O Cazaquistão é uma ex-República Soviética (o que é visível em alguma da arquitetura) que está a investir para ganhar a corrida do digital a nível mundial. O país impressiona pela modernidade dos edifícios e pela intensidade da nova construção imobiliária. Astana, que se tornou a capital apenas em 1997, é uma cidade que aposta em ser futurista. Tudo está em construção. Uma da maiores mesquitas (maioria populacional é muçulmana, principalmente sunita, cerca de 70%-75%, e com uma significativa minoria cristã ortodoxa russa, de cerca 20-26%) foi construída em 2022. O que dá uma ideia do quão recente é a construção na cidade.
O Ministro da Inteligência Artificial e Desenvolvimento Digital cazaque, que desempenha também as funções de Vice-Primeiro-Ministro, Zhaslan Madieyev, revelou num encontro com jornalistas europeus, à margem da grande conferência de digitalização – Freedom Inside ’26 –, algumas das metas de digitalização deste país que está em construção desde a independência em 1991.
“O Cazaquistão tem investido substancialmente na transformação digital nos últimos dez anos e já tem alcançado alguns resultados: É o 24º país do ranking global do UN E-Governament index e está em 10º lugar no ranking de serviços online”, disse o Ministro num encontro com jornalistas que viajaram a convite da FreedomHolding Corp., um conglomerado financeiro e tecnológico que criou um vasto ecossistema de serviços digitais no país da Ásia Central.
O UN E-Government Development Index (EGDI) é uma ferramenta de avaliação da Organização das Nações Unidas (ONU) que mede a prontidão e o desempenho dos governos na utilização de tecnologias de informação e comunicação (TIC) para fornecer serviços públicos. Classifica 193 Estados-membros com base em infraestrutura, capital humano e serviços on-line.
“Há mais de 1.300 serviços no Cazaquistão e mais de 90% deles estão disponíveis on-line. São quase 40 documentos disponíveis em formato digital. De acordo com a lei, documentos digitais são equivalentes a documentos físicos então, praticamente, no Cazaquistão, nós não carregamos nenhum documento físico” refere o ministro que revela que ele pessoalmente, não carrega nenhum documento físico, quer seja para pagar transportes, eletricidade, quer sejam serviços bancários ou serviços públicos.
Madieyev explica que o Governo decidiu “desmonopolizar a plataforma” que agora está disponível para todos os serviços privados. “Há uma enorme colaboração com o setor privado, especialmente as instituições bancárias”, disse o governante que citou um exemplo: “através da plataforma de governo, pode vender-se um carro num período de 3 a 5 minutos”. Citou ainda o caso das hipotecas digitais para compra de imóveis do Freedom Bank.
“Então o Cazaquistão é quase uma economia sem dinheiro, pois quase 90% das transações acontecem sem dinheiro, e os bancos, como o Kaspi, o Freedom Bank e o Holic Bank, são aqueles que se desenvolvem nesse mercado e ajudam a nos transformarmos numa economia sem dinheiro físico”, refere o ministro do Cazaquistão.
O Cazaquistão é também um dos países pioneiros na Central Bank Digital Currency (CBDC) e, segundo o ministro, já foi adotado em grandes projetos de PPP (parcerias público-privadas). O país da Ásia Central lançou oficialmente a primeira fase da sua moeda digital (CBDC), o Tenge Digital, em 15 de novembro de 2023. A partir deste ano, o Cazaquistão iniciou a transição de todos os orçamentos governamentais para o Tenge Digital.
Lançado inicialmente em novembro de 2023, o Tenge Digital passou por fases de teste até chegar à implementação em larga escala. Diferente do dinheiro comum em bancos (digitalizado), o CBDC é um token emitido pelo Banco Nacional do Cazaquistão (NBK) que funciona numa blockchain própria ou integrada.
O Cazaquistão integrou o seu CBDC com a rede BNB Chain (da Binance) para “fazer a ponte” entre o setor financeiro tradicional e o ecossistema cripto. Em março de 2026, o Banco Central do Cazaquistão anunciou planos de investir até 350 milhões de dólares das suas reservas em ativos e infraestrutura de criptomoedas.
O país já tem o cartão CBDC que é o primeiro cartão deste tipo na região, integrado com redes como Visa e Mastercard, permitindo o uso em qualquer terminal POS comum.
Zhaslan Madieyev explica que o Cazaquistão também tokenizou a blockchain. A fase avançada da infraestrutura financeira do Cazaquistão em 2026 está espelhada também no facto de país não apenas ter criado uma moeda digital de banco central (CBDC), algo que o Banco Central Europeu ainda está a tentar criar, mas também por ter integrado tecnologias de tokenização e programabilidade diretamente na sua economia.
Segundo o Governo cazaque este passo visou aumentar a transparência, permitindo o “rastreio inteligente” de fundos públicos (ex: dinheiro para estradas só pode ser gasto em materiais de construção).
O Banco Nacional autorizou projetos para tokenizar as suas reservas de ouro. Isso significa converter o ouro físico em tokens digitais na blockchain, permitindo que o país use essas reservas de forma “mais ágil e transparente como garantia ou investimento”.

Astana Hub quer criar unicórnios
O Cazaquistão posicionou-se como a maior base de serviços digitais da região. Astana Hub é o maior parque tecnológico internacional de startups da região. O ecossistema abriga mais de 2.000 empresas, desde pequenas startups a gigantes tecnológicas, e o Governo dá benefícios fiscais e estatuto de “residente”.
“Este ano as exportações de IT do Cazaquistão superaram as estimativas, as estatísticas oficiais estarão disponíveis esta semana, mas, de acordo com as nossas estimativas, superámos mil milhões de dólares por ano, o que é 30 vezes mais do que há 5 anos atrás. Cerca de 65% a 70% desse montante vem de empresas que estão ligadas ao Astana Hub, o que mostra que a estratégia de criar um porto seguro para empresas de tecnologia funcionou”, disse o Ministro da Inteligência Artificial e Desenvolvimento Digital cazaque.
“O Astana Hub está em todas as grandes cidades do Cazaquistão, ou seja, em 20 cidades, e mais do que isso, expandiu-se globalmente.
Nós já temos um centro de IT em Silicon Valley, no ano passado abrimos em Shanghai e no Dubai. Esta é a infraestrutura que as nossas startups podem usar para expandir para os mercados globais, para passar pelos programas de aceleração, para encontrar as empresas, para ter espaços de trabalho e para expandir para os mercados globais”, disse Ministro.
O Cazaquistão está a construir uma “ponte” para que as suas empresas tecnológicas saiam do mercado local e se tornem Unicórnios (empresas que valem mais de 1 milhão de dólares).
“Também, no ano passado, lançamos os fundos de fundos de venture capital”, disse o governante cazaque referindo-se ao investimento de mil milhões de dólares. O governo não dá o dinheiro diretamente às startups, em vez disso investe em GPs (General Partners), que são gestores de fundos de capital de risco privados, sendo que 150 milhões já estão em movimento. Como um unicórnio demora, em média, 6 a 7 anos a ser construído e exige rondas de investimento cada vez maiores, o governo do país quer garantir que esse capital esteja disponível para que as startups não morram ou saiam do país por falta de fundos.
O Ministro da Inteligência Artificial e Desenvolvimento Digital cazaque disse que o governo quer que os bancos tradicionais, que têm muita liquidez comecem a investir em Venture Capital (Capital de Risco) e explica que estão a criar leis para que os bancos possam investir em startups de tecnologia de forma segura e legal, algo que normalmente está restrito aos sistemas bancários tradicionais.
Segundo, Madieyev o Cazaquistão não quer apenas “usar” IA; quer ser um líder em Inteligência Artificial. Para isso, o governo focou em três pilares. O primeiro consistiu em criar um Ministério dedicado à IA (remodelando o antigo Ministério Digital), depois apostou na construção de centros de dados e capacidade de computação e por fim investiu na formação de especialistas e talentos na área.
Paralelamente, elevaram as leis digitais ao nível de “Código” o que, explica, confere mais estabilidade jurídica.
O objetivo da nova Lei de IA e do Código Digital não é “proibir” ou “limitar” a tecnologia com burocracia, mas sim estabelecer padrões éticos, ou seja, garantir o uso responsável, explicou.
A criação de um Conselho de IA diretamente sob a autoridade do Presidente do país significa que as estratégias de IA são decididas no topo da hierarquia do país, acelerando a execução. “Nós já tivemos o nosso primeiro encontro, em outubro”, disse o ministro.
O Ministro da Inteligência Artificial e do Desenvolvimento Digital do Cazaquistão, Zhaslan Madiyev, descreveu a estratégia do país para alcançar a soberania tecnológica através de três pilares: infraestrutura de hardware, desenvolvimento de modelos próprios e incentivos económicos.
O Cazaquistão lançou dois grandes clusters para processamento de IA, ambos equipados com tecnologias de ponta da Nvidia (chips H200).
O governo está a posicionar o país como um hub tecnológico global através de energia barata (alocação de 300 MW a um custo de 2,5 cêntimos por kWh para empresas de tecnologia” e através de benefícios fiscais. Implementou a taxa zero de IVA e isenção de impostos de importação para equipamentos de alta tecnologia.
Por outro lado, criou aquilo que chama de regime de Embaixada de Dados, e que consiste num regime jurídico que permite a outros países ou empresas armazenar dados no Cazaquistão com garantias de imunidade e jurisdição especial.
O Cazaquistão assume-se como um corredor digital estratégico entre a Ásia e a Europa, investindo na expansão da fibra ótica para 92% das localidades (vilas) até 2026 e na cobertura 5G para impulsionar a inteligência artificial.
“O 5G está a ser desenvolvido. No final do próximo ano, as grandes cidades serão cobertas por 75% do 5G, as pequenas cidades por 60%”, explicou.
O plano inclui a diversificação de rotas de dados (Transcafé), a integração de satélites LEO (Starlink, Eutelsat) e a formação de 500 líderes de IA através de parcerias com Stanford e OpenAI para atuar como um hub regional.
Para além de o Starlink (SpaceX) e do Eutelsat já operarem oficialmente, país está a testar o Amazon Kuiper e o sistema chinês Shanghai Spacecom.
Este projeto Transcafé visa diversificar as rotas de fibra ótica que atravessam o país, capturando entre 1,5% a 5% do tráfego de dados entre a Ásia e a Europa, posicionando o Cazaquistão como um corredor digital estratégico.
O governo também prevê capacitar um milhão de pessoas e instituir 20 a 25 unidades especializadas para a aplicação prática da IA na economia e nos serviços públicos. As 20 a 25 agências de IA referem-se a unidades especializadas dentro de diferentes ministérios e setores para aplicar soluções práticas de IA na economia e serviços públicos.
Há planos para tornar a literacia em IA obrigatória para funcionários públicos no futuro. Foi lançado um programa de certificação com a Universidade de Stanford para formar 500 líderes (90% do setor privado) que serão os “C-level” responsáveis por implementar estratégias de IA nas empresas cazaques.
O governante mencionou ainda o novo Centro Internacional de Inteligência Artificial do Cazaquistão, um projeto estratégico para transformar o país num hub tecnológico global. O Cazaquistão não quer limitar a revolução da IA apenas à capital, Astana. O plano é replicar o modelo do Centro Internacional de IA em 10 regiões do país simultaneamente, descentralizando o acesso a supercomputadores e formação técnica.
O ministro falou também da Fábrica de Startups que atua como um hub de aceleração de elite, integrando o programa AI Premieres com recursos da Nvidia e Modelos de Linguagem de Grande Escala (Large Language Models ou LLMs) nacionais, além de parcerias com o Google for Startups, Alchemist e StartX.
“No sétimo andar do edifício, concentram-se os centros de Inteligência Artificial e laboratórios de I&D de grandes empresas tecnológicas. Este espaço acolhe o inédito Telegram AI Lab, o primeiro do género no mundo, acompanhado pelo Apple Vision Lab e pelo Centro de Formação e Engenharia da Google. A este ecossistema junta-se o Hicksville, o primeiro unicórnio de IA da região, que atingiu essa avaliação no último ano e já se encontra operacional e a financiar novos projetos”, disse o Ministro.
Além destes gigantes tecnológico, o mesmo andar “integra o Smart City Lab, o Tom Blockchain Lab e laboratórios de empresas locais de relevo como a Freedom, a Yandex e a Caspi. Este hub de Big Tech foi desenhado para fomentar a colaboração direta com startups e garantir a contratação de estudantes talentosos. Por fim, no quarto andar, situa-se o Gabinete do Governo para a IA, responsável pela vertente institucional e regulatória”.
Cazaquistão quer ser hub global de criptomoedas
O Cazaquistão está também a tentar tornar-se num hub global de criptomoedas, criando regras claras, atraindo grandes empresas e conectando o sistema financeiro tradicional com o digital.
Por fim o governante do Cazaquistão disse que “já fomos líderes mundiais em mineração [de Bitcoin], agora estamos no top 10”.
O país já foi um dos maiores centros de mineração de criptomoedas do mundo (principalmente Bitcoin). Isso aconteceu porque tinha energia relativamente barata e regras mais flexíveis. Agora caiu um pouco no ranking, mas ainda é relevante, explicou.
“Grandes exchanges estão a entrar” disse o Ministro de IA que cita empresas como as Binance; Bybit; Bitfinex; e Kraken. “Estas empresas estão a pedir licenças para operar legalmente no país, o que mostra que o Cazaquistão quer atrair players globais”.
“Já dá para converter dinheiro normal em cripto”, revelou ainda. “Foram criados canais oficiais entre bancos tradicionais e plataformas cripto, o que permite trocar dinheiro por cripto facilmente”.
A “mineração também é regulada”, disse explicando que as empresas que mineram criptomoedas agora têm regras claras, o que ajuda a controlar o consumo de energia e a estimar o impacto económico.
O governo do Cazaquistão promove hackathons (eventos de tecnologia) para atrair talentos e desenvolver o ecossistema tech.
Por fim Madieyev destaca que há colaboração entre o governo cazaque, os bancos, os reguladores e parceiros internacionais, o que traduz a existência de uma estratégia coordenada (não é algo isolado). “O apoio político de alto nível é importante, porque dá estabilidade e um sinal positivo para investidores”, sublinhou.
O Cazaquistão tornou-se o segundo maior minerador de Bitcoin do mundo em 2021 após a proibição da atividade na China.
Jornalista viajou a convite da Freedom Holding
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