O NSO Group, uma das empresas de spyware mais sofisticadas do mundo, enfrenta um conjunto de ações legais e escrutínio em Washington devido a alegações de que o seu software foi usado para hackear funcionários do governo e dissidentes ao redor do globo. Foi uma falha de software no iPhone de Loujain al-Hathloul, ativista dos direitos das mulheres sauditas, que despoletou o caso e revelou hackers em todo o mundo.
Segundo a “Reuters”, o ano passado, um misterioso arquivo de imagem falso dentro do telefone, deixado por engano pelo spyware da NSO, alertou os investigadores de direitos de privacidade da Citizen Lab.
A equipa canadiana tinha sido contratada por al-Hathloul, que tinha acabado de sair da prisão sob a acusação de prejudicar a segurança nacional — a ativista é conhecida por ajudar a liderar uma campanha para acabar com a proibição da condução de mulheres na Arábia Saudita — e recebido um e-mail do Google a avisar que hackers apoiados pelo Estado tinham tentado invadir a sua conta do Gmail.
Após seis meses de investigação aos registos do iPhone, o investigador Bill Marczak, da Citizen Lab, encontrou uma descoberta sem precedentes: um defeito no software de vigilância implantado no telefone deixou uma cópia do arquivo de imagem malicioso, em vez de a excluir, após roubar as mensagens do alvo.
Ele disse que a descoberta, o código deixado pelo ataque, forneceu provas concretas de que a NSO construiu a ferramenta de espionagem. “Foi decisivo. Pegámos em algo que a empresa achava que era incapturável”, disse Marczak. A análise foi confirmada por investigadores da Anmistia Internacional e da Apple.
A descoberta resultou levou a Apple a notificar milhares de outras vítimas de hackers apoiadas pelo Estado em todo o mundo e forneceu a base para o processo que abriu, em novembro de 2021, contra a NSO. Ademais, repercutiu-se em Washington, onde as autoridades dos EUA descobriram que a arma cibernética foi usada para espiar diplomatas americanos, incluindo pelo menos nove funcionários do Departamento de Estado americano no Uganda.
Em novembro, o Departamento de Comércio dos EUA colocou a NSO numa lista negra comercial, restringindo as empresas americanas de vender produtos de software da empresa israelita. A organização disse que a ação foi baseada em evidências de que o spyware foi usado para atingir “jornalistas, empresários, ativistas, académicos e funcionários de embaixadas”.
De acordo com a “Reuters”, investigadores de segurança dizem que a descoberta de al-Hathloul foi a primeira a fornecer um modelo de uma nova e poderosa forma de ciberespionagem, uma ferramenta de hacking que penetra dispositivos sem qualquer interação do usuário, fornecendo a prova mais concreta (até ao momento) do alcance da arma cibernética.
Em comunicado, um porta-voz da NSO disse que a empresa não opera as ferramentas de hackers que vende: “O governo, as agências de aplicação da lei e as agências de inteligência é que o fazem”.
O porta-voz não respondeu às perguntas sobre se o software foi usado em al-Hathloul ou outros ativistas. Mas disse que as organizações que fazem essas alegações são “oponentes políticos da inteligência cibernética” e sugeriu que algumas das alegações eram “contratualmente e tecnologicamente impossíveis”. Recusou-se a fornecer detalhes, citando acordos de confidencialidade.
Sem entrar em detalhes, a empresa disse que tinha um procedimento para investigar o alegado uso indevido dos seus produtos e que cortou clientes por questões de direitos humanos.
Embora a Apple tenha determinado que a grande maioria dos alvos foi foram realizados pela ferramenta da NSO, investigadores de segurança também descobriram que o software espião de um segundo fornecedor israelita, QuaDream, aproveitou a mesma vulnerabilidade do iPhone, informou a “Reuters” este mês.
A QuaDream não respondeu aos “repetidos pedidos de comentário” da agência. As vítimas variaram de dissidentes críticos do governo da Tailândia a ativistas de direitos humanos em El Salvador.
Não foi a primeira vez que Al-Hathloul foi hackeada. Uma investigação da “Reuters” revelou que, em 2017, foi alvo de uma equipa de mercenários dos EUA que vigiava dissidentes em nome dos Emirados Árabes Unidos. Foi categorizada como uma “ameaça à segurança nacional” e viu o seu iPhone invadido.
Foi presa na Arábia Saudita por quase três anos, e a sua família diz que foi torturada e interrogada devido às informações roubadas do telemóvel. Foi libertada em fevereiro de 2021 e atualmente está proibida de deixar o país.
A sua experiência deixou-a determinada a reunir provas que pudessem ser usadas contra os que a vigiavam: “Ela sente que tem a responsabilidade de continuar esta luta porque sabe que pode mudar as coisas”, disse a sua irmã Lina al-Hathloul à agência de notícias, que salvaguarda não ter provas do envolvimento da NSO no ataque anterior.
Tagus Park – Edifício Tecnologia 4.1
Avenida Professor Doutor Cavaco Silva, nº 71 a 74
2740-122 – Porto Salvo, Portugal
online@medianove.com