Praias, serras, montanha, sol e uma gastronomia de deixar água na boca. Assim é Portugal. Um destino apetecível que, na última década, viu a entrada de turistas crescer, passando a estar “na boca do mundo”. E nem a pandemia de Covid-19 abalou a sua reputação. Que o digam os anos seguintes. E nos próximos 10 anos, o que poderemos esperar em termos de turismo?
Recuemos ao ano em que o Jornal Económico nasceu: 2016. O ano em que a Web Summit marcava, pela primeira vez, presença em Portugal. E foi, em parte, com este evento que Portugal catapultou para o mundo como um destino fantástico para férias: segurança, sol, boa comida, mar, rios e campo. Em 2016, foram cerca de 18 milhões de turistas que visitaram o país. Era o início da rampa de crescimento do número de visitantes, que atingiu os 24,6 milhões de turistas em 2019, antes da descida abrupta que o vírus SARS-CoV-2 viria a provocar. À crescente procura de sítios onde pernoitar, Portugal soube dar resposta, criando cada vez mais alojamentos turísticos: em 2016, eram apenas 4805 estabelecimentos, ao passo que em 2019 eram já 6833. Portugal ia sendo destacado com prémios de melhor destino turístico para golf, mas em 2017, chegou o World Travel Awards, como Melhor Destino Turístico do Mundo e Melhor Destino Turístico Europeu. Desde aí e até 2019, Portugal recebeu consecutivamente o prémio de Melhor Destino Turístico Europeu — um cartão de visita para quem desconhecia Portugal.
Se de 2016 a 2019 o número de turistas em Portugal não parava de aumentar, em 2020, tudo mudou. O mundo foi assolado pela pandemia de Covid-19. E as portas de Portugal fecharam-se ao turismo. A queda foi avassaladora: dos 24,6 milhões de turistas em 2019, passou-se para 6,5 milhões, em 2020. E as consequências económicas fizeram-se sentir: em termos nominais, o PIB nacional registou uma diminuição de 6,7%, refletindo o efeito negativo da pandemia.
Ainda que a epidemia do século se tenha prolongado por quase 2 anos (entre confinamentos e desconfinamentos), em 2021, o turismo português dava já sinais de recuperação. Foram cerca de 9,6 milhões de turistas a visitar Portugal, que, em 2022, passaram para os 22,3 milhões. O número continuou e, espera-se que, continue a subir. No ano passado (2025), os estabelecimentos de alojamento turístico registaram 32,5 milhões de hóspedes e 82,1 milhões de dormidas, segundo dados da Travel BI by Turismo de Portugal.
Hoje, Portugal não tenciona apenas receber mais turistas, mas receber melhor, focando-se no valor acrescentado e na sustentabilidade. E os alojamentos turísticos que têm aparecido são prova disso: são vários os hotéis de 5 estrelas que têm aberto portas, muitos deles através da reabilitação de edifícios históricos, como palacetes. Também os boutique hotels, unidades mais pequenas e personalizadas, têm vindo a ganhar terreno, assim como turismo de habitação e no espaço rural, sobretudo no Alentejo e Douro, em que a privacidade e o contacto com a natureza são vendidos como o novo luxo. De acordo com dados da Pordata, esta última tipologia só começou a aparecer em 2013 (832 alojamentos), subindo gradualmente o número ao longo dos anos (em 2024, eram já 1987).
Mas o segmento premium no turismo em Portugal não se fica apenas pelo tipo de alojamento. O país consolidou-se como um destino gastronómico de elite, com vários restaurantes com distinção Michelin ou a fazer bandeira do enoturismo, nas quintas do Douro e nas herdades do Alentejo.
Este novo posicionamento de Portugal para o mundo deve-se, também, em parte aos World Travel Awards recebidos, que colocam o país na senda do turismo mundial, permitindo-lhe crescer em valor e não apenas em volume de visitantes.
Visão para 2036
A forma como fazemos turismo parece estar a alterar-se. Quer-se algo mais personalizado, com menos gente, feito em família ou com animais de estimação, inspirado em filmes ou livros, e tendo em conta a sustentabilidade ambiental. Na verdade, esta última deixou de ser um “selo” de marketing, para ser um critério de exclusão, sobretudo quando falamos das gerações mais novas. E o próprio setor do turismo tem vindo a comprometer-se: no plano nacional, a Estratégia Turismo 2027 assentava na afirmação do “‘turismo como hub para o desenvolvimento económico, social e ambiental em todo o território, posicionando Portugal como um dos destinos turísticos mais competitivos e sustentáveis do mundo’. Através da Estratégia Turismo 2035, Portugal pretende alicerçar a sua vantagem competitiva nos princípios de sustentabilidade, na oferta diversificada e na valorização de suas características distintivas e inovadoras, colocando as pessoas no centro da sua estratégia”, refere o Turismo de Portugal.
Quanto às experiências personalizadas, já começam a ser as preferidas. Hoje, as viagens são desenhadas tendo em conta o estado de espírito ou interesses, em vez de um pacote turístico padrão. De acordo com o Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo (IPDT), algumas das tendências do turismo para este ano são já nesse sentido: autocuidado estético, viagens por estado de espírito, turismo literário/ler em viagem, silêncio como produto ou viagem como ritual de sentido.
Com a inteligência artificial (IA) a fazer cada vez mais parte das nossas vidas, também ela fará parte do setor do turismo. De acordo com o Travel BI, “muitas aplicações relacionadas com a IA já têm vindo a ser adotadas, maximizando a capacidade de inovação para apoiar o desenvolvimento do turismo sustentável e inclusivo”. Mas mais ainda pode vir a ser feito, como:
Também do lado do turista, a utilização da IA parece já ser uma tendência: “ajusta rotas, sugere experiências e interpreta padrões sem se impor. Funciona como intuição aumentada, não como protagonista”, refere-se no site do IPDT. Contudo, o instituto realça: “O viajante quer tecnologia, mas não quer abdicar do humano. Valoriza a eficiência, mas desconfia da automatização excessiva. O equilíbrio é claro: a IA trabalha nos bastidores; a hospitalidade continua no centro.”
Sustentabilidade, experiências personalizadas e um turismo mais tecnológico começam já a espreitar neste setor. Certamente que na próxima década, estas tendências estarão mais afinadas e assertivas. Mas o que esperar do turismo de 2036?
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