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Marco Teles Fernandes: “Vai haver mudança no Seixal, mas não acredito que a Festa do Avante seja a gota de água”

Líder concelhio e vereador do PS temeu que o Seixal se tornasse uma “Ovar 2.0” e acredita que a mobilização contra o evento levou a que muita gente não fosse à Quinta da Atalaia mesmo tendo comprado o bilhete. Marco Teles Fernandes pensa que a realização da Festa do Avante se deveu apenas à obstinação do PCP e ao apoio do executivo camarário comunista.
7 Setembro 2020, 07h50

O presidente da concelhia do PS e vereador da Câmara do Seixal, Marco Teles Fernandes, foi uma das vozes mais críticas desta edição da Festa do Avante, confrontando o executivo camarário comunista com os riscos para a saúde pública. Satisfeito com as restrições que levaram menos pessoas à Quinta da Atalaia, destaca que a contestação pública mostra que a população “perdeu o medo”, abrindo caminho para que nas eleições autárquicas de 2021 possa haver outra força partidária à frente do município, pela primeira vez desde o 25 de Abril.

Aquilo que pôde observar da Festa do Avante deixou-o mais sossegado do que estava antes da abertura de portas, tendo em conta a pandemia de Covid-19?

Se há uma coisa que os comunistas têm de bom é a sua disciplina. Também graças às manifestações de desagrado e à mobilização da população do Seixal, conseguiram que a maior parte das pessoas não fossem à Festa do Avante. Sei de muita gente que comprou entradas permanentes (EP) e não foi. Aliás, conheço casos de pessoas que o fazem habitualmente, para ajudar ao financiamento do PCP, sem nunca virem ao recinto.

Quais eram os seus piores receios?

Temia duas coisas. Mesmo que tudo corresse bem em termos sanitários, como aparenta verificar-se, vai haver muita gente receosa ao longo das próximas duas semanas até ter a certeza de que não houve contágio. E o Seixal já ficou deserto nestes dias, pois ninguém quis ter contacto com a pandemia, e manteve-se em casa ou foi para longe, num efeito que se vai prolongar no tempo, com esses receios a terem efeito na atividade económica. Do ponto de vista sanitário, aquilo é uma festa que, além da vertente cultural e política, tem muito convívio, comes e bebes que motivam excessos e relaxamento das medidas de prevenção. Temia que pudéssemos ter uma Ovar 2.0, que implicasse uma cerca sanitária, quando temos um quarto da população acima dos 65 anos. Senti ao longo deste tempo todo que mesmo no seio dos eleitores comunistas ninguém queria a Festa. Foi uma obstinação do PCP, pois é a sua grande fonte de financiamento e, apesar dos limites impostos à lotação do recinto, poderá ter vendido 60 ou 70 mil EP, com a entidade que fiscaliza as contas dos partidos a admitir que não sabe ao certo quais têm sido as receitas. Aquilo é só lucro para o PCP e para o Seixal não traz mais-valia nenhuma. A mão-de-obra é toda, ou praticamente toda, à borla, quem vem de fora acaba por acampar e come dentro do recinto.

Verificou-se forte contestação à Festa do Avante, com boicotes de comerciantes e mobilização popular contra a realização do evento além das críticas dos restantes partidos. Isso surpreendeu-o?

Foi uma surpresa, mas não absoluta. Houve uma mudança nos últimos anos, sobretudo depois das autárquicas de 2017, na cabeça das pessoas. Antes muita gente dizia que não votava para a câmara porque “eles ganham sempre”. As pessoas começaram a perceber os ventos de mudança e perderam o medo. Os comerciantes foram pressionados para não fecharem as portas e não tiveram medo. Algumas forças apartidárias envolveram-se na contestação, sobretudo na freguesia da Amora, e partidos da oposição, como o PS, manifestaram descontentamento contra a realização da Festa neste ano. Não sou contra a realização da Festa do Avante, mas não num ano como este. Só o apoio financeiro e logístico prestado pela Câmara do Seixal serviu de conforto para a sua realização.

Tendo em conta que o PS reforçou a votação nas legislativas e europeias, sendo o mais votado no concelho, e que nas últimas autárquicas tinha ficado a apenas três mil votos da CDU, acredita que a realização da Festa do Avante é a gota de água que levará a que os comunistas percam a Câmara do Seixal pela primeira vez em 2021?

Acredito que vai haver uma mudança no Seixal, mas não creio que a realização da Festa do Avante seja a gota de água, pois o povo tem memória muito curta e daqui a uns meses ninguém se lembra do que aconteceu. Terá mais a ver com a saturação da população, que está cansada de ver o concelho na cauda da Área Metropolitana de Lisboa. Ao longo das últimas décadas, sempre com o PCP à frente do município, o Seixal cresceu muito e desenvolveu-se pouco. Faltam escolas e faltam estradas. Nas próximas autárquicas o PS irá crescer, pois as pessoas deixaram de acreditar que eles são invencíveis, e querem fazer no Seixal o que está a ser feito desde 2017 em Almada.


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