Este é um daqueles (poucos) destinos em que, à partida, sabemos muito pouco. Se quisermos adoptar um estilo turístico encontramos pouco ou nada em formato de guia de viagem ou de informação na Internet. O que ali me levava era o trabalho. Porém, não acredito em negócios fora do contexto social em que estão inseridos. Seremos sempre peixes fora da água e a probabilidade de sucesso cai abruptamente. A partida tinha sido precedida de múltiplos telefonemas e fui criando alguma sensibilidade aos interlocutores. Este era um dos escassos pontos de contacto.
A entrada foi feita por Jeddah, a cidade do Porto Islâmico. A aproximação aérea nocturna proporcionou uma visão nítida de uma extensa cidade muito iluminada, com o repuxo Rei Fahd a pontuar a paisagem. O voo, com origem de Istambul estava praticamente vazio. Perto de mim uma turca e uma coreana adoptaram as regras locais cobrindo-se com abayas. Barreira alfandegária ultrapassada e a indumentária masculina branca prolifera em contraste com a burka negra das mulheres. Saio do aeroporto. Ao virar do dia e o calor acima dos 33 graus e a humidade total deixam-me atordoado. Uns “voluntários” tratam-me do transporte apontando para um logótipo bordado na farda e dizendo repetidamente “it’s official” num inglês quase impercetível. Os carros são na sua maioria brancos. Ensonado percorri cerca de duas dezenas de quilómetros a uma “velocidade considerável”. O que me esperava?
Rapidamente percebi que a sociedade saudita é muito peculiar. No dia-a-dia é possível observar que é claramente estratificada. Os sauditas decisores têm uma formação académica de topo, são excelentes conversadores e ainda melhores anfitriões. Fiquei surpreendido. Não me lembro de, nos países árabes, ser tão bem acolhido como no “Reino” como é frequentemente referido pelos súbditos e residentes. Depois nota-se que a gestão quotidiana está confiada a estrangeiros como, por exemplo, libaneses ou egípcios, nomeadamente nas funções de intermédias. No pequeno comércio ou nos táxis a dominam ou paquistaneses e filipinos que guiam loucamente. A proximidade de Meca faz-se sentir – muitos muçulmanos estão de passagem a caminho do local mais sagrado da sua religião onde, provavelmente, não voltarão; é uma peregrinação de uma vida para muitos.
Aqui e acolá as marcas de uma nova arquitectura e de uma monumentalidade que o país dedica o seu esforço que traçar uma identidade visual, espacial. Nascem, de forma muito planificada, novos aglomerados de edifícios de serviços e habitação, ainda que se sinta o “work in progress” – a visão plurianual é comum em muitas realidades.
Voei para a capital num avião de uma companhia local. Depois das últimas filas de bancos, entre cortinas, um espaço para oração. Nunca o tinha visto a bordo de um avião. Aterrei. Ríade: uma súbita proximidade. A baixa da cidade tem muito de ocidental. Um ritmo familiar, montras com as marcas de NY ou Londres, a sofisticação do parque automóvel num misto de luxo de Cadillacs e Bentleys. Os franchisings americanos multiplicam-se. Numa e noutra cidade os malls estão por todo o lado. Estou certo que muito do sucesso do modelo fica a dever-se ao… ar condicionado – não foram poucas as vezes que tive de suportar mais de 40 graus engravatado; sim, porque os sauditas apreciam o formalismo e não me atrevi a quebrá-lo.
A cidade está a crescer muito rapidamente. A malha urbana cresce mais do que se renova – tudo é novo, tudo é moderno. O metro será uma realidade em breve, e não é pequeno. Em muitos países do mundo árabe é comum encontrar a terminologia dos “mega projectos”, designação sem margem para dúvidas e… sem qualquer dose de exagero. Fico, muitas vezes, com a sensação que este país é subestimado face a outros países árabes em que a “propaganda visual” é mais forte. A importância do seu papel na região é commumente reconhecida mas creio que pode aumentar muito mais. Cumprindo-se muitos dos planos que a Arábia Saudita para para a sua economia será uma potência muito para além do petróleo dentro de pouco tempo. É, por isso, uma terra de oportunidades que dá sinais de abertura. Gostava de ver os empresários portugueses mais próximos do reino, até porque a receptividade é grande. Importa, no entanto, conhecer a cultura local e criar envolvimento com parceiros locais. Para os empresários portugueses pensar fora de caixa pode muito bem passar pelo Reino.
Por Luís Varela Marreiros
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