Um dos efeitos colaterais da guerra na Ucrânia é o foco que a imprensa ocidental está a ter pela primeira vez na realização da cimeira (a 22ª) da Organização de Cooperação de Xangai – até agora tida como uma estrutura meramente ‘decorativa’, interessada nuns países que ficam algures na Ásia profunda. A importância de uma organização que junta China e Rússia – para além do Irão – assume este ano proporções renovadas e o diálogo entre os líderes daqueles dois países ombreia, em termos de destaque, com o que vai saindo das primeiras notícias vindas da 77ªa Assembleia Geral da ONU.
E o que é noticiado a partir de Samarcanda não podia ser mais importante: a Organização de Cooperação de Xangai (SCO) precisa de ser fortalecida como uma plataforma para interação construtiva, disse o presidente russo, Vladimir Putin, no final de uma reunião com o presidente chinês, Xi Jinping, à margem da cimeira, refere a agência russa Tass.
“Vamos participar numa reunião do Conselho de Chefes de Estado da SCO. Gostaria de salientar que será realizada pessoalmente pela primeira vez após um hiato de três anos durante a pandemia. É particularmente importante hoje, pois o nosso objetivo é fortalecer a organização como uma plataforma para interação construtiva e criativa”, afirmou Putin.
Segundo o presidente russo, a organização reúne países de diferentes civilizações e culturas, que possuem diferentes prioridades de política externa e modelos nacionais de desenvolvimento. “No entanto, os esforços para construir princípios de igualdade e benefício mútuo, respeito pela soberania de cada um e não ingerência nos assuntos internos de outros, permitiram transformar esta organização num mecanismo eficaz de cooperação multilateral num curto espaço de tempo”, enfatizou o presidente russo, ainda segundo a Tass – que enfatiza o facto de a SCO reúne cerca de metade da população mundial. Putin está confiante de que seu encontro com Xi Jinping dará mais impulso à parceria estratégica russo-chinesa aos níveis bilateral e internacional.
Do seu lado, a imprensa chinesa refere que a cimeira da SCO, que tem sede em Pequim, é um importante bloco económico e de segurança com oito membros (China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Uzbequistão, Índia e Paquistão) e que, após a cimeira de Samarcanda, “onde se espera que o Irão fosse formalmente admitido, a Índia assumirá a presidência do influente grupo de Repúblicas da Ásia Central”.
Dando mais espaço à visita oficial de Xi Jinping ao Cazaquistão, anterior à cimeira, a imprensa chinesa afirma, como a russa, que o encontro dos dois líderes é ocasião para o aprofundamento das relações bilaterais. E enfatiza que Pequim recusou-se a criticar a invasão russa da Acrânia ou mesmo em descrevê-la como uma invasão, ao mesmo tempo que condenou as sanções contra Moscovo e culpa os Estados Unidos e a NATO por provocar o conflito.
De mais concreto, sabe-se que Xi Jinping chamou Putin de “velho amigo”, mas que ambos se sentaram a alguma distância um do outro, nos lados opostos de uma longa mesa oval, ladeados pelas suas delegações.
O líder russo começou criticando aqueles que tentaram “criar um mundo unipolar” e agradeceu a Xi Jinping pela “posição equilibrada dos nossos amigos chineses em relação à crise ucraniana”. “Entendemos as suas preocupações sobre isso”, acrescentou Putin, antes de condenar a “provocação” ocidental no Estreito de Taiwan.
Em resposta, Xi Jinping se concentrou-se na necessidade de trazer estabilidade e segurança a num mundo em desordem. “A China está disposta a trabalhar com a Rússia para desempenhar um papel de liderança na demonstração da responsabilidade das grandes potências e insistir na estabilidade num mundo em turbulência”, disse. Os observadores ocidentais falaram entretanto na evidência de que a relação entre os dois países é cada vez mais desigual – com a China a assumir uma forte preponderância face a uma Rússia cada vez mais pobre e arredada dos palcos mundiais.
Entretanto, o Irão assinou um memorando de entendimento para se tornar membro permanente da SCO, disse o ministro das Relações Exteriores iraniano – culminando assim uma aproximação que se deu na cimeira de há um ano, como o JE noticiou na altura. “Ao assinar o documento de adesão plena à SCO, o Irão entrou numa nova etapa de cooperação económica, comercial, de energia”, escreveu Hossein Amirabdollahian. “A relação entre países que são sancionados pelos Estados Unidos, como o Irão e a Rússia, entre outros, pode superar muitos problemas e questões e torná-los mais fortes”, disse o presidente iraniano Ebrahim Raisi (que também está em Samarcanda) ao seu homólogo russo, Vladimir Putin, durante a reunião em Samarcanda. “Os norte-americanos pensam que qualquer país a que imponham sanções” entrarão em rutura mas “essa perceção é errada”, afirmou.
A imprensa oficial iraniana afirma que o presidente Ebrahim Raisi tem na expansão das relações com os países da Ásia Central uma das suas primeiras prioridades. Raisi fez essas declarações no segundo dia de visita ao Uzbequistão, depois de uma reunião com o presidente do Tajiquistão, Emomali Rahmon.
Segundo informações oficiais, a Bielorrússia também vai assinar documentos para a sua adesão, ao mesmo tempo que o Catar e a Arábia Saudita estarão a ponderar o mesmo.
Também em Samarcanda já está o presidente da Turquia, Recep Erdogan, para participar na cimeira. E está acompanhado de uma comitiva que, só por si, atesta bem a importância que o governo de Ancara atribui ao encontro: para além da primeira-dama, Emine Erdogan, estão em Samarcanda o ministro das Relações Exteriores, Mevlüt Çavusoglu, o ministro da Energia e Recursos Naturais, Fatih Dönmez, o ministro das Finanças, Nureddin Nebati, o ministro da Defesa, Hulusi Akar, o ministro do Comércio, Mehmet Muş, o chefe da Organização Nacional de Inteligência (MIT), Hakan Fidan, o presidente da Organização das Indústrias de Defesa, İsmail Demir, o diretor de comunicações Fahrettin Altun, o porta-voz presidencial İbrahim Kalın e o vice-presidente e porta-voz do partido de Erdogan, Ömer Çelik.
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