Num registo de euforia, e apesar de ainda não ter sido desta que o Syriza conseguiu uma maioria absoluta, Alexis Tsipras vincou, no seu discurso de vitória, que o novo Governo da Grécia, formado em coligação com o partido nacionalista de direita Gregos Independentes, que obteve 3,69% dos votos, será “um Governo de combate, pronto para travar as batalhas necessárias para defender os direitos do povo grego”.
Contudo, esta atmosfera de celebração não é suficiente para camuflar a árdua tarefa que aguarda Tsipras, responsável doravante por conseguir consensos enquanto lidera uma Grécia que tem de enfrentar nova onda de austeridade.
Por isso, os media helénicos falam hoje de “uma segunda oportunidade” que os gregos acharam por bem dar a Tsipras e do trabalho difícil que o espera, particularmente, no que diz respeito à aplicação do novo pacote de austeridade exigido em troca do terceiro resgate financeiro, de 86 mil milhões de euros, bem como a necessidade de recuperar um país sufocado pela dívida. Sem esquecer o dossier da migração que continua a agigantar-se.
No entanto, em matéria de prioridades, num muito curto prazo, os analistas apontam a recapitalização dos bancos, as medidas de alívio do peso da dívida e a colocação em funcionamento de um fundo para gestão das receitas das privatizações exigidas pelos credores.
Mercados. A vitória do Syriza, a confiança no euro e Portugal
Apesar de já ser conhecida a intenção do Syriza em avançar com a coligação com o Gregos Independentes, os mercados arrancaram hoje centrados nas opções possíveis desejando a coligação mais improvável, Syriza e Nova Democracia. Apesar do líder do segundo partido mais votado nunca ter negado essa possibilidade, e Tsipras se ter decidido pelo partido nacionalista de direita, “para os mercados, considerando as posições atuais de ambos os partidos, seria a solução revestida de maior tranquilidade para os investidores”, sublinha Pedro Ricardo Santos, gestor da XTB Portugal.
O analista explica ainda que, ainda assim, a negociação do euro manteve-se praticamente inalterada, nesta madrugada, tendo a divisa europeia registado apenas uma ligeira subida. O facto da vitória nas eleições gregas ter sido atribuída a um partido que hoje excluí a possibilidade do Grexit, é revelador de alguma confiança depositada no futuro da união monetária.
Para Pedro Ricardo Santos, importa ainda sublinhar que, a confiança na economia portuguesa não é, neste momento, afetada pela situação na Grécia. “Relembro que a S&P colocou Portugal a um nível de saída de lixo, ainda na semana que passou, ou seja justamente antes das eleições gregas. Apesar de vivermos um período eleitoral, a saúde da economia nacional é reconhecida pelas principais agências de rating. Os resultados do esforço de ajustamento oferece aos mercados confiança, seja qual for o resultado da escolha dos portugueses no próximo 4 de outubro”, conclui.
As principais praças europeias despertaram, nesta primeira sessão da semana, com valorizações ligeiras, sendo o índice alemão, o único a apresentar uma queda mais acentuada. O sector automóvel está a provocar esta desvalorização no DAX, devido às recentes notícias que desvendaram algumas ilegalidades neste sector. Os outros índices estão a garantir alguns ganhos devido à votação na Grécia, que abre boas perspetivas para a Europa.
Ainda sobre a reação dos mercados às eleições na Grécia, Steven Santos, gestor do BiG, acrescenta que apesar do abrandamento económica da China e o próximo passo da Reserva Federal terem absorvido todas as atenções dos investidores no último mês, as eleições gregas comportavam um sério risco de instabilidade. “Todavia, com os gregos a reelegerem o partido de Tsipras e a reforçarem a sua legitimidade política, há a ameaça de que o Syriza incremente a sua retórica anti-austeridade nas próximas semanas, o que teria uma leitura negativa para os índices acionistas europeus, sobretudo para o índice grego ASE, que subiu cerca de 23% desde os mínimos registados a 24 de Agosto”, sublinha o gestor.
Em sua opinião, para as ações portuguesas e as Obrigações do Tesouro, o impacto específico das eleições gregas deverá ser diminuto, uma vez que o mercado continua a não penalizar Portugal devido ao comportamento mais ou menos errático da Grécia. Como prova disso, a agência S&P melhorou o rating soberano poucos dias antes das eleições na Grécia e apenas duas semanas antes das eleições legislativas em Portugal. “Se a S&P receasse um eventual contágio negativo da Grécia a Portugal, teria provavelmente aguardado os desenvolvimentos políticos antes de concretizar o upgrade ao rating soberano”, sublinha Steven Santos.
“Qualquer variação registada deverá dever-se mais à influência dos índices europeus do que a associações específicas a Portugal. De facto, a correlação positiva entre a Grécia e Portugal, que atingiu níveis extremos em 2012, parece fazer parte do passado, o que revela bem o caminho positivo que a percepção externa de Portugal trilhou”, conclui.
Sónia Bexiga/OJE
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