O presidente Recip Erdogan já o disse: o kemalismo (herança do sistema político instalado com a república, dirigida a partir de outubro de 1923 por Mustafa Kemal Ataturk) foi um parêntesis na história da nação. O novo poder turco, que se prepara para constitucionalizar o presidencialismo – que já é uma realidade em muitos setores da vida do país desde o golpe falhado de julho de 2016 –, quer regressar ao otomanismo de contornos modernos. O neo-otomanismo é uma aposta na diáspora otomana, espalhada por uma vasta área de toda a Ásia, que, na visão de Erdogan, permitirá atingir dois objetivos primordiais: o desenvolvimento económico e a criação de uma potência regional.
Neste quadro, a solução da guerra na Síria é fundamental: o estado de guerra contribui para o confronto entre nações que pretendem atingir a qualidade de potência regional – com a Turquia a ter que se haver com vontade semelhante por parte de, pelo menos, a Rússia, o Irão e muito possivelmente Israel. Sendo muito duvidoso que a Turquia possa, só por si, atingir uma vitória militar, o estabelecimento de uma paz negociada e controlada por instâncias internacionais é fundamental.
Quando isso acontecer, a Turquia voltará ao seu papel tradicional: a do Estado que serve para equilibrar as forças quase sempre conflituantes entre o Oriente e o Ocidente. E é nesse quadro – ou seja, como a nação que interessa a todos ter como país amigo – que a Turquia pode lançar as bases de um novo desenvolvimento económico, assente na internacionalização (como aliás já acontece, por exemplo, no setor da construção).
O conceito de otomanismo é tão antigo como o fim do império otomano (1923) e ao longo do tempo foi-se travestindo de diversas formas, algumas delas tendencialmente violentas. O turanismo e o panturquismo são as versões mais conhecidas – e a sua importância revela-se pelo facto de serem ideologias dominantes no seio do Partido de Ação Nacionalista, que nas eleições de novembro de 2015 atingiu 12% dos votos e 40 lugares no parlamento (mesmo assim, bem longe do máximo de 80 das eleições anteriores).
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