É impossível saber-se se a investida da Turquia sobre os curdos que se encontram na Síria irá ou não resultar numa guerra mais vasta. Mas, face aos antecedentes históricos e ao emaranhado de questões em confronto, o mínimo que se pode dizer é que a questão não só é de resolução difícil, como está longe de ter uma solução. É mais uma dor de cabeça para António Guterres.
Como vê a crescente confrontação entre a Síria e a Turquia?
A comunidade curda na Turquia tem ligações transnacionais com as comunidades curdas na Síria e no Iraque. Na Turquia, existe uma ligação histórica à contestação ao regime turco. O governo sírio sempre apoiou a comunidade curda na Turquia como forma de oposição ao regime turco.
Qual poderá ser o resultado de mais este confronto?
A questão curda dividida entre Turquia, Iraque e Síria causa-me particular preocupação. Porque os Peshmerga foram particularmente robustecidos do ponto de vista das capacidades militares, tendo agora o potencial de transitarem da luta contra o Daesh para uma posição de força dentro do Estado iraquiano. Ora, do outro lado da contestação a esta posição está a Turquia, que é um parceiro da NATO.
Talvez assim se perceba o pedido urgente de reunião do Conselho de Segurança da ONU da parte do presidente francês, Emmanuel Macron.
Não sei se a agenda já está definida, mas a questão é suficiente para causar uma preocupação significativa.
A pontos de resultar numa guerra aberta entre a Síria e a Turquia?
Tenho sempre muita dificuldade em assumir a contextualização de guerra aberta. Há mais possibilidades de se manterem estes ataques que têm acontecido. Voltamos à mesma narrativa: controlada que está a extensão territorial do autoproclamado Estado Islâmico, voltamos ao ponto prévio no que diz respeito à manutenção do regime de Bashar al-Assad, que conhece a oposição de vários Estados da região, entre os quais a Turquia e a Arábia Saudita. A comunidade curda, particularmente a do Iraque, foi um dos maiores pontos de apoio da coligação internacional contra o Daesh, recebendo uma capacitação monetária e militar que, do ponto de vista analítico, permite pensarem numa maior autonomia.
Face a esse quadro de ajuda contra o Daesh, considera que agora o Ocidente – Estados Unidos e União Europeia – estão de algum modo obrigados a ‘pagar’ com o apoio à autonomia?
O problema é que do outro lado está um aliado da NATO.
Com a agravante de al-Assad ser um aliado ‘sem mácula’ da Rússia.
Mais uma vez, não podemos atender à questão curda, sem atendermos à complexidade das relações no quadro da Aliança Atlântica, nomeadamente a relação entre a Turquia e os Estados Unidos. A Turquia é um dos pilares da NATO mas também da política externa da Casa Branca na região, e essa relação já conheceu melhores dias. Não é possível dividir estas questões, incluindo a da Rússia na Síria, como também não é possível dividir a questão do Irão.
Supondo-se que é preciso começar por algum sítio, que conflito importa resolver o mais brevemente possível?
Qualquer das questões tem um potencial de incapacidade de resolução muito semelhante. Apesar de me parecer que a questão curda tem maior respaldo na comunidade internacional para se alcançar uma solução mediada que o caso da Arábia Saudita e do Irão. De qualquer modo, há uma série de questões que, com o fim do da guerra contra o autoproclamado Estado Islâmico, ganham uma relevância que não tiveram ao longo destes anos.
Artigo publicado na edição digital do Jornal Económico. Assine aqui para ter acesso aos nossos conteúdos em primeira mão
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