A Bolt é uma das empresas no sector do transporte de passageiros individual legisladas em Portugal. Por ter sido um dos sectores que mais sofreu durante a pandemia, dado que muitos motoristas trabalham por conta própria, o Jornal Económico foi tentar perceber o que a empresa pensa sobre a possibilidade de mudanças na legislação nacional, nas manifestações que têm acontecido pelos motoristas de TVDE e também o que têm feito para que os motoristas agregados à plataforma se sintam confortáveis.
Nuno Inácio, responsável pelos serviços de ride-hailing da Bolt Portugal, admite que a empresa já recebeu o caderno de encargos com os pedidos dos motoristas, cujas propostas pretendem modificar a forma como o negócio está a ser realizado, que já deixou o seu parecer e recomendações após reunião com o Governo, IMT e AMT.
Ao Jornal Económico, o responsável falou ainda sobre a subida da comissão paga pelos motoristas à empresa e ainda sobre o que pode motivar os motoristas face às atuais circunstâncias que enfrentam.
Um dos pedidos atuais dos motoristas é a introdução de uma tarifa fixa, dado que gastam mais do que recebem. O que podem as empresas de TVDE fazer sobre isto?
Durante a última greve de motoristas TVDE, a Bolt recebeu nos seus escritórios o caderno de encargos com os pedidos por parte dos motoristas TVDE. Na próxima semana, a equipa da Bolt vai reunir os representantes do movimento no sentido de avaliar as suas propostas e ouvir as suas preocupações.
Tendo sido realizado um relatório de atividade já entregue ao Governo, a Bolt espera alguma alteração à Lei Uber?
A Bolt reuniu com o IMT, a AMT e o Governo durante a elaboração do relatório de atividade, tendo deixado o seu parecer e as suas recomendações para a evolução do sector. Aguardamos que a proposta seja agora apresentada e temos a expectativa de que as alterações tenham em conta o bem-estar de todos os parceiros envolvidos e o desenvolvimento deste mercado.
Numa entrevista à “TSF”, a presidente da AMT declarou ser a favor de mexidas na lei, nomeadamente a transparência da formação dos preços e o aumento de coimas para as empresas. Qual a opinião da Bolt sobre este assunto?
Estamos a par das declarações da presidente da AMT no que toca à formação de motoristas TVDE e à mudança no cálculo do algoritmo que vem, naturalmente, influenciar os ganhos dos motoristas. Neste sentido, trabalhamos diariamente para que todos estes desenvolvimentos no sector ocorram com o nosso contributo, de forma eficiente e sustentável. Neste tema, temos como principal objetivo o de manter a Bolt como uma voz ativa em processos de avaliação da lei, procurando garantir um serviço com preços competitivos para o mercado e o maior lucro possível para os nossos parceiros.
O elevado preço dos combustíveis pode levar a um aumento do preço da atividade?
Acompanhamos de perto a evolução dos preços dos combustíveis e avaliamos frequentemente quais devem ser os próximos passos, de forma que os nossos parceiros tenham o maior lucro possível no serviço prestado e os nossos utilizadores o preço mais competitivo.
Com o trabalho em slow mode nos últimos dois anos devido à pandemia, qual a aposta da Bolt para motivar os seus motoristas?
Estamos conscientes de que a pandemia representou um enorme desafio para muitos sectores, sendo que o da mobilidade foi um dos afetados. Motivadas pelo isolamento obrigatório que se prolongou durante vários meses seguidos, as pessoas deixaram de sair de casa e, por isso, de recorrer a serviços de transporte TVDE. Sentimos que, finalmente, este sector está novamente a retomar ao ritmo pré-pandemia e, por isso, temos desenvolvido algumas iniciativas para incentivar e motivar os motoristas parceiros da Bolt. Exemplo disso, é a campanha “Super Liga”.
Em que consistiu essa campanha?
A Campanha Super Liga foi a mais recente iniciativa que promovemos para motivar todos os nossos motoristas. Teve como objetivo, através de um sistema de pontos, premiar os melhores condutores, baseando-se em três critérios que incluíram o número de viagens finalizadas, num máximo de 10 horas diárias, a taxa de aceitação de viagens e os ratings dados pelos utilizadores da aplicação. No final, o nosso condutor que somou o maior número de pontos, recebeu um prémio de mais de cinco mil euros, o segundo classificado mais de dois mil euros e o terceiro mais de 1.500 euros. Todas as semanas, premiámos ainda 24 condutores com base nestes mesmos critérios, com prémios de 100 euros.
Os resultados desta campanha deixaram-nos muito orgulhosos e sentimos que do lado dos motoristas houve uma motivação acrescida em desempenhar um bom serviço e, consequentemente, acumular pontos para receber os prémios.
Quantos motoristas têm atualmente inscritos na plataforma?
Atualmente, não é possível detalhar o número exato de motoristas que temos inscritos na nossa plataforma. No entanto, temos parcerias com vários gestores de frotas, onde estão presentes motoristas que trabalham com a Bolt e que nos ajudam a prestar um serviço de excelência aos nossos utilizadores.
O sector dos TVDE ainda está em terreno neutro em termos de legislação. Consideram que empregar os trabalhadores independentes poderia funcionar como motivação?
Com base na nossa experiência, consideramos que o sector tem um enorme potencial de crescimento e, nesse sentido, trabalhamos diariamente para fazer tudo o que está ao nosso alcance para ajudar a que este desenvolvimento aconteça da forma mais eficiente e sustentável possível, sendo que o nosso objetivo principal é sempre o bem-estar de todos os parceiros envolvidos.
Neste sentido, sentimos que tem havido um esforço em perceber quais as necessidades do sector e em criar medidas para o completar da melhor forma. Acompanhamos diariamente todas estas evoluções e trabalhamos para garantir motoristas motivados, que prestam um serviço de excelência aos nossos utilizadores.
Tendo isto em consideração, realizámos, em 2021, um inquérito sobre as preferências dos motoristas portugueses. Os resultados mostraram que uma maioria dos motoristas e estafetas da Bolt não quer ser empregado pelas plataformas. Desta forma, fica claro que os condutores preferem a flexibilidade de poderem definir os seus próprios horários e decidir em que plataforma querem trabalhar. Os dados recolhidos revelaram que 85% dos motoristas dizem preferir ter a liberdade de escolher quando trabalham, em vez de terem um turno fixo e que 75% tem preferência em alternar entre plataformas, em vez de trabalhar numa única empresa.
O nosso inquérito, revelou ainda que 92% dos motoristas de TVDE trabalha em mais do que uma plataforma, sendo este e um dos elementos diferenciadores dos TVDE e dos sectores de entregas – motoristas e estafetas poderem ligar-se a qualquer plataforma que desejam, não havendo exclusividade na relação entre um motorista/estafeta e a plataforma.
Em julho do ano passado aumentaram a comissão paga pelos motoristas à empresa para 20%. Como reagiram os motoristas, numa altura que ainda se mostrava sensível em termos económicos?
A Bolt continua a ter uma comissão mais baixa do que o principal concorrente. Este aumento permitiu ter um maior investimento em produto e em iniciativas de marketing, como por exemplo campanhas de motivação aos motoristas que se refletem com impacto positivo nos próprios motoristas e no utilizador.
Neste sentido, procuramos continuamente promover ações de comunicação junto dos parceiros, com o objetivo de proporcionar o máximo de lucro possível aos motoristas e o menor custo aos utilizadores. Temos ainda uma equipa de desenvolvimento que trabalha diariamente para melhorar o algoritmo de cálculo dos preços e criar opções mais económicas e sustentáveis.
De que forma é que as plataformas digitais – muitas o sustento para os motoristas – têm contribuído para o bem-estar dos trabalhadores?
Acreditamos no enorme potencial de crescimento deste mercado e, nesse sentido, fazemos tudo o que está ao nosso alcance para ajudar a que o seu desenvolvimento aconteça da forma mais eficiente e sustentável possível. O bem-estar de todos os parceiros envolvidos é uma das nossas maiores prioridades e, dessa forma, na Bolt, procuramos ter um papel ativo nos processos de avaliação da lei com o objetivo de criar novas oportunidades e benefícios para os motoristas.
Além disso, mantemos contacto regular com os motoristas, através de inquéritos e outras iniciativas, para perceber como os podemos ajudar e como podemos contribuir para o seu bem-estar. Acreditamos que só desta forma podemos ter motoristas motivados e empenhados em representar a Bolt e a fornecerem este serviço aos nossos utilizadores.
Com base no inquérito que realizámos aos motoristas, conseguimos apurar que os mesmos consideram que existindo rendimento disponível a qualquer hora, é um valor acrescentado as plataformas digitais darem liberdade aos motoristas de adaptar o trabalho às suas ambições. Os objetivos individuais divergem entre motoristas que procuram maximizar o rendimento total e motoristas que procuram apenas um rendimento e atividade complementar. Para eles, esta flexibilidade é atrativa e contribui para um maior equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.
Que dificuldades ainda sentem os motoristas deste sector?
Acompanhamos de perto o trabalho dos motoristas e procuramos continuamente melhorar as suas condições de trabalho. Com base no feedback que recebemos dos mesmos, percebemos que o agravamento de custos operacionais é ainda um grande desafio. É um mercado jovem e estes custos derivam essencialmente da disrupção tanto na cadeia de valor do sector automóvel, como do mercado energético.
Aqui, a Bolt procura apoiar os motoristas, não só através de campanhas de motivação e apoio aos mesmos, mas também, sendo uma voz ativa junto dos órgãos tomadores de decisões e nos processos de avaliação da lei.
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