his first visit to the Leo Lagrange stadium in his childhood city, since France won the 2018 FIFA world cup, in Bondy, 93 northern Paris suburb district, France, 17 October 2018. EPA/Christophe Petit Tesson
4 Novembro 2018, 10h00

Para muitos franceses, Mbappé representa mais do que apenas um extraordinário jogador de futebol. Ele é um conto de fadas real, um afortunado cuja história começa nos banlieues (bairros) de imigrantes marginalizados, em Paris, onde prédios altos e decadentes tocam no céu cintilante da cidade. De facto, oito dos 23 jogadores franceses que participaram no Campeonato do Mundo eram, assim como Mbappé, filhos de imigrantes africanos de bairro sociais” – lê-se na icónica revista “Time”. Será por isto que a newsmagazine norte-americana escolheu o jovem atleta, de apenas 19 anos de idade e já campeão do mundo, para figurar na sua edição dedicada à nova geração de líderes que aí vêm?

A resposta não é óbvia, mas quem olha para este jovem atleta, filho de pai camaronês e mãe argelina, oriundo do subúrbio  parisiense de Bondy, considerado o melhor jovem jogador do Mundial da Rússia e considerado já uma certeza no desporto gaulês, lê no seu rosto Victoire (vitória, em língua francesa). É que este jovem, assim como muitos da sua geração, chegou ao topo da sua profissão em tão tenra idade contra todas as expetativas – e representa já a segunda transferência mais cara da história do futebol mundial (o Paris-Saint Germain pagou 180 milhões de euros ao Mónaco pelo seu passe).

Mbappé foi criado por imigrantes que, como explica a “Time”, viveram décadas de incerteza social e discriminação, sobretudo, por serem oriundos de países africanos, colonizados pelos franceses durante séculos, que viviam de mão dada com a precariedade nas suas residências – um problema universal.

Aquando da vitória do Campeonato do Mundo de Futebol pela seleção francesa frente à congénere Croácia, por 4-2, em Moscovo, tendo um dos golos sido apontado pelo jovem prodígio (o mais jovem a marcar numa final de um Mundial em 60 anos), Mbappé decidiu, ciente da sua origem e nova condição, doar o que ganhou naquela prova. Entregou mais de 430 mil euros a uma instituição de caridade, que ensina desporto a crianças doentes e deficientes. O atleta desabafara, então: “(Este dinheiro) não muda a minha vida, mas muda a deles”.

Não foi há muito tempo que Mbappé surgiu a dar cartas nos relvados franceses. Tinha 17 anos, apenas, quando apareceu e marcou pela primeira vez, representando a equipa principal do Mónaco – lançado pelo português Leonardo Jardim. Não demorou muito a chamar a atenção e, sendo ele um avançado com “faro a golo”, ainda hoje há quem afirme que Kylian lembra dois fenómenos de outros tempos: o brasileiro Ronaldo e o conterrâneo Thierry Henry. E se contarmos que este atleta apenas saiu da sua natal Bondy, em 2013, com apenas 15 anos, para o principado do Mónaco, constata-se que, apenas, cinco anos separaram Mbappé dos subúrbios de Paris ao topo do futebol.

A ascensão do atleta foi meteórica. Dentro de campo é já uma referência e, fora dele, demonstra a sua vontade de manter os pés assentes na terra. Discreto, afirmou-se à “Time” consciente do peso da sua fama, mas também certo do que quer para a vida: “A minha mãe sempre me disse que para me tornar num grande jogador de futebol, teria de ser sobretudo um grande homem”. A noção de que tudo o que conquistou em tão pouco tempo pode desaparecer levou-o também a revelar a sua inspiração para uma vida responsável, apesar de todo o tipo de portas que o futebol abre: “Aprendi que as maiores estrelas e os melhores jogadores são os mais humildes, os que mais respeitam as pessoas”.

O curto percurso de vida desportivo faz de Kylian Mbappé um líder? Sim, sobretudo, quando afirma a sua vontade de manter a lucidez e respeitar o que diz serem três critérios elementares na sua vida: “respeito, humildade e lucidez”. Virtudes que são, hoje, testadas todos os dias, principalmente, quando o jogador vale 150 milhões de euros, com apenas 19 anos de idade. Alguns perguntam se a repentina fama o poderá desequilibrar. É possível, ainda para mais, quando o próprio afirma que teve pouco tempo para crescer. Hoje ele é o menino “no mundo dos adultos” e, por isso, vê-se obrigado a comportar-se como um. O garante dessa postura é, segundo o próprio, a família. Mbappé mantém-se ligado a Bondy e não descura dos pais – a receita para lidar com a fama e a pressão profissional e social que o futebol proporciona.


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